{"id":142770,"date":"2026-01-21T16:34:48","date_gmt":"2026-01-21T20:34:48","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=142770"},"modified":"2026-01-21T16:34:48","modified_gmt":"2026-01-21T20:34:48","slug":"por-que-as-pessoas-deixaram-de-se-importar-com-a-selecao-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=142770","title":{"rendered":"Por que as pessoas deixaram de se importar com a sele\u00e7\u00e3o brasileira"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>A sele\u00e7\u00e3o brasileira foi um s\u00edmbolo nacional durante d\u00e9cadas. Parava o pa\u00eds, unia torcidas rivais e mobilizava gera\u00e7\u00f5es. Hoje, esse v\u00ednculo n\u00e3o existe mais. Jogos da equipe j\u00e1 n\u00e3o provocam como\u00e7\u00e3o coletiva, mesmo em anos de Copa do Mundo.<\/p>\n<p>Um levantamento feito em 2025, pelo Ipsos-Ipec, em parceria com O Globo, chegou a enquadrar esse fen\u00f4meno. A pesquisa mostrou que um em cada tr\u00eas brasileiros n\u00e3o se interessa pela sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol. Por uma s\u00e9rie de motivos.<\/p>\n<p>Nem mesmo os jogos do escrete canarinho no pa\u00eds causam a mesma como\u00e7\u00e3o de outrora. Em outubro de 2024, por exemplo, Brasil e Peru pelas Eliminat\u00f3rias da Copa do Mundo n\u00e3o encheu sequer a metade do Est\u00e1dio Man\u00e9 Garrincha, em Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>O distanciamento n\u00e3o \u00e9 por causa de uma \u00fanica derrota ou de uma gera\u00e7\u00e3o ruim de jogadores. \u00c9 o resultado de anos de fracassos esportivos, m\u00e1 gest\u00e3o, falta de identifica\u00e7\u00e3o e uma profunda transforma\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n<p>A sele\u00e7\u00e3o brasileira j\u00e1 n\u00e3o representa do mesmo jeito o pa\u00eds e a indiferen\u00e7a\u00a0cresce\u00a0especialmente entre os mais jovens. \u00c9 tempo de Copa do Mundo, que ser\u00e1 jogada nos Estados Unidos, Canad\u00e1 e M\u00e9xico. E n\u00f3s respondemos\u00a0a\u00a0pergunta: por que as pessoas deixaram de se importar com o time nacional?<\/p>\n<h2>1) Jejum que \u00e9 uma eternidade<\/h2>\n<p>Quando o Brasil faturou a Copa do Mundo de 1994, caiu um longu\u00edssimo tabu de 24 anos sem que o pa\u00eds levantasse uma ta\u00e7a do torneio. O trof\u00e9u anterior fora conquistado l\u00e1 em 1970 e, antes disso, a equipe vencera mundiais seguidos, em 58 e 62.\u00a0<\/p>\n<p>O\u00a0per\u00edodo de quase duas d\u00e9cadas e meia sem ganhar uma Copa\u00a0se repete agora. A \u00faltima gl\u00f3ria foi em 2002, no Jap\u00e3o e na Coreia do Sul.\u00a0Para a \u00fanica sele\u00e7\u00e3o pentacampe\u00e3 do planeta,\u00a0um\u00a0jejum t\u00e3o longo\u00a0\u00e9\u00a0uma eternidade.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria perdedora em Copas, claro, desmotiva qualquer um. Nas \u00faltimas cinco edi\u00e7\u00f5es, em quatro o Brasil tombou logo nas quartas de final, sempre batido por sele\u00e7\u00f5es europeias. E quando foi \u00e0\u00a0semi, em 2014, contra a Alemanha, bem\u2026\u00a0<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo de fracassos da sele\u00e7\u00e3o brasileira, outras pot\u00eancias se renovaram. A Fran\u00e7a ganhou protagonismo, venceu um Mundial e perdeu outras duas finais. E at\u00e9 a Argentina, que n\u00e3o gritava \u201ccampe\u00f3n\u201d desde 1986, viu Messi acabar com a espera em 2022.<\/p>\n<h2>2) A humilha\u00e7\u00e3o suprema\u00a0<\/h2>\n<p>Perder ou ganhar faz parte do futebol, mesmo para as sele\u00e7\u00f5es de primeira linha, como sempre foi o caso do Brasil. Mas, ser humilhado, esculachado, esculhambado, \u00e9 diferente. Ainda mais em casa, diante de seu torcedor.