{"id":147231,"date":"2026-01-22T17:48:40","date_gmt":"2026-01-22T21:48:40","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=147231"},"modified":"2026-01-22T17:48:40","modified_gmt":"2026-01-22T21:48:40","slug":"os-signos-do-zodiaco-nao-funcionam-por-que-tanta-gente-acredita-neles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=147231","title":{"rendered":"Os signos do zod\u00edaco n\u00e3o funcionam. Por que tanta gente acredita neles?"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>O signo influencia a personalidade das pessoas? Realizada pelo Centro de Gest\u00e3o e Estudos Estrat\u00e9gicos, a <a href=\"https:\/\/percepcao.cgee.org.br\/\">pesquisa<\/a> Percep\u00e7\u00e3o P\u00fablica da Ci\u00eancia e Tecnologia no Brasil fez em 2023 esta pergunta para 1.931 pessoas acima de 16 anos, de todas as regi\u00f5es do pa\u00eds. Responderam \u201cconcordo totalmente\u201d 24,9%. Outras 16,2% concordam em parte, totalizando 41,1% da popula\u00e7\u00e3o, o equivalente a 87,7 milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n<p>No Ocidente, em geral, a propor\u00e7\u00e3o \u00e9 semelhante: aproximadamente uma em cada quatro pessoas acredita plenamente na teoria que defende que a posi\u00e7\u00e3o dos corpos celestes no momento do nascimento tem impacto direto sobre tra\u00e7os comportamentais \u2013 e at\u00e9 mesmo sobre o futuro.<\/p>\n<p>Desenhar mapas astrais \u00e9 uma pr\u00e1tica milenar. Os primeiros registros conhecidos remontam \u00e0 antiga Mesopot\u00e2mia e outras civiliza\u00e7\u00f5es, especialmente a babil\u00f4nica e a grega, levaram a t\u00e9cnica adiante com grande dedica\u00e7\u00e3o. A pr\u00f3pria palavra \u201castrologia\u201d vem do idioma grego e faz refer\u00eancia \u00e0s mensagens que as estrelas comunicam. A cren\u00e7a parecia fazer sentido; afinal, a posi\u00e7\u00e3o do sol em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Terra influencia diretamente o planeta, incluindo as esta\u00e7\u00f5es do ano, assim como a Lua tem impacto nas mar\u00e9s. Por que outros astros n\u00e3o deixariam suas marcas?<\/p>\n<p>Acontece que a astrologia n\u00e3o funciona. A partir do s\u00e9culo 17, com o desenvolvimento da astronomia, a ci\u00eancia passou a comprovar de forma consistente que a posi\u00e7\u00e3o dos astros n\u00e3o interfere na personalidade. Ali\u00e1s, mesmo que interferisse, a divis\u00e3o do ano em signos (palavra que indica a exist\u00eancia de \u201csinais\u201d) \u00e9 problem\u00e1tica em diferentes sentidos.<\/p>\n<h2>Desenhos em nuvens<\/h2>\n<p>Em primeiro lugar, constela\u00e7\u00f5es s\u00e3o imagens projetadas a partir do ponto de vista da Terra. Muitas vezes, estrelas que parecem formar um desenho coerente est\u00e3o a milhares de quil\u00f4metros umas das outras. \u00c9 o equivalente a procurar formas em nuvens. Ainda assim, na antiga Babil\u00f4nia, foram identificadas 13 constela\u00e7\u00f5es pelas quais o sol passa diante do c\u00e9u ao longo de um ano. Para facilitar a distribui\u00e7\u00e3o por 12 meses, uma delas, a de Ofi\u00faro, ou Serpent\u00e1rio, foi desconsiderada.