{"id":165620,"date":"2026-02-01T05:02:00","date_gmt":"2026-02-01T09:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=165620"},"modified":"2026-02-01T05:02:00","modified_gmt":"2026-02-01T09:02:00","slug":"do-voto-de-cabresto-ao-bolsa-familia-como-o-pt-reinventou-o-coronelismo-no-nordeste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=165620","title":{"rendered":"Do voto de cabresto ao Bolsa Fam\u00edlia: como o PT reinventou o coronelismo no Nordeste"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>O coronelismo foi um sistema de domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, social e econ\u00f4mica baseado na concentra\u00e7\u00e3o de poder local nas m\u00e3os de grandes propriet\u00e1rios rurais, os chamados \u201ccoron\u00e9is\u201d. N\u00e3o se tratava apenas de controle eleitoral, mas de uma engrenagem de mando que substitu\u00eda direitos por favores, anulando a cidadania e criando depend\u00eancia estrutural entre o poder local e a popula\u00e7\u00e3o (Leal, <em>Coronelismo, enxada e voto<\/em>).<\/p>\n<p>Suas ra\u00edzes remontam ao Imp\u00e9rio, especialmente \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da Guarda Nacional, em 1831, quando t\u00edtulos militares foram concedidos \u00e0s elites regionais para manter a ordem. Esse modelo se consolidou na Rep\u00fablica Velha (1889\u20131930), per\u00edodo marcado pela descentraliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, pela fragilidade do Estado nacional e pelo fortalecimento das oligarquias regionais, com especial intensidade no Nordeste (Faoro, <em>Os donos do poder<\/em>).<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, o coronelismo funcionava como um pacto informal. O governo central dependia dos coron\u00e9is para garantir votos e estabilidade pol\u00edtica; em troca, tolerava abusos, fraudes eleitorais e a apropria\u00e7\u00e3o privada do poder p\u00fablico. A desigualdade pol\u00edtica n\u00e3o era um desvio do sistema, mas o seu pr\u00f3prio fundamento.<\/p>\n<p>As caracter\u00edsticas do coronelismo eram claras: clientelismo, voto de cabresto, fraude eleitoral, controle da pol\u00edcia local e uso sistem\u00e1tico da viol\u00eancia. O voto era aberto, o eleitor vigiado e a oposi\u00e7\u00e3o, silenciada. N\u00e3o havia disputa democr\u00e1tica, mas coer\u00e7\u00e3o, sustentada pelo medo e pela depend\u00eancia econ\u00f4mica.<\/p>\n<blockquote>\n<p>No neocoronelismo, o curral eleitoral deixa de ser a fazenda e passa a ser o munic\u00edpio estruturalmente dependente. O favor privado \u00e9 substitu\u00eddo por pol\u00edticas p\u00fablicas instrumentalizadas; o jagun\u00e7o d\u00e1 lugar ao cabo eleitoral; a coer\u00e7\u00e3o direta \u00e9 trocada pela depend\u00eancia econ\u00f4mica <\/p>\n<\/blockquote>\n<p>No Nordeste, esse sistema assumiu contornos ainda mais perversos. A depend\u00eancia era quase absoluta. O coronel controlava o acesso \u00e0 terra, ao trabalho, \u00e0 moradia e at\u00e9 \u00e0 \u00e1gua. Votar \u201cerrado\u201d significava perder tudo. A cidadania cedia lugar \u00e0 submiss\u00e3o, e o eleitor se tornava ref\u00e9m do mando local.<\/p>\n<p>A manuten\u00e7\u00e3o deliberada do atraso educacional foi um dos pilares dessa domina\u00e7\u00e3o. O analfabetismo e a baixa escolariza\u00e7\u00e3o impediam autonomia cr\u00edtica e garantiam a perpetua\u00e7\u00e3o do poder. Onde a educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o chegava, o crime violento cumpria seu papel disciplinador, por meio de jagun\u00e7os e intimida\u00e7\u00e3o armada.<\/p>\n<p>Havia tamb\u00e9m um componente simb\u00f3lico central. O coronel era constru\u00eddo como figura paternal e quase m\u00edtica, ao mesmo tempo protetor e temido. Essa personaliza\u00e7\u00e3o do poder dissolvia a ideia de Estado e confundia direitos com favores, criando v\u00ednculos emocionais que sustentavam a obedi\u00eancia pol\u00edtica ao longo de gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, o voto secreto e a urbaniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o extinguiram o coronelismo. Ele se adaptou. Surgiu o neocoronelismo, no qual a viol\u00eancia expl\u00edcita foi substitu\u00edda pelo controle institucional, pelo uso estrat\u00e9gico do or\u00e7amento p\u00fablico, da m\u00e1quina administrativa e dos meios de comunica\u00e7\u00e3o locais.