{"id":166389,"date":"2026-01-31T19:58:13","date_gmt":"2026-01-31T23:58:13","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=166389"},"modified":"2026-01-31T19:58:13","modified_gmt":"2026-01-31T23:58:13","slug":"o-paradoxo-da-cidade-que-tem-maior-pib-per-capita-do-brasil-e-moradores-nao-veem-a-riqueza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=166389","title":{"rendered":"O paradoxo da cidade que tem maior PIB per capita do Brasil e moradores n\u00e3o veem a riqueza"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p><strong>Catas Altas<\/strong>, em Minas Gerais, lidera o <em>ranking<\/em> nacional de PIB <em>per capita<\/em>. Com apenas 5.706 habitantes, o munic\u00edpio registra um indicador que seria o equivalente a R$ 920 mil anuais por morador. A produ\u00e7\u00e3o bilion\u00e1ria da minera\u00e7\u00e3o na cidade eleva os \u00edndices econ\u00f4micos, mas mais da metade da popula\u00e7\u00e3o de Catas Altas est\u00e1 registrada na Cadastro \u00danico (Cad\u00danico) para programas sociais do governo federal.<\/p>\n<p>Localizada a 120 quil\u00f4metros de Belo Horizonte, a cidade integra uma regi\u00e3o estrat\u00e9gica de grandes complexos de min\u00e9rio de ferro. A <strong>extra\u00e7\u00e3o mineral<\/strong> forma a base da economia e concentra \u00e1reas de beneficiamento na regi\u00e3o serrana. O munic\u00edpio integra o &#8220;Circuito do Ouro&#8221;, grupo de 15 cidades com heran\u00e7a colonial e arquitetura barroca.<\/p>\n<p>O Produto Interno Bruto (PIB) de Catas Altas se aproxima de R$ 5 bilh\u00f5es. Para compara\u00e7\u00e3o, a cidade de S\u00e3o Paulo registra PIB de R$ 3,5 trilh\u00f5es e PIB per capita de cerca de R$ 70 mil, valor 13 vezes menor que o de Catas Altas. O indicador resulta da divis\u00e3o da soma das riquezas produzidas pelo n\u00famero de moradores e <strong>mede produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, n\u00e3o renda individual<\/strong>.<\/p>\n<p>\u201cA extra\u00e7\u00e3o impulsiona o PIB da regi\u00e3o, mas a economia permanece altamente concentrada. Nesse modelo, a chamada economia do gotejamento n\u00e3o funciona. A riqueza fica no topo e n\u00e3o chega \u00e0s bases&#8221;, contextualiza o economista M\u00e1rio Marcos Sampaio Rodarte, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).<\/p>\n<p>&#8220;Em pequenas e m\u00e9dias cidades com esse perfil produtivo, essa estrutura apresenta uma defici\u00eancia clara e resulta em baixa capacidade de gera\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de renda\u201d, aponta ele.<\/p>\n<h2>Munic\u00edpio com maior PIB <em>per capita<\/em> do Brasil recebe <em>royalties<\/em> da minera\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>A minera\u00e7\u00e3o responde por cerca de 90% da economia de Catas Altas e sustenta uma ampla cadeia de log\u00edstica, servi\u00e7os e empregos. Empresas como <strong>Vale<\/strong> e <strong>Samarco <\/strong>mant\u00eam opera\u00e7\u00f5es no territ\u00f3rio. Esse peso ajuda a explicar os indicadores elevados de produ\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o proporciona que a riqueza permane\u00e7a no munic\u00edpio.<\/p>\n<p>\u201cO PIB <em>per capita <\/em>mede o valor gerado no munic\u00edpio, mas isso n\u00e3o significa que a renda permane\u00e7a ali. Um empreendedor pode morar em Itabira e ter uma padaria em Catas Altas. Nesse caso, o lucro do neg\u00f3cio tende a ficar na cidade onde ele vive e investe, n\u00e3o necessariamente onde a atividade econ\u00f4mica ocorre\u201d, explica o economista Mauro Sayar Ferreira, da Faculdade de Ci\u00eancias Econ\u00f4micas da UFMG.