{"id":150033,"date":"2026-01-22T10:55:22","date_gmt":"2026-01-22T14:55:22","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=150033"},"modified":"2026-01-22T10:55:22","modified_gmt":"2026-01-22T14:55:22","slug":"a-raca-de-porcos-que-e-considerada-joia-rara-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=150033","title":{"rendered":"A ra\u00e7a de porcos que \u00e9 considerada joia rara do Brasil"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>A ra\u00e7a de porcos Caruncho Tr\u00eas Cores integra o n\u00facleo mais antigo da suinocultura brasileira. \u00c9 r\u00fastica e adaptada ao clima tropical. Esse tipo de porco sustentou a produ\u00e7\u00e3o de banha por s\u00e9culos e permanece como uma das \u00faltimas liga\u00e7\u00f5es vivas entre a cria\u00e7\u00e3o tradicional e a origem gen\u00e9tica dos su\u00ednos nacionais.<\/p>\n<p>A pelagem original \u00e9 negra, com marrom e branco. S\u00e3o pelos finos e escassos, com varia\u00e7\u00f5es regionais. O Canastr\u00e3o Vermelho \u00e9 o exemplo mais conhecido.<\/p>\n<p>Os primeiros su\u00ednos da ra\u00e7a chegaram ao Brasil no in\u00edcio da coloniza\u00e7\u00e3o. Governadores-gerais como Tom\u00e9 de Souza e Mem de S\u00e1 trouxeram animais entre 1520 e 1532, com remessas que vieram de Portugal, Espanha e da Ilha das Can\u00e1rias.<\/p>\n<p>Eram animais extremamente r\u00fasticos, introduzidos em um ambiente sem qualquer sistema de manejo intensivo. A cria\u00e7\u00e3o ocorreu em regime totalmente extensivo. Os su\u00ednos viviam soltos em grandes mangueir\u00f5es, e muitos escapavam. Formavam varas agressivas no mato. Cruzavam livremente entre si, sem controle gen\u00e9tico.<\/p>\n<p>Nas cria\u00e7\u00f5es extensivas controladas, por\u00e9m fechadas, a mistura dessas ra\u00e7as ib\u00e9ricas consolidou a base dos su\u00ednos nacionais. Desse processo surgiram Piau, Caruncho, Tatu, Colher e Ba\u00e9, entre outras ra\u00e7as. O objetivo era produzir gordura e contar com a banha para consumo e conserva\u00e7\u00e3o de alimentos.<\/p>\n<p>Com o tempo, alguns cruzamentos incorporaram ra\u00e7as europeias. Entraram no processo Large-White, Large-Black, Wessex, Landschweine e Landrace. Essa combina\u00e7\u00e3o marcou o in\u00edcio da suinocultura brasileira organizada.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Campanha contra a banha muda a cria\u00e7\u00e3o da ra\u00e7a de porcos Caruncho no pa\u00eds<\/h2>\n<p>A partir das d\u00e9cadas de 1960 e 1970, o modelo mudou. O pa\u00eds promoveu uma campanha nacional em favor dos \u00f3leos vegetais e a banha perdeu espa\u00e7o. E foi a\u00ed que a suinocultura tecnificada avan\u00e7ou, com a migra\u00e7\u00e3o de foco da gordura para a carne.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, o Brasil estruturou um novo sistema produtivo. Nesse processo, as ra\u00e7as nacionais perderam espa\u00e7o. \u201cAt\u00e9 a d\u00e9cada de 1970, o Brasil tinha mais de 100 ra\u00e7as nacionais de su\u00ednos, que eram r\u00fasticas, de baixo custo de produ\u00e7\u00e3o e plenamente adaptadas \u00e0s condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas do pa\u00eds&#8221;, contextualiza o veterin\u00e1rio Eduardo von Atzingen, diretor do Grupo Sossu\u00ednos.