<\/p>\n<p>\u201cAs constela\u00e7\u00f5es s\u00e3o por\u00e7\u00f5es espec\u00edficas do c\u00e9u, como retalhos de uma colcha. E seus nomes s\u00e3o fruto do fato de que elas abrigam conjuntos de estrelas vis\u00edveis que formam desenhos que costumam estar associados a ideias de animais, mitos, deuses etc. Os signos astrol\u00f3gicos s\u00e3o definidos como sendo a constela\u00e7\u00e3o que se encontra \u2018atr\u00e1s do Sol\u2019 no momento do nascimento do indiv\u00edduo\u201d, explica Marcelo Girardi Schappo,doutor em f\u00edsica pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e professor do Instituto Federal de Santa Catarina, al\u00e9m de organizador do <a href=\"https:\/\/www.professormarcelogs.com\/armadilhas-camufladas-de-ciencia\">livro<\/a> \u201cArmadilhas camufladas de ci\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Outro problema: ao longo de um ano, o sol n\u00e3o se apresenta pela mesma quantidade de dias diante de cada um desses agrupamentos, ainda que a astrologia tenha estabelecido um per\u00edodo padr\u00e3o para cada signo. \u201cCom base em defini\u00e7\u00f5es modernas, o sol fica menos de 25 dias em \u00e1ries, e mais de 30 em touro, por exemplo\u201d, diz o professor. Al\u00e9m disso, ao longo dos mais de 5 mil anos desde que as constela\u00e7\u00f5es foram identificadas pela primeira vez, sua posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Terra mudou. \u201cEnquanto a astrologia aponta como leonino algu\u00e9m que nasce em 5 de agosto, por exemplo, astronomicamente j\u00e1 sabemos que o sol, nesse dia, est\u00e1 em c\u00e2ncer\u201d.<\/p>\n<p>A astrologia precisaria, portanto, se atualizar? \u201cPara a ci\u00eancia, tanto faz. Afinal, n\u00e3o \u00e9 isso que define se a astrologia funciona ou n\u00e3o, mas sim sua capacidade de fazer afirma\u00e7\u00f5es que possam ser verificadas com sucesso em testes estat\u00edsticos com grandes quantidades de indiv\u00edduos\u201d, responde Schappo. \u201cComo isso ainda n\u00e3o aconteceu, pouco importa se os astr\u00f3logos v\u00e3o implementar atualiza\u00e7\u00f5es astron\u00f4micas em seus sistemas de cren\u00e7as ou n\u00e3o\u201d.<\/p>\n<h2>D\u00e9cadas de contesta\u00e7\u00f5es<\/h2>\n<p>A partir de meados do s\u00e9culo 20, diferentes pesquisas acad\u00eamicas testaram o efeito do hor\u00f3scopo sobre a vida das pessoas \u2013 e n\u00e3o encontraram evid\u00eancias que validassem a tese. Nos anos 1980, por exemplo, o f\u00edsico americano Shawn Carlson convidou 28 astr\u00f3logos para analisar 116 pessoas cujas fichas constavam do invent\u00e1rio de perfis psicol\u00f3gicos da Universidade da Calif\u00f3rnia. Eles receberam tr\u00eas descri\u00e7\u00f5es para cada uma delas, e precisavam escolher a correta.<\/p>\n<p>Como indica o <a href=\"https:\/\/muller.lbl.gov\/papers\/Astrology-Carlson.pdf\">artigo cient\u00edfico<\/a> publicado em 1985 na revista Nature, eles acertaram em aproximadamente um ter\u00e7o dos casos \u2013 a mesma fra\u00e7\u00e3o que qualquer pessoa alcan\u00e7aria, em m\u00e9dia, se escolhesse as op\u00e7\u00f5es aleatoriamente. \u201cTrabalhamos com alguns dos astr\u00f3logos mais respeitados dos Estados Unidos e da Europa, recomendados por seus pares, e eles falharam. N\u00e3o conseguiram alcan\u00e7ar uma performance melhor do que a simples sorte\u201d, afirma o pesquisador.