{"id":160235,"date":"2026-01-26T08:19:13","date_gmt":"2026-01-26T12:19:13","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=160235"},"modified":"2026-01-26T08:19:13","modified_gmt":"2026-01-26T12:19:13","slug":"por-que-a-ativista-libertaria-gloria-alvarez-incomoda-tanto-os-autoritarios-e-extremistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=160235","title":{"rendered":"Por que a ativista libert\u00e1ria Gloria \u00c1lvarez incomoda tanto os autorit\u00e1rios e extremistas?"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/01\/26091824\/Gloria-Alvarez-.jpg.webp\" \/><span>No fundo, o livro de Gloria \u00c1lvarez prop\u00f5e uma liberta\u00e7\u00e3o que vai al\u00e9m da esfera institucional. Ele sugere que a verdadeira pris\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 apenas no Estado inchado ou no l\u00edder autorit\u00e1rio, mas na necessidade psicol\u00f3gica de pertencer a qualquer custo (Foto: Marcelo Andrade\/Gazeta do Povo\/Arquivo)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>O livro <em>Como defender a liberdade sem se destruir no processo<\/em>, de Gloria \u00c1lvarez, lan\u00e7ado no Brasil neste m\u00eas de janeiro, parte de uma constata\u00e7\u00e3o inc\u00f4moda: defender a liberdade tem um custo humano real e fingir que esse custo n\u00e3o existe \u00e9 uma forma sofisticada de autoengano. A obra n\u00e3o promete hero\u00edsmo, nem reden\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, nem pertencimento confort\u00e1vel. Ela descreve, com franqueza rara, o desgaste psicol\u00f3gico, social e moral de quem escolhe sustentar ideias sem se ajoelhar a um pol\u00edtico espec\u00edfico e sem transformar convic\u00e7\u00e3o em seita.<\/p>\n<p>A autora \u00e9 uma das vozes mais corajosas na defesa da <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/liberdade-de-expressao\/\">liberdade de express\u00e3o<\/a>, Gloria \u00c1lvarez, cientista pol\u00edtica guatemalteca. Formada em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e Ci\u00eancia Pol\u00edtica pela Universidade Francisco Marroqu\u00edn, com p\u00f3s-gradua\u00e7\u00f5es em Pol\u00edtica e Economia pela Universidade de Georgetown e mestrados em Antropologia Aplicada e Desenvolvimento Internacional, Gloria ganhou proje\u00e7\u00e3o internacional ap\u00f3s um discurso viral contra o populismo de esquerda em 2014, no Parlamento Ibero-Americano da Juventude. Desde ent\u00e3o, construiu uma trajet\u00f3ria marcada pela cr\u00edtica consistente a projetos autorit\u00e1rios de esquerda e de direita, pela defesa do liberalismo cl\u00e1ssico e por uma recusa sistem\u00e1tica a servir como adere\u00e7o intelectual de qualquer lideran\u00e7a.<\/p>\n<p>O livro chega ao Brasil com tradu\u00e7\u00e3o do LOLA, organiza\u00e7\u00e3o liberal da sociedade civil que tamb\u00e9m promoveu o evento de lan\u00e7amento em S\u00e3o Paulo com a pr\u00f3pria autora. Tive a honra de escrever a quarta capa.<\/p>\n<p>Em um ambiente pol\u00edtico viciado em r\u00f3tulos, a obra se destaca por fazer algo que incomoda profundamente extremistas de todos os campos: desloca o debate do plano moralista para o plano humano. Gloria n\u00e3o escreve para provar superioridade ideol\u00f3gica. Escreve para expor mecanismos de captura emocional que transformam pessoas comuns em militantes exaustos, ressentidos e dependentes de aprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Autorit\u00e1rios precisam de fi\u00e9is, n\u00e3o de indiv\u00edduos capazes de sustentar ambiguidade, d\u00favida e custo pessoal. Extremistas precisam de ades\u00e3o total, n\u00e3o de gente que reconhece fragilidades internas e se recusa a terceirizar a pr\u00f3pria consci\u00eancia<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Um dos m\u00e9ritos centrais do livro de Gloria \u00c1lvarez \u00e9 tratar o ativismo como experi\u00eancia subjetiva, e n\u00e3o como performance p\u00fablica. \u201cNingu\u00e9m me avisou que defender a liberdade significaria perder amigos, ser reduzida a caricaturas e carregar uma vigil\u00e2ncia constante sobre cada palavra dita. Ningu\u00e9m me avisou que a solid\u00e3o n\u00e3o viria como exce\u00e7\u00e3o, mas como rotina.