{"id":166721,"date":"2026-02-01T17:00:00","date_gmt":"2026-02-01T21:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=166721"},"modified":"2026-02-01T17:00:00","modified_gmt":"2026-02-01T21:00:00","slug":"o-rombo-que-o-governo-chama-de-meta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=166721","title":{"rendered":"O rombo que o governo chama de meta"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>O governo federal anunciou, com ar triunfal, o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/economia\/governo-cumpre-meta-fiscal-2025-rombo-61-bi\/\">cumprimento da meta fiscal de 2025.<\/a> Os n\u00fameros, por\u00e9m, contam outra hist\u00f3ria: um d\u00e9ficit de R$ 61,7 bilh\u00f5es, 32% maior que o registrado em 2024. Ainda assim, gra\u00e7as \u00e0s brechas do novo arcabou\u00e7o fiscal, \u00e0s bandas de toler\u00e2ncia e a uma s\u00e9rie de exclus\u00f5es convenientes, o resultado foi oficialmente celebrado como sucesso. Trata-se menos de responsabilidade fiscal e mais de contabilidade criativa institucionalizada.<\/p>\n<p>O discurso oficial insiste em controle, mas os dados desmentem a narrativa. Em 2025, a arrecada\u00e7\u00e3o cresceu em termos reais, mas os gastos cresceram ainda mais. O resultado foi um rombo gigantesco, uma d\u00edvida crescente e a repeti\u00e7\u00e3o de um padr\u00e3o conhecido: o governo gasta al\u00e9m do que arrecada e, depois, reinterpreta as regras para declarar vit\u00f3ria.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Cumprir meta fiscal com rombo crescente n\u00e3o \u00e9 virtude. \u00c9 um artif\u00edcio. A responsabilidade fiscal n\u00e3o se mede pela habilidade de explorar exce\u00e7\u00f5es, mas pela disposi\u00e7\u00e3o de enfrentar o desequil\u00edbrio estrutural entre receitas e despesas<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O novo arcabou\u00e7o fiscal, vendido como marco de credibilidade, revelou-se um mecanismo el\u00e1stico, capaz de acomodar d\u00e9ficits vultosos sem que a meta seja formalmente descumprida. Basta excluir despesas relevantes \u2013 precat\u00f3rios, ressarcimentos do <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/inss\/\">INSS<\/a>, gastos com defesa e educa\u00e7\u00e3o \u2013 para que o rombo real desapare\u00e7a do papel, ainda que continue pesando sobre as contas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Tesouro Nacional admite que a d\u00edvida p\u00fablica j\u00e1 alcan\u00e7a 79,3% do <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/pib\/\">PIB<\/a> e deve continuar crescendo nos pr\u00f3ximos anos. A Institui\u00e7\u00e3o Fiscal Independente, ligada ao <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/senado\/\">Senado<\/a>, vai al\u00e9m: alerta que, <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/economia\/populacao-paga-taxa-agiota-gastanca-governo\/?ref=veja-tambem\">mantida a trajet\u00f3ria atual, a d\u00edvida pode ultrapassar 100% do PIB e chegar a 117% em 2035<\/a> \u2013 um patamar incompat\u00edvel com a realidade de um pa\u00eds emergente.<\/p>\n<p>Os alertas da IFI s\u00e3o claros e inc\u00f4modos. Segundo seu diretor-executivo, Marcus Pestana, a gastan\u00e7a recorrente pressiona o endividamento e empurra os juros a n\u00edveis estratosf\u00e9ricos. O resultado \u00e9 perverso: toda a sociedade passa a pagar uma \u201ctaxa de agiota\u201d para financiar a fragilidade fiscal do Estado. A l\u00f3gica \u00e9 simples: d\u00e9ficits cont\u00ednuos exigem mais d\u00edvida, que exige juros mais altos, que sufocam investimentos e crescimento.<\/p>\n<p>O problema n\u00e3o \u00e9 recente. Este foi o 12\u00ba ano consecutivo em que o governo gastou mais do que arrecadou. Desde 2014, o pa\u00eds n\u00e3o conhece super\u00e1vit prim\u00e1rio. Mas nos \u00faltimos anos o rombo disparou. Em apenas tr\u00eas anos, a d\u00edvida cresceu quase oito pontos percentuais do PIB. Ainda assim, o governo insiste em tratar d\u00e9ficits crescentes como algo administr\u00e1vel \u2013 e at\u00e9 virtuoso \u2013 desde que enquadrados nas regras que ele pr\u00f3prio flexibilizou.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>A promessa de um super\u00e1vit de 1% do PIB em 2026 soa, nesse contexto, mais como desejo pol\u00edtico do que como plano cr\u00edvel. A pr\u00f3pria IFI \u00e9 categ\u00f3rica: para estancar o crescimento da d\u00edvida, o Brasil precisaria de um super\u00e1vit pr\u00f3ximo de 2% do PIB, algo improv\u00e1vel em um ano eleitoral e ainda mais distante diante da resist\u00eancia do Congresso a novos aumentos de carga tribut\u00e1ria.<\/p>\n<p>Ainda sim, com a desfa\u00e7atez de costume, o governo fala em \u201cresultado satisfat\u00f3rio\u201d enquanto empurra o problema para o futuro \u2013 e para o pr\u00f3ximo presidente, seja quem for. A conta, por\u00e9m, n\u00e3o desaparece. Ela se acumula, corr\u00f3i a confian\u00e7a, mant\u00e9m os juros elevados e compromete a capacidade do pa\u00eds de investir, crescer e oferecer perspectivas reais \u00e0s pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Cumprir meta fiscal com rombo crescente n\u00e3o \u00e9 virtude. \u00c9 um artif\u00edcio. A responsabilidade fiscal n\u00e3o se mede pela habilidade de explorar exce\u00e7\u00f5es, mas pela disposi\u00e7\u00e3o de enfrentar o desequil\u00edbrio estrutural entre receitas e despesas. Enquanto o governo insistir em celebrar d\u00e9ficits como se fossem conquistas, o Brasil continuar\u00e1 pagando caro \u2013 em juros altos, baixo crescimento e oportunidades perdidas \u2013 pela recusa em tratar as contas p\u00fablicas com a seriedade que a realidade exige.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O governo federal anunciou, com ar triunfal, o cumprimento da meta fiscal de 2025. 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