<\/p>\n<p>Dez anos depois, o escritor holand\u00eas Rob Nanninga reuniu 50 astr\u00f3logos e deu a eles a miss\u00e3o de elaborar um question\u00e1rio que, caso fosse submetido a um grupo de volunt\u00e1rios, seria capaz de apontar qual a profiss\u00e3o de cada um, entre sete alternativas apresentadas previamente. Eles elaboraram 49 perguntas e receberam, al\u00e9m das respostas, informa\u00e7\u00f5es sobre as datas de nascimento, casamento ou div\u00f3rcio, nascimento de filhos, entre outras. Mesmo com todos estes recursos em m\u00e3os, nenhum dos participantes conseguiu acertar a atividade de mais do que tr\u00eas pessoas. Metade n\u00e3o acertou um perfil profissional sequer.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos, dezenas de estudos como estes avaliaram a capacidade da astrologia em prever intelig\u00eancia, sucesso profissional, extrovers\u00e3o, risco de desenvolver depress\u00e3o \u2013 e at\u00e9 mesmo chances de ser feliz no amor, alvo, por exemplo, de uma pesquisa realizada por Jonas Helgertz e Kirk Scott, do departamento de hist\u00f3ria econ\u00f4mica da Universidade de Lund, na Su\u00e9cia. Em 2020 eles publicaram as <a href=\"https:\/\/link.springer.com\/article\/10.1186\/s41118-020-00103-5\">conclus\u00f5es<\/a> a que chegaram ao analisar a trajet\u00f3ria aproximadamente 66 mil casais entre 1968 e 2001. Eles queriam entender se a astrologia acertou ao definir que signos combinam melhor em relacionamentos de longo prazo \u2013 e, portanto, poderiam prever a maior probabilidade de acontecerem separa\u00e7\u00f5es entre casais.<\/p>\n<p>\u201cPrimeiro, n\u00e3o h\u00e1 ind\u00edcios sugerindo que indiv\u00edduos com combina\u00e7\u00f5es astrol\u00f3gicas favor\u00e1veis \u200b\u200bde signos solares estejam sejam mais propensos a se casar\u201d, constataram. \u201cSegundo, nossos resultados n\u00e3o apenas indicam diferen\u00e7as triviais e estatisticamente insignificantes no risco de div\u00f3rcio dependendo do grau de compatibilidade astrol\u00f3gica dos casais, como tamb\u00e9m n\u00e3o sugerem qualquer risco sistematicamente menor de div\u00f3rcio entre casais considerados altamente compat\u00edveis\u201d.<\/p>\n<h2>Efeito Barnum<\/h2>\n<p>Mas por que, ainda assim, a astrologia segue t\u00e3o popular? O Efeito Barnum, tamb\u00e9m conhecido como Efeito Forer, ajuda a explicar este fen\u00f4meno. Os dois nomes se referem \u00e0 tend\u00eancia que as pessoas t\u00eam de aceitarem descri\u00e7\u00f5es vagas e gen\u00e9ricas de personalidade como sendo precisas e significativas \u2013 mesmo que, no limite, pudessem se aplicar a quase qualquer pessoa. A primeira express\u00e3o surgiu em 1956, no <a href=\"https:\/\/psycnet.apa.org\/doiLanding?doi=10.1037%2Fh0044164\">ensaio<\/a> \u201cWanted \u2013 A Good Cookbook\u201d, em que o psic\u00f3logo Paul E. Meehl critica os testes psicol\u00f3gicos realizados pelo showman Phineas Taylor Barnum, famoso pela capacidade de manipular o estado emocional de suas plateias.<\/p>\n<p>O segundo termo foi estabelecido ainda antes, em 1949, quando o psic\u00f3logo Bertrand Forer aplicou um teste de personalidade a um grupo de estudantes. Todos receberam uma lista de caracter\u00edsticas pessoais e foram convidados a avaliar se o texto descrevia seus pr\u00f3prios tra\u00e7os psicol\u00f3gicos, em uma nota de 0 a 5. A m\u00e9dia da classe foi de 4,26. Sinal de que eles se identificaram com quase todo o relato.