\u201d, diz um trecho do livro que desmonta a fantasia do engajamento como gesto \u00e9pico e revela o que costuma ser escondido por slogans.<\/p>\n<p>Em outro momento, a autora vai ainda mais fundo ao descrever a rela\u00e7\u00e3o entre redes sociais, identidade e exaust\u00e3o emocional: \u201cQuando sua opini\u00e3o vira sua identidade, qualquer discord\u00e2ncia soa como ataque pessoal. \u00c9 assim que as pessoas se tornam prisioneiras da pr\u00f3pria causa. Elas n\u00e3o defendem ideias, defendem a si mesmas de um colapso interno.\u201d O alvo n\u00e3o \u00e9 apenas o autoritarismo expl\u00edcito, mas a estrutura psicol\u00f3gica que o sustenta.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que Gloria \u00c1lvarez incomoda tanto. Autorit\u00e1rios precisam de fi\u00e9is, n\u00e3o de indiv\u00edduos capazes de sustentar ambiguidade, d\u00favida e custo pessoal. Extremistas precisam de ades\u00e3o total, n\u00e3o de gente que reconhece fragilidades internas e se recusa a terceirizar a pr\u00f3pria consci\u00eancia. O livro desmonta a l\u00f3gica da pureza pol\u00edtica e exp\u00f5e a autoindulg\u00eancia embutida na ades\u00e3o a grupos que oferecem pertencimento em troca de obedi\u00eancia.<\/p>\n<p>A tecnologia aparece como personagem central dessa engrenagem. A autora descreve uma gera\u00e7\u00e3o que cresceu confundindo viraliza\u00e7\u00e3o com verdade, alcance com legitimidade e repeti\u00e7\u00e3o com consenso. Em um trecho especialmente incisivo, Gloria \u00c1lvarez afirma: \u201cA mesma m\u00e1quina que promete dar voz a todos permite que regimes autorit\u00e1rios e interesses escusos comprem relev\u00e2ncia, fabriquem indigna\u00e7\u00e3o e criem a ilus\u00e3o de maioria. O problema n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o poder, \u00e9 a disposi\u00e7\u00e3o das pessoas em entregar o pr\u00f3prio julgamento.\u201d A cr\u00edtica n\u00e3o se limita a governos. Ela inclui influenciadores, algoritmos e o p\u00fablico que consome tudo isso sem resist\u00eancia.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Esse ponto torna a obra particularmente relevante para jovens que j\u00e1 nasceram na era digital. Ao contr\u00e1rio de livros que romantizam o engajamento, <em>Como defender a liberdade sem se destruir no processo<\/em> funciona como um aviso. A defesa da liberdade exige maturidade emocional, capacidade de frustra\u00e7\u00e3o e disposi\u00e7\u00e3o para ficar sem aplauso. Exige aceitar que nem toda batalha rende curtidas e que nem toda convic\u00e7\u00e3o vira tend\u00eancia. Exige, sobretudo, resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de transformar pol\u00edtica em anestesia pessoal.<\/p>\n<p>No fundo, o livro de Gloria \u00c1lvarez prop\u00f5e uma liberta\u00e7\u00e3o que vai al\u00e9m da esfera institucional. Ele sugere que a verdadeira pris\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 apenas no Estado inchado ou no l\u00edder autorit\u00e1rio, mas na necessidade psicol\u00f3gica de pertencer a qualquer custo. Aderir a um grupo, muitas vezes, \u00e9 uma forma confort\u00e1vel de n\u00e3o olhar feridas internas, de n\u00e3o lidar com inseguran\u00e7as e de n\u00e3o assumir responsabilidade pela pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>Ao recusar o papel de mascote ideol\u00f3gico e ao expor o pre\u00e7o humano do ativismo, Gloria \u00c1lvarez n\u00e3o oferece consolo. Oferece lucidez. E \u00e9 exatamente isso que a torna t\u00e3o inc\u00f4moda. Para autorit\u00e1rios porque desmonta o mecanismo de controle e para extremistas porque retira a fantasia da superioridade moral. J\u00e1 para quem preserva a humanidade e lucidez, oferece algo muito precioso, a possibilidade rara mas efetiva de defender a liberdade sem se destruir no processo.<\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Jocelaine Santos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/jocelaine-santos\/\">Jocelaine Santos<\/a><\/p>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No fundo, o livro de Gloria \u00c1lvarez prop\u00f5e uma liberta\u00e7\u00e3o que vai al\u00e9m da esfera institucional. 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