{"id":145819,"date":"2026-01-22T09:37:56","date_gmt":"2026-01-22T13:37:56","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=145819"},"modified":"2026-01-22T09:37:56","modified_gmt":"2026-01-22T13:37:56","slug":"parditude-e-a-libertacao-paradoxal-das-politicas-identitarias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=145819","title":{"rendered":"\u201cParditude\u201d e a liberta\u00e7\u00e3o paradoxal das pol\u00edticas identit\u00e1rias"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/01\/22103453\/Gemini_Generated_Image_jowr6bjowr6bjowr.jpg\" \/><span>A rigidez dos termos identit\u00e1rios raciais na academia fez mais uma v\u00edtima. (Foto: Imagem criada com Google Gemini)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Beatriz Bueno, ex-mestranda da Universidade Federal Fluminense, foi desligada do programa em dezembro de 2025. O ato administrativo aponta reprova\u00e7\u00e3o em disciplinas obrigat\u00f3rias e descumprimento de exig\u00eancias acad\u00eamicas. A narrativa p\u00fablica que ela construiu segue outra dire\u00e7\u00e3o: racismo estrutural, persegui\u00e7\u00e3o institucional, adoecimento ps\u00edquico. Entre atas e relatos pessoais, forma-se um impasse t\u00edpico do nosso tempo. O ponto decisivo, por\u00e9m, est\u00e1 fora dessa disputa factual. O caso s\u00f3 adquire dimens\u00e3o p\u00fablica porque transita pelas franjas do identitarismo.<\/p>\n<p>Beatriz desenvolveu pesquisa e autodefini\u00e7\u00e3o centradas na chamada \u201cparditude\u201d. A proposta aparece como cr\u00edtica ao binarismo racial e \u00e0 polariza\u00e7\u00e3o entre &#8220;brancos&#8221; e &#8220;negros&#8221; nas pol\u00edticas identit\u00e1rias. Em tese, o gesto buscava escapar da rigidez classificat\u00f3ria. Beatriz n\u00e3o queria ser \u201cnegra\u201d \u2013 achava o termo pol\u00edtico e excludente \u2013 nem \u201cbranca\u201d \u2013 sabia que n\u00e3o passaria. Inventou a \u201cparditude\u201d.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, produziu mais uma categoria, pronta para circular na mesma gram\u00e1tica identit\u00e1ria. A fuga terminou dentro da pr\u00f3pria armadilha.<\/p>\n<p>A universidade respondeu com documentos: frequ\u00eancia insuficiente, avalia\u00e7\u00f5es reprovadas, atividades pendentes. Beatriz respondeu com relatos de sofrimento, crises de ansiedade, constrangimentos em sala de aula, hostilidade simb\u00f3lica. A disputa p\u00fablica passou a girar em torno da pergunta errada: quem diz a verdade? O debate relevante ocorre em outro plano. A verdade dos fatos pouco importa aqui. A quest\u00e3o \u00e9 outra: por que um caso burocr\u00e1tico comum s\u00f3 vira esc\u00e2ndalo quando assume forma identit\u00e1ria?<\/p>\n<p>A resposta envolve o funcionamento desse imagin\u00e1rio. A literatura racial se expande nesse espa\u00e7o amb\u00edguo. A cria\u00e7\u00e3o de novas identidades aparece como gesto emancipat\u00f3rio, embora termine por ampliar o campo de classifica\u00e7\u00e3o estatal. Cada novo nome acrescenta um item ao formul\u00e1rio. Cada novo reconhecimento fortalece a m\u00e1quina que organiza pol\u00edticas p\u00fablicas, estat\u00edsticas, cotas, financiamentos e disputas institucionais. A cr\u00edtica alimenta o sistema que pretendia constranger.<\/p>\n<p>Da minha parte, herdeiro da tradi\u00e7\u00e3o personalista \u2013 hoje quase ausente do debate p\u00fablico \u2013, a quest\u00e3o ganha outro eixo. O cristianismo nasce como ruptura radical com as hierarquias identit\u00e1rias do mundo antigo. Nos Evangelhos, Jesus atravessa fronteiras \u00e9tnicas, religiosas e morais sem pedir credenciais. O samaritano serve de modelo de justi\u00e7a; o publicano entra em casa justificado; o leproso toca o corpo santo e recebe dignidade antes de qualquer purifica\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. A pessoa aparece sempre antes da classifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Quando o Estado passa a gerir identidades em vez de garantir direitos comuns, a esfera de atua\u00e7\u00e3o da arbitrariedade se alarga.