{"id":158478,"date":"2026-01-25T20:29:40","date_gmt":"2026-01-26T00:29:40","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=158478"},"modified":"2026-01-25T20:29:40","modified_gmt":"2026-01-26T00:29:40","slug":"como-os-estados-unidos-compraram-metade-do-seu-territorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=158478","title":{"rendered":"Como os Estados Unidos compraram metade do seu territ\u00f3rio"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Donald Trump causou alvoro\u00e7o na pol\u00edtica internacional quando, no in\u00edcio de seu segundo mandato, verbalizou o desejo de anexar a Groel\u00e2ndia (entre outros lugares) ao territ\u00f3rio americano.\u00a0<\/p>\n<p>O que parecia ser um interesse estrat\u00e9gico tornou-se praticamente uma obsess\u00e3o ap\u00f3s seu governo capturar o ditador venezuelano Nicol\u00e1s Maduro.\u00a0<\/p>\n<p>Independentemente do que pensam apoiadores e opositores de Trump, a compra e anexa\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios aos EUA n\u00e3o \u00e9 novidade na hist\u00f3ria do pa\u00eds. Pelo contr\u00e1rio: \u00e9 uma pr\u00e1tica recorrente e que foi fundamental para a consolida\u00e7\u00e3o do pa\u00eds como a pot\u00eancia hegem\u00f4nica no Ocidente.<\/p>\n<p>A seguir, vamos entender melhor a g\u00eanese dessa pr\u00e1tica e recapitular alguns dos principais epis\u00f3dios envolvendo anexa\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios aos EUA ap\u00f3s o nascimento da na\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/p>\n<h2>Na\u00e7\u00e3o expansionista<\/h2>\n<p>\u201cA l\u00f3gica dos Estados Unidos, de 1776 para c\u00e1, foi a de domina\u00e7\u00e3o e controle\u201d, define o professor Wesley Spinoza Santana, doutor em Educa\u00e7\u00e3o, Arte e Hist\u00f3ria da Cultura\u00a0e docente da Universidade Presbiteriana Mackenzie.<\/p>\n<p>Ele explica que, desde muito cedo, os EUA entenderam que a \u201cl\u00f3gica do capital\u201d deveria definir n\u00e3o apenas as rela\u00e7\u00f5es comerciais, mas tamb\u00e9m as pol\u00edticas \u2014 e dentro de um sistema hist\u00f3rico em que o capital organiza a pol\u00edtica, a expans\u00e3o territorial aparece como uma consequ\u00eancia quase natural dessa engrenagem.<\/p>\n<p>\u201cPara n\u00f3s termos uma ideia, os Estados Unidos se tornam independentes em 1776 e j\u00e1 no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, em 1803, compram a Luisiana<\/p>\n<p>O professor explica que \u00e0 \u00e9poca da Independ\u00eancia dos Estados Unidos, o pa\u00eds j\u00e1 era uma pot\u00eancia comercial, com presen\u00e7a forte no Caribe e dom\u00ednio do eixo Atl\u00e2ntico com a Europa.\u00a0 \u201cA ideia de ter condi\u00e7\u00f5es de barganha, de negociar com a Europa, que um dia foi metr\u00f3pole [\u2026], mostra o desenvolvimento dos Estados Unidos e a sua pol\u00edtica imperialista desde a origem\u201d, acrescenta o professor.<\/p>\n<p>Para garantir a expans\u00e3o e o controle de territ\u00f3rios, Santana destaca que os EUA usavam todas as \u201ccartas dispon\u00edveis em seu baralho geopol\u00edtico. \u201cEEEnt\u00e3o esses acordos, essas compras, t\u00eaem um qu\u00ea de diplomacia, um qu\u00ea de geopol\u00edtica, um qu\u00ea de econ\u00f4mico e um qu\u00ea de militariza\u00e7\u00e3o\u201d, resume.<\/p>\n<h2>Luisiana<\/h2>\n<p>A Compra da Luisiana, conclu\u00edda em 1803, \u00e9 considerada o marco inaugural da expans\u00e3o territorial americana por via diplom\u00e1tica.<\/p>\n<p>Em uma negocia\u00e7\u00e3o com a Fran\u00e7a de Napole\u00e3o Bonaparte, os Estados Unidos adquiriram um territ\u00f3rio de cerca de 1,3 milh\u00e3o de quil\u00f4metros quadrados, praticamente dobrando sua extens\u00e3o territorial e redefinindo o futuro pol\u00edtico da Am\u00e9rica do Norte.