<\/p>\n<p>Acontece que eles haviam recebido o mesmo conte\u00fado. Era uma compila\u00e7\u00e3o de frases de uma coluna de astrologia que, entre outras afirma\u00e7\u00f5es gen\u00e9ricas, afirmava: \u201cVoc\u00ea tem necessidade de ser amado e admirado pelos outros; contudo, demonstra tend\u00eancia cr\u00edtica a si mesmo\u201d. As conclus\u00f5es foram <a href=\"https:\/\/psycnet.apa.org\/doiLanding?doi=10.1037%2Fh0059240\">publicadas<\/a> no <em>Journal of Abnormal and Social Psychology<\/em>, em 1949, e replicadas com sucesso muitas vezes desde ent\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cIsso explicaria por que, em rela\u00e7\u00e3o aos hor\u00f3scopos, por exemplo, tanto os astr\u00f3logos, como os seus leitores concordam em que os feedbacks fornecidos s\u00e3o exatos, refletindo tra\u00e7os e tend\u00eancias da personalidade de uma pessoa com probabilidade de acerto superior ao acaso\u201d, descrevem Guenia Bunchaft e Helmuth Kr\u00fcger, pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade Cat\u00f3lica de Petr\u00f3polis, respectivamente, em <a href=\"https:\/\/pepsic.bvsalud.org\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1413-389X2010000200020\">artigo<\/a> sobre o assunto.<\/p>\n<p>Para Schappo, este aspecto ajuda a entender o sucesso da astrologia. \u201cAs pessoas n\u00e3o lidam bem com incertezas. E estamos sujeitos a muitas incertezas no nosso cotidiano, uma vez que precisamos tomar decis\u00f5es o tempo todo: n\u00e3o sabemos se o namoro vai dar em um casamento feliz; se vale a pena trocar um emprego por outro; se devemos investir na Bolsa de Valores ou abrir uma empresa pr\u00f3pria; temos d\u00favidas sobre qual \u00e1rea buscarmos forma\u00e7\u00e3o profissional, e assim por diante\u201d.<\/p>\n<p>Nesse sentido, prossegue ele, \u201cquando as pessoas acreditam em astrologia, acreditam, por consequ\u00eancia, que as afirma\u00e7\u00f5es oriundas dela s\u00e3o capazes de fornecer tend\u00eancias, dicas e sugest\u00f5es que podem ajudar a lidar com a ansiedade por n\u00e3o saber qual rumo seguir. \u00c9, portanto, uma cren\u00e7a reconfortante\u201d. Trata-se, em outras palavras, de \u201cuma pseudoci\u00eancia que se parece com ci\u00eancia genu\u00edna\u201d, diz o especialista.<\/p>\n<h2>Profecia induzida<\/h2>\n<p>Essa busca por defini\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas confi\u00e1veis e previs\u00f5es seguras para o futuro gera um fen\u00f4meno curioso: as pessoas que acreditam em astrologia podem acabar se comportando de acordo com ela, como descreve o professor. E, assim, confirmando as previs\u00f5es que haviam lido ou ouvido dias antes.<\/p>\n<p>\u201cEu mesmo conhe\u00e7o pessoas que j\u00e1 tomaram decis\u00f5es importantes na vida, como trocar de emprego, por conta de supostos apontamentos astrol\u00f3gicos. Al\u00e9m disso, a pr\u00f3pria m\u00eddia j\u00e1 noticiou casos de empresas que usam mapa astral para decidir se contratam ou n\u00e3o determinado sujeito\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Muitas pessoas se baseiam na astrologia para buscar n\u00e3o apenas conforto, mas orienta\u00e7\u00e3o para tomadas de decis\u00e3o importantes. Por isso, diz Schappo, chegou o momento de redimensionar a astrologia. \u201cVamos, sim, lembrar dela como ela deve ser lembrada: um fruto da cultura e da hist\u00f3ria da humanidade, mas que acabou sendo superada pelos avan\u00e7os da ci\u00eancia, da f\u00edsica e da astronomia, como muitas outras ideias assim o foram\u201d.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O signo influencia a personalidade das pessoas? 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