<\/p>\n<p>No neocoronelismo, o curral eleitoral deixa de ser a fazenda e passa a ser o munic\u00edpio estruturalmente dependente. O favor privado \u00e9 substitu\u00eddo por pol\u00edticas p\u00fablicas instrumentalizadas; o jagun\u00e7o d\u00e1 lugar ao cabo eleitoral; a coer\u00e7\u00e3o direta \u00e9 trocada pela depend\u00eancia econ\u00f4mica cr\u00f4nica. Mudam-se as ferramentas, mas a l\u00f3gica permanece.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que se insere a ascens\u00e3o do PT no Nordeste a partir dos anos 2000. O discurso inicial prometia libertar o povo dos coron\u00e9is. O partido consolidou hegemonia em estados como Bahia, Cear\u00e1, Piau\u00ed, Maranh\u00e3o e Rio Grande do Norte, formando coaliz\u00f5es duradouras e dominando o mapa pol\u00edtico regional.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Duas d\u00e9cadas depois, os resultados revelam uma contradi\u00e7\u00e3o profunda. Os estados sob dom\u00ednio petista concentram, de forma recorrente, os piores indicadores educacionais e sociais do pa\u00eds. A amplia\u00e7\u00e3o dos programas de transfer\u00eancia de renda n\u00e3o promoveu emancipa\u00e7\u00e3o estrutural. A depend\u00eancia do Estado aumentou, enquanto a mobilidade social permaneceu limitada.<\/p>\n<p>Na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, os dados s\u00e3o eloquentes. IDEBs persistentemente baixos, altos \u00edndices de analfabetismo funcional e desempenho insuficiente em matem\u00e1tica e l\u00edngua portuguesa indicam que o ciclo hist\u00f3rico de atraso n\u00e3o foi rompido. Sem educa\u00e7\u00e3o de qualidade, o eleitor continua vulner\u00e1vel ao discurso paternalista e \u00e0 pol\u00edtica do favor.<\/p>\n<p>Paralelamente, a seguran\u00e7a p\u00fablica no Nordeste se deteriorou de forma significativa durante o per\u00edodo de hegemonia petista. As taxas de homic\u00eddio cresceram, a presen\u00e7a de fac\u00e7\u00f5es criminosas se expandiu e a regi\u00e3o passou a concentrar a maior parte das organiza\u00e7\u00f5es criminosas do pa\u00eds. A expans\u00e3o do narcotr\u00e1fico coincidiu com os anos de consolida\u00e7\u00e3o desse modelo pol\u00edtico.<\/p>\n<p>As semelhan\u00e7as com o coronelismo hist\u00f3rico s\u00e3o evidentes: hegemonia prolongada, personalismo pol\u00edtico, depend\u00eancia econ\u00f4mica, controle indireto do eleitor e o surgimento de \u201ccoron\u00e9is do PT\u201d \u2013 lideran\u00e7as regionais que concentram poder local, controlam m\u00e1quinas partid\u00e1rias e operam como intermedi\u00e1rios entre Bras\u00edlia e os currais municipais. N\u00e3o se afirma que o crime organizado seja um bra\u00e7o do projeto pol\u00edtico, mas os dados mostram que sua expans\u00e3o ocorreu no mesmo per\u00edodo dessa domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sustentar que o PT representa o coronelismo do s\u00e9culo XXI no Nordeste n\u00e3o \u00e9 ret\u00f3rica ideol\u00f3gica, mas uma tese apoiada em padr\u00f5es hist\u00f3ricos e emp\u00edricos. Mudaram os m\u00e9todos, n\u00e3o a l\u00f3gica da domina\u00e7\u00e3o. Romper esse ciclo exige virar a chave: liberdade econ\u00f4mica, educa\u00e7\u00e3o de verdade, seguran\u00e7a p\u00fablica eficaz e, sobretudo, uma mudan\u00e7a profunda de mentalidade \u2013 da depend\u00eancia para a cren\u00e7a no indiv\u00edduo.<\/p>\n<p><em><strong>Zizi Martins,\u00a0<\/strong>vice-presidente da ANED, membro fundadora e diretora da Lexum, presidente do Instituto Solidez e membro do IBDR, \u00e9 advogada, com mestrado em Direito P\u00fablico e especializa\u00e7\u00e3o em Direito Religioso, doutora em Educa\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-doutora em Pol\u00edtica, Comportamento e M\u00eddia.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O coronelismo foi um sistema de domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, social e econ\u00f4mica baseado na concentra\u00e7\u00e3o de poder local nas m\u00e3os de&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":165621,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-165620","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/165620","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=165620"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/165620\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/165621"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=165620"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=165620"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=165620"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}