<\/p>\n<p>O valor pago \u2014 US$ 15 milh\u00f5es \u2014 foi modesto mesmo para os padr\u00f5es da \u00e9poca e tornou-se s\u00edmbolo de um dos neg\u00f3cios territoriais mais vantajosos da hist\u00f3ria do pa\u00eds. O montante equivale a algumas centenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares atualmente<\/p>\n<p>O contexto internacional foi decisivo. A Fran\u00e7a, enfraquecida por conflitos na Europa e pela revolta na Rep\u00fablica Dominicana, avaliou que manter a Louisiana era caro e arriscado. Inicialmente interessados apenas no porto de Nova Orleans, os diplomatas americanos acabaram aceitando a proposta de compra de todo o territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>A decis\u00e3o colocou o presidente Thomas Jefferson diante de um dilema constitucional, j\u00e1 que a Carta n\u00e3o previa explicitamente aquisi\u00e7\u00f5es territoriais. Ainda assim, o Congresso ratificou o acordo, consolidando a ideia de poderes impl\u00edcitos do governo federal e estabelecendo um precedente duradouro para a expans\u00e3o por compra.<\/p>\n<h2>Fl\u00f3rida<\/h2>\n<p>A incorpora\u00e7\u00e3o da Fl\u00f3rida seguiu uma l\u00f3gica distinta, n\u00e3o sendo necessariamente uma compra. Formalizada pelo Tratado de Adams-On\u00eds, em 1819, a anexa\u00e7\u00e3o n\u00e3o envolveu pagamento direto pelo territ\u00f3rio, mas resultou de uma combina\u00e7\u00e3o de instabilidade regional, press\u00e3o militar e enfraquecimento da Espanha.<\/p>\n<p>Pouco povoada e mal defendida, a Fl\u00f3rida havia se tornado foco de tens\u00f5es, e servia ndo de ref\u00fagio para ind\u00edgenas seminoles e escravizados fugitivos.<\/p>\n<p>Uma invas\u00e3o ao territ\u00f3rio, conduzida por Andrew Jackson em 1818, evidenciou a disposi\u00e7\u00e3o americana de agir militarmente, mesmo sem autoriza\u00e7\u00e3o expl\u00edcita. Sem condi\u00e7\u00f5es de reagir, a Espanha aceitou negociar.<\/p>\n<p>Pelo tratado, os espanh\u00f3is cederameu a Fl\u00f3rida aos Estados Unidos, que assumiram indeniza\u00e7\u00f5es de at\u00e9 US$ 5 milh\u00f5es e, em contrapartida, renunciaram temporariamente a reivindica\u00e7\u00f5es sobre o Texas.<\/p>\n<h2>Territ\u00f3rios mexicanos<\/h2>\n<p>O cap\u00edtulo mais conflituoso da expans\u00e3o territorial dos EUA envolveu territ\u00f3rios que pertenciam ao M\u00e9xico.<\/p>\n<p>O processo teve in\u00edcio com a independ\u00eancia do Texas, em 1836, e sua posterior anexa\u00e7\u00e3o pelos Estados Unidos, em 1845. Essa decis\u00e3o levou \u00e0 ruptura diplom\u00e1tica com o governo mexicano.<\/p>\n<p>A disputa sobre a fronteira texana escalou para a Guerra Mexicano-Americana (1846\u20131848), vencida pelos EUA.<\/p>\n<p>O Tratado de Guadalupe Hidalgo, assinado em 1848, formalizou a chamada Cess\u00e3o Mexicana. Pelo acordo, o M\u00e9xico cedeu cerca de 55% de seu territ\u00f3rio original, incluindo \u00e1reas que hoje correspondem a partes da Calif\u00f3rnia, Nevada, Utah, Novo M\u00e9xico, Arizona e Colorado.<\/p>\n<p>Em troca, os Estados Unidos pagaram US$ 15 milh\u00f5es e assumiram d\u00edvidas do governo mexicano com cidad\u00e3os americanos. O tratado redefiniu profundamente o mapa do Oeste e acelerou a ocupa\u00e7\u00e3o dessas regi\u00f5es.<\/p>\n<p>Em 1853, a Compra Gadsden completou o redesenho da fronteira sul. Por US$ 10 milh\u00f5es, os EUA adquiriram cerca de 78 mil quil\u00f4metros quadrados no sul do Arizona e do Novo M\u00e9xico, com o objetivo estrat\u00e9gico de viabilizar uma ferrovia transcontinental.<\/p>\n<p>Juntos, esses epis\u00f3dios consolidaram a fronteira atual entre os dois pa\u00edses e demonstraram como a expans\u00e3o americana combinou guerra, diplomacia e transa\u00e7\u00f5es financeiras.<\/p>\n<h2>Alasca<\/h2>\n<p>A compra do Alasca, em 1867, ampliou a presen\u00e7a dos Estados Unidos para al\u00e9m do continente cont\u00ednuo.<\/p>\n<p>O territ\u00f3rio foi adquirido do Imp\u00e9rio Russo por US$ 7,2 milh\u00f5es, em um contexto de dificuldades financeiras e estrat\u00e9gicas enfrentadas por S\u00e3o Petersburgo. Temendo perder o Alasca para os brit\u00e2nicos em um conflito futuro, a R\u00fassia optou por vend\u00ea-lo aos americanos.<\/p>\n<p>\u00c0 \u00e9poca, o neg\u00f3cio foi alvo de cr\u00edticas e ironias; o acordo foi , sendo chamado de \u201cloucura de Seward\u201d (ent\u00e3o secret\u00e1rio de Estado americano).