\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Ap\u00f3s 64 anos, enfim o Brasil receberia outra vez uma Copa do Mundo. Em jogo, n\u00e3o apenas a chance do hexa. Mas tamb\u00e9m a oportunidade de vingar a sele\u00e7\u00e3o de 1950, batida em casa pelo Uruguai, na final\u00edssima, em um Maracan\u00e3 apinhado.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Aos trancos e barrancos, o time do t\u00e9cnico Felip\u00e3o chegou na semifinal. E a\u00ed, bem, a\u00ed nada mais foi como antes. Com o Mineir\u00e3o cheio, o Brasil foi ridicularizado pela Alemanha, por 7 a 1 (o primeiro tempo foi 5&#215;0!).\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>O rev\u00e9s brasileiro \u00e9 amplamente considerado como a pior derrota da hist\u00f3ria no esporte. Um vexame simb\u00f3lico que, naturalmente, comprometeu a moral da camisa mais estrelada do futebol mundial. O Brasil virou motivo de chacota, at\u00e9 entre os seus.<\/p>\n<h2>3) \u00c9 sele\u00e7\u00e3o do Brasil ou da Europa?\u00a0<\/h2>\n<p>Por causa de dinheiro, a sele\u00e7\u00e3o brasileira se transformou numa vers\u00e3o futebol\u00edstica dos Harlem\u00a0Globetrotters, aquele time de basquete americano que ainda faz apresenta\u00e7\u00f5es ao redor do mundo. Passou a ser atra\u00e7\u00e3o pelo mundo todo, como um circo do esporte.\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Para se ter uma ideia,\u00a0todos os\u00a0s \u00faltimos dez amistosos da equipe\u00a0foram disputados a l\u00e9guas de dist\u00e2ncia do territ\u00f3rio nacional. O Brasil atuou na Fran\u00e7a, Inglaterra (duas vezes), Jap\u00e3o, Coreia do Sul, Estados Unidos (duas vezes), Espanha (duas vezes) e Portugal.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Em 2025, o Brasil n\u00e3o fez nenhum duelo amistoso em casa, no Maracan\u00e3, no Morumbi ou qualquer outro grande est\u00e1dio no pa\u00eds. S\u00f3 jogou diante de seu torcedor pelas Eliminat\u00f3rias da Copa do Mundo, o que \u00e9 obrigat\u00f3rio segundo as normas da Conmebol. N\u00e3o fosse assim&#8230;\u00a0<\/p>\n<p>O distanciamento, evidentemente, influencia na rela\u00e7\u00e3o da equipe com os brasileiros. Sem jogos no pa\u00eds, sem caravanas, sem tardes de est\u00e1dio cheios, sem o v\u00ednculo direto, a sele\u00e7\u00e3o virou um produto distante, virtual. S\u00f3 \u00e9 vista pelos brasileiros pela televis\u00e3o.<\/p>\n<h2>4) Quem \u00e9 esse mesmo?\u00a0<\/h2>\n<p>Qualquer torcedor comum que veja os jogos do Brasil (pela televis\u00e3o), j\u00e1 deve ter se perguntado: quem \u00e9 esse jogador? At\u00e9 mesmo quem \u00e9 acostumado ao futebol internacional fica em d\u00favida de vez em quando. \u201cComo \u00e9 o nome dele?\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Se j\u00e1 aconteceu com voc\u00ea, n\u00e3o se preocupe. N\u00e3o \u00e9 vergonha para ningu\u00e9m. E a resposta, invariavelmente, aponta para algum jogador super jovem, que partiu cedo do Brasil, e despontou em um clube secund\u00e1rio da Premier League, a liga inglesa.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>O \u00eaxodo de jogadores brasileiros para o estrangeiro n\u00e3o \u00e9 de agora. Iniciou nos anos 80 e explodiu nos 90, quando a Europa facilitou as transfer\u00eancias dentro do continente. Mas se antes o Brasil negociava seus craques consagrados, hoje exporta promessas adolescentes.<\/p>\n<h2>5) Eles n\u00e3o nos representam\u00a0<\/h2>\n<p>Este t\u00f3pico tem rela\u00e7\u00e3o com o anterior. Como os jogadores saem jovens para atuar no exterior, n\u00e3o criam la\u00e7os com os clubes brasileiros. N\u00e3o d\u00e1 tempo de virarem \u00eddolos dos clubes nacionais.