<\/p>\n<p>Entre 1970 e 1990, ele lembra que ocorreu uma importa\u00e7\u00e3o massiva de animais da Europa e dos Estados Unidos. &#8220;Naquele per\u00edodo, o governo promoveu um abate sanit\u00e1rio em larga escala das ra\u00e7as nacionais. Cerca de 30 milh\u00f5es de cabe\u00e7as foram eliminadas, sob a justificativa de uma suposta peste su\u00edna, para proteger os animais importados&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<p>Passado o per\u00edodo do abate sanit\u00e1rio, muitos produtores voltaram a criar as ra\u00e7as r\u00fasticas. &#8220;O que restou dessas ra\u00e7as sobreviveu porque alguns produtores soltaram os animais no mato. Ap\u00f3s o fim do rifle sanit\u00e1rio, muitos foram resgatados dessas \u00e1reas. Ao longo do tempo houve forte miscigena\u00e7\u00e3o entre as ra\u00e7as e muitas caracter\u00edsticas espec\u00edficas e desej\u00e1veis de cada uma se perderam\u201d, afirma von Atzingen.<\/p>\n<p>O presidente do Grupo Adir, Paulo Leonel, que produz a ra\u00e7a em Nova Crix\u00e1s em Goi\u00e1s, diz que o retorno da valoriza\u00e7\u00e3o da banha de porco est\u00e1 em uma crescente e ra\u00e7as com a Caruncho devem ganhar mais mercado. &#8220;Quem preservou sabia da import\u00e2ncia disso no futuro. Criaram a narrativa de que a banha fazia mal e que o \u00f3leo vegetal fazia bem. O tempo mostrou a verdade. N\u00f3s nunca misturamos nosso Caruncho\u201d, explica Leonel, conhecido como \u201crei do Nelore\u201d, com mais de 50 anos de atua\u00e7\u00e3o na sele\u00e7\u00e3o animal.<\/p>\n<h2>Caruncho Tr\u00eas Cores mant\u00e9m rusticidade e identidade<\/h2>\n<p>O Caruncho Tr\u00eas Cores sobreviveu a esse processo. A ra\u00e7a manteve rusticidade extrema. Suporta calor intenso, tolera escassez alimentar e adapta-se ao sistema extensivo sem depend\u00eancia de ra\u00e7\u00e3o industrial.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um su\u00edno r\u00fastico que transforma pouco alimento, e alimento de baixa qualidade, em carne e gordura. Ele apresenta ganho de peso extraordin\u00e1rio e produz carne extremamente saborosa. Gera grande quantidade de banha porque engorda muito com pouco\u201d, caracteriza Leonel.<\/p>\n<p>De acordo com o Grupo Sossu\u00ednos, o animal apresenta cabe\u00e7a grande e grossa. O perfil \u00e9 c\u00f4ncavo, com fronte deprimida e pregueada. O focinho \u00e9 grosso e as bochechas s\u00e3o volumosas, com orelhas grandes e ca\u00eddas. O corpo \u00e9 comprido e estreito lateralmente. Os membros s\u00e3o fortes e altos.<\/p>\n<p>De temperamento d\u00f3cil, o anil tem porte compacto e fase de crescimento considerada lenta. O peso m\u00e9dio varia entre 60 e 100 quilos. Em condi\u00e7\u00f5es ideais, pode chegar a 150 quilos. A aptid\u00e3o principal permanece sendo a produ\u00e7\u00e3o de gordura.<\/p>\n<p>\u201cA ra\u00e7a comercial impactou toda a sele\u00e7\u00e3o do su\u00edno tradicional, do animal de baixo custo e da carne de sabor. Ela depende estritamente de ra\u00e7\u00e3o para viver e n\u00e3o mant\u00e9m contato com a natureza. Isso \u00e9 o oposto do su\u00edno integrado ao ambiente, que produz muito com pouco&#8221;, afirma Leonel.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Ra\u00e7a sustenta a cria\u00e7\u00e3o familiar e a carne caipira<\/h2>\n<p>O Caruncho Tr\u00eas Cores integra a cria\u00e7\u00e3o de porco caipira, tamb\u00e9m chamada de cria\u00e7\u00e3o extensiva, tradicional ou cria\u00e7\u00e3o de porco-banha. Esse sistema permanece presente na maioria das propriedades da agricultura familiar. Em pequenas propriedades, segundo o Grupo Sossu\u00ednos, os excedentes seguem para a venda local.