<\/p>\n<p>D\u00e9cadas depois, a descoberta de riquezas minerais e a import\u00e2ncia estrat\u00e9gica do territ\u00f3rio no \u00c1rtico mudaram essa percep\u00e7\u00e3o. O Alasca tornou-se estado em 1959 e passou a ser visto como uma das aquisi\u00e7\u00f5es mais vision\u00e1rias da hist\u00f3ria americana.<\/p>\n<h2>Hava\u00ed<\/h2>\n<p>A anexa\u00e7\u00e3o do Hava\u00ed marcou a transi\u00e7\u00e3o dos EUA para uma pot\u00eancia com ambi\u00e7\u00f5es ultramarinas. Em 1893, um grupo de plantadores e comerciantes organizou um golpe de Estado contra a monarquia local, com apoio de representantes diplom\u00e1ticos e da presen\u00e7a militar americana no arquip\u00e9lago.<\/p>\n<p>A rainha foi deposta e, para evitar derramamento de sangue, optou por n\u00e3o resistir militarmente, esperando que os Estados Unidos revertessem o golpe \u2014 o que n\u00e3o ocorreu.<\/p>\n<p>Isso ocorreu sobretudo porque, durante a Guerra Hispano-Americana, o Hava\u00ed passou a ser visto como essencial para opera\u00e7\u00f5es militares no Pac\u00edfico. Apesar da resist\u00eancia de parte da popula\u00e7\u00e3o nativa, a anexa\u00e7\u00e3o consolidou a presen\u00e7a americana na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O arquip\u00e9lago tornou-se estado apenas em 1959, encerrando um ciclo iniciado no auge do expansionismo do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<h2>Groenl\u00e2ndia: um interesse antigo<\/h2>\n<p>\u00c9 \u00e0 luz desse hist\u00f3rico que se insere o interesse americano pela Groenl\u00e2ndia. Desde o s\u00e9culo XIX, logo ap\u00f3s a compra do Alasca, autoridades dos EUA cogitaram estender sua influ\u00eancia no \u00c1rtico com a aquisi\u00e7\u00e3o da ilha.<\/p>\n<p>Ao longo do s\u00e9culo XX, esse interesse ressurgiu, incluindo uma oferta formal feita em 1946, recusada pela Dinamarca.<\/p>\n<p>A presen\u00e7a militar americana na ilha consolidou-se durante a Segunda Guerra Mundial e foi formalizada no p\u00f3s-guerra por acordos de defesa.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, por\u00e9m, fatores como recursos naturais, rotas estrat\u00e9gicas e rivalidade global reacenderam o debate. Recentemente, com Donald Trump, a ideia de adquirir ou controlar a Groenl\u00e2ndia voltou ao centro da pol\u00edtica internacional, provocando rea\u00e7\u00f5es duras de Copenhague e das lideran\u00e7as locais.<\/p>\n<h2>Novo contexto<\/h2>\n<p>A recorr\u00eancia hist\u00f3rica da expans\u00e3o territorial americana ajuda a compreender por que a ideia de \u201ccomprar\u201d a Groenl\u00e2ndia n\u00e3o soa absurda dentro de certos c\u00edrculos pol\u00edticos dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Trata-se de uma mentalidade moldada desde o nascimento da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0O que mudou n\u00e3o foi a l\u00f3gica, mas o contexto em que ela se expressa e as resist\u00eancias que encontra.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XXI, anexa\u00e7\u00f5es n\u00e3o se fazem apenas com tratados e cheques. Elas esbarram em soberanias consolidadas, identidades locais e em uma ordem internacional que, embora fr\u00e1gil, ainda imp\u00f5e limites \u00e0 l\u00f3gica do mais forte.<\/p>\n<p>Por isso, Aa Groenl\u00e2ndia, nesse sentido, funciona como um espelho hist\u00f3rico: ao mesmo tempo em que revela a persist\u00eancia do expansionismo americano, exp\u00f5e as tens\u00f5es de um mundo que j\u00e1 n\u00e3o aceita t\u00e3o facilmente as regras do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Donald Trump causou alvoro\u00e7o na pol\u00edtica internacional quando, no in\u00edcio de seu segundo mandato, verbalizou o desejo de anexar a&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":158479,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-158478","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/158478","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=158478"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/158478\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/158479"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=158478"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=158478"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=158478"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}