<\/p>\n<p>Veja s\u00f3. Na \u00faltima vez em que o Brasil foi campe\u00e3o mundial, em 2002, 12 dos 23 convocados por Luiz Felipe Scolari defendiam times brasileiros. Eram jogadores do Palmeiras, Corinthians, Atl\u00e9tico-MG, S\u00e3o Paulo, Gr\u00eamio, Athletico e Cruzeiro.\u00a0<\/p>\n<p>J\u00e1 na Copa seguinte, disputada na Alemanha, em 2006, o n\u00famero despencou. S\u00f3 dois dos 23 chamados por Carlos Alberto Parreira atuavam no Brasil. Na \u00faltima, em 2022, foram apenas tr\u00eas dos 26 atletas chamados pelo estrategista Tite.\u00a0<\/p>\n<p>Quando a sele\u00e7\u00e3o era formada majoritariamente por jogadores que atuavam no Brasil,\u00a0o\u00a0torcedor reconhecia aqueles rostos toda semana. Via o goleiro no domingo \u00e0 tarde, o atacante no cl\u00e1ssico, o meia no est\u00e1dio do bairro. Torcia por eles.\u00a0<\/p>\n<p>A partir do momento em que quase todo o elenco do Brasil passa a jogar na Europa, o elo do cotidiano se vai. S\u00e3o figuras distantes, vistas em ligas estrangeiras. Ningu\u00e9m se importa com eles.<\/p>\n<h2>6) A amarelinha em disputa\u00a0<\/h2>\n<p>A camisa amarela da sele\u00e7\u00e3o brasileira ainda \u00e9 o mais importante s\u00edmbolo do futebol. Reconhecida no planeta inteiro. Se voc\u00ea aparecer trajado com a amarelinha em qualquer canto do planeta Terra, ser\u00e1 tratado como rei.<\/p>\n<p>Por d\u00e9cadas, o manto, que nasceu branco e mudou em 1953, representou a identidade nacional, al\u00e9m do orgulho esportivo. Por\u00e9m, desde 2015, com as manifesta\u00e7\u00f5es pelo impeachment\u00a0da\u00a0presidente Dilma Rousseff, se tornou objeto de disputa pol\u00edtica no Brasil.\u00a0<\/p>\n<p>O uniforme foi apropriado em atos de rua, manifesta\u00e7\u00f5es e campanhas associadas a uma vis\u00e3o espec\u00edfica de pa\u00eds. Vestir o amarelo deixou de significar apenas torcer pelo Brasil e passou, para muitos, a sinalizar alinhamento ideol\u00f3gico.\u00a0<\/p>\n<p>Esse processo acabou produzindo um efeito colateral. Parte da popula\u00e7\u00e3o passou a evitar a camisa por quest\u00f5es pol\u00edticas. A amarelinha, que sempre representou uma paix\u00e3o em comum, perdeu o car\u00e1ter agregador.\u00a0<\/p>\n<h2>7) Um protagonista fracassado\u00a0<\/h2>\n<p>O retrospecto de fracassos da sele\u00e7\u00e3o tem um craque protagonista: Neymar. Ningu\u00e9m nunca questionou o talento do filho do Neymar Pai, mas ele j\u00e1 disputou tr\u00eas mundiais e nada. Ney Jr. n\u00e3o conseguiu conduzir o Brasil a uma conquista, como Pel\u00e9, Rom\u00e1rio e Ronaldo. Conseguir\u00e1?<\/p>\n<p>No Mundial do Brasil, o atacante come\u00e7ou bem at\u00e9 ser alijado da disputa com uma joelhada maldosa nas costas. Viu o vexame do 7 a 1 da arquibancada. Em 2018, na R\u00fassia, Neymar se destacou como meme mundial<s>,<\/s>\u00a0por simular faltas. E em 2022, jogou lesionado, fez um golzinho contra a Cro\u00e1cia e sucumbiu junto com o time.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Aos 33 anos, h\u00e1 d\u00favidas se Neymar ser\u00e1 convocado por Carlo Ancelotti para o que pode ser seu quarto e derradeiro mundial. Seu \u00faltimo t\u00edtulo de express\u00e3o como jogador foi em 2014-15, da Liga dos Campe\u00f5es com o Barcelona. Desde ent\u00e3o, chama aten\u00e7\u00e3o s\u00f3 por causa de casos extraconjugais e o gosto duvidoso para autom\u00f3veis e cortes de cabelo.\u00a0\u00a0<\/p>\n<h2>8) Cartolagem sem credibilidade\u00a0<\/h2>\n<p>A cartolagem do futebol brasileiro nunca foi confi\u00e1vel. Muito pelo\u00a0contr\u00e1rio. Ainda assim, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, a impress\u00e3o \u00e9 que piorou. A crise n\u00e3o \u00e9 apenas esportiva, mas tamb\u00e9m de credibilidade.