<\/p>\n<p>Apesar dessa distor\u00e7\u00e3o entre produ\u00e7\u00e3o e apropria\u00e7\u00e3o da renda, Ferreira ressalta que a atividade econ\u00f4mica produz <strong>efeitos locais relevantes<\/strong>, especialmente no mercado de trabalho. \u201cAinda assim, al\u00e9m dos repasses obrigat\u00f3rios previstos em lei, como os <em>royalties<\/em>, a atividade econ\u00f4mica gera empregos, o que ajuda a movimentar a economia local\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Os dados oficiais ajudam a dimensionar esse impacto. Segundo o Minist\u00e9rio do Trabalho, em janeiro de 2026, Catas Altas registrou 1,8 mil trabalhadores com carteira assinada, distribu\u00eddos da seguinte forma:<\/p>\n<ul>\n<li>Ind\u00fastria (com \u00eanfase na extrativa): 821 empregos<\/li>\n<li>Servi\u00e7os: 759 empregos<\/li>\n<li>Com\u00e9rcio: 106 empregos<\/li>\n<li>Constru\u00e7\u00e3o civil: 103 empregos<\/li>\n<li>Agropecu\u00e1ria: 11 empregos<\/li>\n<\/ul>\n<h2>\u00cdndices evidenciam vulnerabilidade social em Catas Altas<\/h2>\n<p>Apesar de Catas Altas concentrar o maior PIB <em>per capita<\/em> do Brasil, os indicadores sociais apontam fragilidades do munic\u00edpio. Catas Altas apresenta \u00cdndice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,684, segundo a \u00faltima medi\u00e7\u00e3o do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), referente a 2010. O \u00edndice varia de 0 a 1 e considera renda, educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade.<\/p>\n<p>A m\u00e9dia nacional \u00e9 de 0,765, conforme dados de 2019 do Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Na \u00e1rea educacional, a \u00faltima divulga\u00e7\u00e3o do \u00cdndice de Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica (Ideb), em 2024, apontou que Catas Altas ficou com 6,5 &#8211; pouco abaixo da m\u00e9dia nacional de 6,7.<\/p>\n<p>E, a partir de indicadores oficiais, a <strong>Gazeta do Povo<\/strong> desenvolveu um levantamento pr\u00f3prio: pelo <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/ideias\/ranking-melhores-cidades-morar-brasil\/\">Ranking de Cidades<\/a> publicado em dezembro do ano passado, o munic\u00edpio de Catas Altas obteve nota 7,63 e ficou na 59\u00aa coloca\u00e7\u00e3o &#8211; 1,09 a menos que o primeiro lugar, <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/brasil\/o-que-faz-desta-cidade-a-melhor-para-se-viver-no-brasil\/\">Jate\u00ed<\/a>, no Mato Grosso do Sul, que liderou a lista com 8,72 pontos. O <em>ranking<\/em> combina 27 indicadores, incluindo seguran\u00e7a, economia, educa\u00e7\u00e3o e op\u00e7\u00f5es de cultura.<\/p>\n<p>Dados do Cad\u00danico (Cadastro \u00danico para Programas Sociais do governo federal) de janeiro deste ano tamb\u00e9m evidenciam o contraste social no munic\u00edpio mineiro. Ao todo, 3.225 moradores est\u00e3o inscritos em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, com os seguintes perfis de renda:<\/p>\n<ul>\n<li>1.159 pessoas vivem na faixa de pobreza e s\u00e3o eleg\u00edveis ao Bolsa Fam\u00edlia;<\/li>\n<li>1.828 pessoas possuem renda per capita de at\u00e9 meio sal\u00e1rio m\u00ednimo;<\/li>\n<li>1.397 pessoas t\u00eam renda per capita acima de meio sal\u00e1rio m\u00ednimo;<\/li>\n<li>1.232 pessoas recebem o Bolsa Fam\u00edlia.<\/li>\n<\/ul>\n<h2>Catas Altas recebeu quase R$ 36 milh\u00f5es em <em>royalties <\/em>em 2025<\/h2>\n<p>Os <em>royalties<\/em> da extra\u00e7\u00e3o de ferro no Brasil s\u00e3o pagos por meio da Compensa\u00e7\u00e3o Financeira pela Explora\u00e7\u00e3o de Recursos Minerais (CFEM). A al\u00edquota \u00e9 de 3,5% sobre a receita bruta de venda, com dedu\u00e7\u00e3o dos tributos incidentes. A Ag\u00eancia Nacional de Minera\u00e7\u00e3o (ANM) fiscaliza os valores.<\/p>\n<p>A CFEM \u00e9 a contrapartida paga pelas mineradoras pela explora\u00e7\u00e3o de recursos minerais, que pertencem \u00e0 Uni\u00e3o. A legisla\u00e7\u00e3o define a seguinte divis\u00e3o dos recursos:<\/p>\n<ul>\n<li>60% para os munic\u00edpios produtores;<\/li>\n<li>15% para os estados ou o Distrito Federal;<\/li>\n<li>15% para munic\u00edpios afetados pela minera\u00e7\u00e3o, mesmo sem extra\u00e7\u00e3o direta;<\/li>\n<li>10% para a Uni\u00e3o, repartidos entre ANM, Fundo Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (FNDCT) e Ibama.