{"id":130352,"date":"2026-01-18T19:33:22","date_gmt":"2026-01-18T23:33:22","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=130352"},"modified":"2026-01-18T19:33:22","modified_gmt":"2026-01-18T23:33:22","slug":"como-o-excesso-de-telas-esta-diminuindo-a-nossa-capacidade-de-leitura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=130352","title":{"rendered":"Como o excesso de telas est\u00e1 diminuindo a nossa capacidade de leitura"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>\u201cQuem mal l\u00ea, mal fala, mal ouve, mal v\u00ea.\u201d<\/p>\n<p>A frase de Monteiro Lobato, escrita muito antes de a internet mergulhar o mundo num estado de hiperconectividade, soa como um diagn\u00f3stico do nosso tempo. A leitura (no Brasil e na maior parte do planeta) ocupa cada vez menos espa\u00e7o no cotidiano das pessoas. Em contrapartida, nunca estivemos t\u00e3o expostos a est\u00edmulos visuais, a v\u00eddeos curtos e a um fluxo incessante de informa\u00e7\u00e3o fragmentada.<\/p>\n<p>Os efeitos disso v\u00e3o muito al\u00e9m de nosso escasseado gosto por livros. Eles v\u00e3o determinar qual ser\u00e1 a nossa realidade nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<h2>Novos tempos, novos h\u00e1bitos<\/h2>\n<p>De acordo com a 6\u00aa edi\u00e7\u00e3o da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, lan\u00e7ada no final de 2024, o Brasil perdeu quase 7 milh\u00f5es de leitores entre 2021 e 2024. Ao todo, 53% dos entrevistados afirmam n\u00e3o ter lido sequer parte de um livro nos tr\u00eas meses anteriores \u00e0 pesquisa. Foi a primeira vez na s\u00e9rie hist\u00f3rica que o pa\u00eds teve mais n\u00e3o leitores do que leitores.<\/p>\n<p>\u201cSe considerarmos somente livros inteiros lidos, no per\u00edodo de tr\u00eas meses anteriores \u00e0 pesquisa, o percentual de leitores \u00e9 ainda menor, de 27% dos brasileiros\u201d, informa a pesquisa. Mas essa queda no interesse pela leitura n\u00e3o se d\u00e1 num v\u00e1cuo.<\/p>\n<p>Afinal, nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas, nossos h\u00e1bitos digitais mudaram radicalmente \u2014 e o \u201cradicalmente\u201d aqui n\u00e3o \u00e9 um exagero.<\/p>\n<p>Para grande parte da sociedade, celulares e smartphones se tornaram uma extens\u00e3o indispens\u00e1vel do corpo humano. Esse pequeno aparelho, fruto do trabalho e das pesquisas de tantas mentes brilhantes ao redor do mundo, transformou nosso modo de vida nos \u00faltimos 30 anos de tal modo que \u00e9 quase impens\u00e1vel viver sem um. \u00c9 dif\u00edcil conceber a vida contempor\u00e2nea sem um smartphone para trocar mensagens instantaneamente, resolver quest\u00f5es financeiras instantaneamente, pedir comida instantaneamente, fazer compras instantaneamente ou assistir a todo tipo de v\u00eddeo instantaneamente.<\/p>\n<p>De fato, \u201cinstantaneamente\u201d define nosso estilo de vida contempor\u00e2neo \u2014 assim como fugazmente, efemeramente ou temerariamente. O sinal mais evidente disso talvez seja nosso consumo de entretenimento, em que a leitura de textos longos perdeu espa\u00e7o para v\u00eddeos de poucos segundos, frases soltas, manchetes descontextualizadas e narrativas que se encerram antes mesmo de exigir esfor\u00e7o cognitivo. Ao navegarmos pela internet, somos bombardeados por plataformas que foram desenhadas para maximizar o engajamento imediato, n\u00e3o a compreens\u00e3o.<\/p>\n<p>A instantaneidade desses nossos h\u00e1bitos digitais \u00e9 muito agrad\u00e1vel (algu\u00e9m discorda?), mas diversos estudos recentes apontam que esse modelo de consumo afeta diretamente nossa capacidade de aten\u00e7\u00e3o sustentada. V\u00eddeos curtos, especialmente quando consumidos em sequ\u00eancia, ativam mecanismos de gratifica\u00e7\u00e3o r\u00e1pida no c\u00e9rebro, refor\u00e7ando um padr\u00e3o de est\u00edmulo-resposta que dificulta o engajamento prolongado com uma \u00fanica ideia.