\u00a0<br \/>\u00a0<\/p>\n<p>A Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Futebol (CBF), respons\u00e1vel por gerir o futebol nacional e comandar a sele\u00e7\u00e3o brasileira, se viu envolvida em uma s\u00e9rie de esc\u00e2ndalos e disputas internas. Desde Ricardo Teixeira, o presidente que comandou a institui\u00e7\u00e3o por duas d\u00e9cadas, quase todos os dirigentes tiveram problemas com a Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Falta transpar\u00eancia, um projeto consistente com o futebol local e conex\u00e3o com os torcedores. A sele\u00e7\u00e3o brasileira passou a ser um produto como outro qualquer gerido por cartolas, n\u00e3o mais um patrim\u00f4nio nacional.<\/p>\n<h2>9) Onde vai passar?\u00a0<\/h2>\n<p>Fen\u00f4meno recente, a fragmenta\u00e7\u00e3o dos direitos de transmiss\u00e3o esportivos alterou profundamente a rela\u00e7\u00e3o do p\u00fablico com o futebol. Durante d\u00e9cadas, o torcedor brasileiro sabia onde encontrar o jogo: na TV aberta, em canais universais, acess\u00edveis a todos.<\/p>\n<p>A sele\u00e7\u00e3o era um evento nacional, compartilhado em tempo real por milh\u00f5es de pessoas. Hoje, partidas est\u00e3o espalhadas entre TV paga, streaming, aplicativos e pacotes distintos. Para acompanhar campeonatos, clubes e a pr\u00f3pria sele\u00e7\u00e3o, o espectador precisa assinar m\u00faltiplos servi\u00e7os, navegar por plataformas e, muitas vezes, pagar mais para ver menos.\u00a0<\/p>\n<p>Esse modelo quebrou a experi\u00eancia coletiva. Parte do p\u00fablico simplesmente desiste. O futebol perde centralidade cultural e passa a competir em desvantagem com entretenimentos mais simples e baratos.<\/p>\n<h2>10) \u201cTenho coisa melhor pra fazer\u201d\u00a0<\/h2>\n<p>Parte da resposta para o afastamento est\u00e1 fora do futebol. Tomando como refer\u00eancia o ano de 2002, quando o Brasil foi campe\u00e3o mundial pela \u00faltima vez, houve uma explos\u00e3o de alternativas de lazer.<\/p>\n<p>Redes sociais, games, streaming, esportes internacionais\u00a0etc\u00a0competem diretamente com os 90 minutos de jogo. A sele\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o ocupa o centro da experi\u00eancia cultural do pa\u00eds. Aos poucos, se tornou apenas \u201cmais um conte\u00fado\u201d em meio a milhares.<\/p>\n<h2>11) Pa\u00eds do futebol? Nem tanto\u00a0<\/h2>\n<p>O Brasil sempre foi considerado o pa\u00eds do futebol. Mas, com o tempo, fomos descobrindo que a fama n\u00e3o \u00e9 l\u00e1 muito verdadeira. Sempre fomos, e ainda somos, o pa\u00eds dos jogadores de futebol. Mas a paix\u00e3o do torcedor local pelo esporte \u00e9 bastante superdimensionada.<\/p>\n<p>Diversos levantamentos demonstram que h\u00e1, no pa\u00eds, uma parcela consider\u00e1vel de habitantes que n\u00e3o tem o menor interesse por futebol. Pessoas que n\u00e3o torcem para nenhum time e nem mesmo pela sele\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Um levantamento encomendado pelo O Globo, no ano passado, por exemplo, identificou que os \u201cdesinteressados\u201d s\u00e3o 24,4% da popula\u00e7\u00e3o. Outras pesquisas apontam o mesmo cen\u00e1rio. Futebol \u00e9 paix\u00e3o nacional? Nem tanto assim.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A sele\u00e7\u00e3o brasileira foi um s\u00edmbolo nacional durante d\u00e9cadas. Parava o pa\u00eds, unia torcidas rivais e mobilizava gera\u00e7\u00f5es. 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