<\/p>\n<p>Criados soltos a pasto, os animais consomem restos agr\u00edcolas e vegeta\u00e7\u00e3o nativa e \u00e9 esse manejo que define o sabor da carne. A textura \u00e9 firme e a gordura, arom\u00e1tica. Um resultado foi o <strong>retorno da banha \u00e0 culin\u00e1ria contempor\u00e2nea como produto natural e valorizado<\/strong>.<\/p>\n<p>\u201cA banha voltou a ganhar espa\u00e7o e valor pelo sabor, pela qualidade e pela sa\u00fade. A carne do Caruncho sempre foi a mais saborosa entre os su\u00ednos. N\u00e3o \u00e9 apenas uma iguaria, \u00e9 um produto completamente diferente de qualquer outro su\u00edno, mesmo caipira\u201d, afirma Leonel, representante da empresa que produz a ra\u00e7a em Nova Crix\u00e1s em Goi\u00e1s.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/01\/15155649\/p2-scaled.jpg.webp\" \/><i>Ra\u00e7a de porco Caruncho Tr\u00eas Cores \u00e9 usada na charcutaria, t\u00e9cnica de preparo e conserva\u00e7\u00e3o de carnes, por causa da rusticidade, do crescimento lento e do equil\u00edbrio natural entre carne e gordura. (Foto: Ol\u00edvia Carvalho\/Fazenda Barreiro Grande)<\/i><\/p>\n<h2>Avan\u00e7o da charcutaria artesanal refor\u00e7a a import\u00e2ncia do Caruncho Tr\u00eas Cores<\/h2>\n<p>A charcutaria antecede a refrigera\u00e7\u00e3o. O m\u00e9todo permitia conservar carne para consumo posterior ou longas viagens. \u201cO porco branco foi moldado pela ind\u00fastria para produzir carne. A tend\u00eancia \u00e9 ter cada vez mais carne e menos gordura. Muitas ra\u00e7as nem t\u00eam nome, apenas numera\u00e7\u00e3o, como ocorre com os frangos&#8221;, explica a chef de cozinha Tatianna Cirinno, pesquisadora sobre o tema.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o dela, o Caruncho \u00e9 um porco crioulo, antigo, de carne saborosa e gordura consistente, ideal para charcutaria. A chef de cozinha explica que o sabor da carne pode ser melhorado, com alimenta\u00e7\u00e3o espec\u00edfica nos dias que antecedem o abate.<\/p>\n<p>\u201cEu gosto muito do porco Caruncho e das ra\u00e7as com voca\u00e7\u00e3o para gordura. Esses animais s\u00e3o os melhores para charcutaria e a alimenta\u00e7\u00e3o final influencia. Se nos \u00faltimos 40 dias a dieta \u00e9 vegetal, a carne fica mais perfumada. Se a termina\u00e7\u00e3o ocorre com milho, trigo ou soja, o sabor carrega mais cheiro de ra\u00e7\u00e3o\u201d, detalha Cirinno.<\/p>\n<p>A chef tamb\u00e9m aponta um indicativo f\u00edsico dessa aptid\u00e3o para banha. \u201c\u00c9 poss\u00edvel identificar um animal com voca\u00e7\u00e3o para gordura pela orelha, chamada de orelha bon\u00e9, que cobre parte do olho. Esse sinal indica predisposi\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica para gordura.\u201d<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ra\u00e7a de porcos Caruncho Tr\u00eas Cores integra o n\u00facleo mais antigo da suinocultura brasileira. \u00c9 r\u00fastica e adaptada ao&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":145993,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[189],"tags":[],"class_list":["post-150033","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/150033","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=150033"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/150033\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/145993"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=150033"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=150033"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=150033"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}