<\/p>\n<p>De acordo com a psic\u00f3loga Andreia Vieira, \u00e9 not\u00e1vel em seus atendimentos cl\u00ednicos a necessidade cada vez maior que seus pacientes t\u00eam por est\u00edmulos visuais. Ela alerta que esse comportamento em crian\u00e7as e adolescentes pode fazer o c\u00e9rebro deles se desenvolver com esse padr\u00e3o, que afeta o controle da impulsividade, a regula\u00e7\u00e3o emocional e o planejamento.<\/p>\n<p>Isso, segundo a especialista, pode levar a pessoa a desenvolver depend\u00eancia de telas. Essa depend\u00eancia se manifesta por alguns sintomas: \u201cFalta de paci\u00eancia para tarefas simples, dificuldade em ler textos mais extensos, ansiedade quando n\u00e3o se tem o\u00a0celular\u00a0por perto, sensa\u00e7\u00e3o de estar sempre ocupado mas sem produtividade real, altera\u00e7\u00f5es no sono e mudan\u00e7as na forma como nos relacionamos\u201d, explicou a psic\u00f3loga em entrevista ao <em>New in Town<\/em>.<\/p>\n<h2>Impacto na educa\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Antes que voc\u00ea entre em nega\u00e7\u00e3o, essas informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o buscam demonizar a tecnologia. Elas apenas reconhecem que certos formatos treinam o c\u00e9rebro para a dispers\u00e3o cont\u00ednua. Quando esse padr\u00e3o se torna dominante, a leitura \u2014 que exige tempo, esfor\u00e7o e toler\u00e2ncia ao t\u00e9dio inicial \u2014 passa a ser percebida como \u00e1rdua ou desinteressante.<\/p>\n<p>O impacto disso aparece de forma clara nos indicadores educacionais. No Brasil, como j\u00e1 dito, as pesquisas mostram queda consistente no h\u00e1bito de leitura, inclusive entre jovens. Textos longos s\u00e3o cada vez menos visitados, mesmo em contextos escolares. Em 2023, 66% dos alunos brasileiros de 15 e 16 anos de idade nunca haviam lido um texto inteiro com mais de 10 p\u00e1ginas. Sim, \u00e9 preocupante a esse ponto.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, avalia\u00e7\u00f5es nacionais indicam que estudantes do ensino m\u00e9dio apresentam hoje os piores n\u00edveis de compreens\u00e3o leitora em tr\u00eas d\u00e9cadas. Questionados sobre esse dado, jovens em idade escolar dos EUA apresentaram poss\u00edveis raz\u00f5es para isso. \u201cEles [os estudantes] apontaram uma combina\u00e7\u00e3o de fatores [para o desempenho ruim em leitura], incluindo a perda de aprendizagem durante a pandemia, a carga de trabalho esmagadora do ensino m\u00e9dio moderno, a queda dos padr\u00f5es acad\u00eamicos e, acima de tudo, o pux\u00e3o implac\u00e1vel das telas, que, nas palavras deles, dizimou a capacidade de aten\u00e7\u00e3o\u201d, explica a equipe do The Learning Network, do <em>The New York Times.<\/em><\/p>\n<p>\u00a0Muitos relataram dificuldade para acompanhar argumentos complexos, interpretar textos densos ou manter aten\u00e7\u00e3o durante leituras prolongadas.<\/p>\n<h2>Leitura para a vida<\/h2>\n<p>Ler pouco n\u00e3o significa apenas conhecer menos palavras, mas desenvolver menos habilidades cognitivas fundamentais: interpreta\u00e7\u00e3o, infer\u00eancia, compara\u00e7\u00e3o de ideias, abstra\u00e7\u00e3o. A leitura profunda \u00e9 um exerc\u00edcio intelectual completo. Ela obriga o leitor a construir sentido, acompanhar encadeamentos l\u00f3gicos, lidar com ambiguidades e sustentar hip\u00f3teses ao longo do texto. Quando essa pr\u00e1tica enfraquece, o aprendizado como um todo se torna mais raso.<\/p>\n<p>Ser capaz de interpretar textos \u00e9 ser capaz de interpretar a vida.