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Paulo formula essa ruptura de modo ainda mais incisivo: em Cristo, judeu e grego, escravo e livre, homem e mulher perdem fun\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. A identidade deixa de ser destino p\u00fablico. O valor do sujeito repousa em algo anterior a qualquer marca social. O personalismo crist\u00e3o herdou essa intui\u00e7\u00e3o fundamental. A dignidade antecede cor, origem, pertencimento e utilidade pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O identitarismo caminha em dire\u00e7\u00e3o inversa. A inscri\u00e7\u00e3o correta em um sistema classificat\u00f3rio passa a definir exist\u00eancia p\u00fablica, acesso a direitos e legitimidade discursiva. A categoria ganha primazia; a pessoa entra depois. A promessa de liberta\u00e7\u00e3o assume a forma de cativeiro ideol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Para leitores alheios \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, o republicanismo oferece via anal\u00edtica s\u00f3lida. Philip Pettit define liberdade como aus\u00eancia de domina\u00e7\u00e3o \u2013 condi\u00e7\u00e3o na qual o sujeito deixa de depender do arb\u00edtrio alheio. A domina\u00e7\u00e3o surge sempre que algu\u00e9m depende da valida\u00e7\u00e3o discricion\u00e1ria de inst\u00e2ncias capazes de nomear, classificar e conceder reconhecimento.<\/p>\n<p>O identitarismo amplia exatamente esse campo de depend\u00eancia. Ao multiplicar categorias, multiplica \u00e1rbitros. Ao expandir nomes oficiais, refor\u00e7a inst\u00e2ncias capazes de decidir quem conta, como conta e sob quais crit\u00e9rios. O espa\u00e7o da cidadania se estreita; o da autoriza\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica cresce. A sujei\u00e7\u00e3o assume forma difusa, administrativa, estat\u00edstica.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o republicana cl\u00e1ssica sempre desconfiou desse mecanismo. De C\u00edcero a Madison, a liberdade repousa em regras gerais, impessoais, resistentes \u00e0 captura das fac\u00e7\u00f5es tribais. Quando o Estado passa a gerir identidades em vez de garantir direitos comuns, a esfera de atua\u00e7\u00e3o da arbitrariedade se alarga. Paradoxo: ao exigir reconhecimento oficial da \u201cparditude\u201d, Beatriz refor\u00e7a o poder que passou a denunciar. A identidade constru\u00edda como resist\u00eancia termina absorvida pela engrenagem de domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A ironia tr\u00e1gica mora a\u00ed. Quanto mais se tenta escapar das categorias, mais se consolida o sistema que delas depende. O discurso do racismo estrutural, ao expandir o vocabul\u00e1rio racial, sustenta a necessidade de novas pol\u00edticas, novos crit\u00e9rios, novos mediadores. O cristianismo anunciava a supera\u00e7\u00e3o das distin\u00e7\u00f5es \u00faltimas. A modernidade identit\u00e1ria recoloca a pele como destino pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Hist\u00f3ria triste, sem reden\u00e7\u00e3o. Toda luta identit\u00e1ria desemboca em recadastramento.<\/p>\n<\/div>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A rigidez dos termos identit\u00e1rios raciais na academia fez mais uma v\u00edtima. 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