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Em 2025, Minas Gerais arrecadou R$ 3,6 bilh\u00f5es em CFEM, o segundo maior valor da s\u00e9rie hist\u00f3rica da ANM, atr\u00e1s apenas do resultado obtido em 2021. Na compara\u00e7\u00e3o com 2024, a arrecada\u00e7\u00e3o cresceu 7,6%. Segundo a Secretaria de Desenvolvimento Econ\u00f4mico de Catas Altas, o munic\u00edpio recebeu R$ 36.383.409,67 em<em> royalties<\/em> da explora\u00e7\u00e3o mineral em 2025.<\/p>\n<p>Conforme a gest\u00e3o municipal, os recursos devem financiar projetos municipais de:<\/p>\n<ul>\n<li>Infraestrutura urbana, como vias e saneamento;<\/li>\n<li>Meio ambiente, com recupera\u00e7\u00e3o de \u00e1reas degradadas;<\/li>\n<li>Sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, pressionadas pelo crescimento populacional;<\/li>\n<li>Diversifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, para reduzir a depend\u00eancia da minera\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<\/ul>\n<p>O economista Mauro Sayar Ferreira afirma que, no fim, como ocorre com todo recurso p\u00fablico, a quest\u00e3o central \u00e9 saber se ele est\u00e1 sendo usado de forma eficiente. \u201cA lei imp\u00f5e percentuais m\u00ednimos para \u00e1reas como sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, mas a gest\u00e3o local define como gastar esses recursos. Esse uso nem sempre passa por controle efetivo, o que torna essencial a avalia\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o sobre a qualidade e as prioridades do gasto\u201d, explica ele.<\/p>\n<h2>Prefeitura de Catas Altas v\u00ea repasse de <em>royalties<\/em> como forma de desenvolvimento<\/h2>\n<p>A prefeitura de Catas Altas aponta que o repasse da Compensa\u00e7\u00e3o Financeira pela Explora\u00e7\u00e3o de Recursos Minerais (CFEM) \u00e9 uma oportunidade estrat\u00e9gica para impulsionar o desenvolvimento local.<\/p>\n<p>Segundo a secret\u00e1ria municipal de Desenvolvimento Econ\u00f4mico, Empreendedorismo e Inova\u00e7\u00e3o, Fl\u00e1via Mendes Batista, o munic\u00edpio busca aplicar os recursos de forma respons\u00e1vel e planejada.<\/p>\n<p>Ela destaca como objetivo central da pol\u00edtica p\u00fablica converter a arrecada\u00e7\u00e3o mineral em avan\u00e7os concretos para os moradores. \u201cO compromisso do munic\u00edpio \u00e9 transformar a riqueza gerada pela explora\u00e7\u00e3o mineral em melhorias concretas na qualidade de vida dos cidad\u00e3os, com transpar\u00eancia, planejamento e sustentabilidade\u201d, diz.<\/p>\n<h2>Hist\u00f3ria preserva o cotidiano mineiro na cidade com maior PIB <em>per capita<\/em> do Brasil<\/h2>\n<p>Apesar dos contrastes econ\u00f4micos e sociais, o munic\u00edpio com o maior PIB do Brasil mant\u00e9m um cotidiano marcado pelo ritmo tranquilo do interior mineiro, atraindo turistas pela riqueza hist\u00f3rica que mant\u00e9m. Quem chega no munic\u00edpio se depara com um conjunto de casarios coloniais preservados.<\/p>\n<p>Ao fundo, a Serra do Cara\u00e7a domina a paisagem e molda a rela\u00e7\u00e3o dos moradores com o territ\u00f3rio. A origem do munic\u00edpio remonta a 1694, quando a descoberta de ouro atraiu os primeiros ocupantes da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O nome do munic\u00edpio explica essa hist\u00f3ria. De acordo com o Circuito Cultural Vieira Servas da UFMG, o termo \u201ccatas\u201d se refere aos garimpos, geralmente localizados nas \u00e1reas mais altas dos morros. Essa caracter\u00edstica geogr\u00e1fica deu origem \u00e0 denomina\u00e7\u00e3o Catas Altas.<\/p>\n<p>O patrim\u00f4nio hist\u00f3rico se transformou em um dos principais atrativos tur\u00edsticos da cidade. Igrejas erguidas no s\u00e9culo XVIII, como as de Santa Quit\u00e9ria e de Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o, preservam elementos originais e abrigam obras atribu\u00eddas a nomes centrais do barroco mineiro, entre eles Aleijadinho, Mestre Ata\u00edde e Francisco Vieira Servas.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Catas Altas, em Minas Gerais, lidera o ranking nacional de PIB per capita. 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