<\/p>\n<p>Uma pesquisa da Organiza\u00e7\u00e3o para Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE) revelou que 67% dos estudantes brasileiros n\u00e3o s\u00e3o capazes de diferenciar fatos de opini\u00f5es ao lerem textos. Parte da culpa, segundo a organiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 do excesso de informa\u00e7\u00f5es em rede e a excessiva fragmenta\u00e7\u00e3o delas.\u00a0<\/p>\n<p>Uma sociedade que l\u00ea pouco pensa de forma mais fragmentada. Argumentos longos perdem espa\u00e7o para slogans, e an\u00e1lises complexas s\u00e3o substitu\u00eddas por opini\u00f5es instant\u00e2neas. A realidade, em vez de ser interpretada, \u00e9 consumida em peda\u00e7os \u2014 recortada em narrativas simples, frequentemente emocionais e quase sempre incompletas.<\/p>\n<p>Isso tem implica\u00e7\u00f5es diretas para a vida p\u00fablica. A pol\u00edtica contempor\u00e2nea j\u00e1 n\u00e3o se organiza majoritariamente em torno de programas, ideias ou debates estruturados, mas de v\u00eddeos virais, frases de impacto e disputas simb\u00f3licas aceleradas. Cidad\u00e3os com baixa capacidade de leitura cr\u00edtica tornam-se mais vulner\u00e1veis \u00e0 desinforma\u00e7\u00e3o, \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o emocional e a explica\u00e7\u00f5es simplistas para problemas complexos. Quando a compreens\u00e3o do mundo \u00e9 rasa, as decis\u00f5es tendem a ser igualmente rasas.<\/p>\n<p>Na economia, o efeito n\u00e3o \u00e9 menor. O mercado de trabalho exige aprendizado cont\u00ednuo, interpreta\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es, adapta\u00e7\u00e3o a cen\u00e1rios complexos. Profissionais incapazes de ler criticamente relat\u00f3rios, contratos, dados ou textos t\u00e9cnicos encontram mais dificuldades para se qualificar e progredir. A perda da leitura como pr\u00e1tica cotidiana compromete n\u00e3o apenas a forma\u00e7\u00e3o cultural, mas a autonomia intelectual do indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>Nada disso significa que o livro precise competir com o celular como objeto f\u00edsico, nem que o retorno a um passado anal\u00f3gico seja poss\u00edvel ou desej\u00e1vel. A quest\u00e3o central \u00e9 reconhecer que determinados h\u00e1bitos cognitivos precisam ser preservados. E a leitura profunda \u00e9 um deles. Sem ela, nossa capacidade de interpretar a realidade se empobrece. E quando a interpreta\u00e7\u00e3o falha, a a\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m falha.<\/p>\n<p>Monteiro Lobato talvez n\u00e3o imaginasse algoritmos, feeds infinitos ou v\u00eddeos verticais. Mas compreendia que a leitura \u00e9 o alicerce da percep\u00e7\u00e3o. Quem mal l\u00ea, de fato, mal fala, mal ouve, mal v\u00ea. Em um mundo saturado de informa\u00e7\u00e3o, ler bem deixou de ser apenas um h\u00e1bito cultural. Tornou-se uma condi\u00e7\u00e3o para compreender \u2014 e transformar \u2014 a realidade que nos cerca.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cQuem mal l\u00ea, mal fala, mal ouve, mal v\u00ea.\u201d A frase de Monteiro Lobato, escrita muito antes de a internet&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":130353,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-130352","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/130352","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=130352"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/130352\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/130353"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=130352"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=130352"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=130352"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}