{"id":129230,"date":"2026-01-18T11:56:55","date_gmt":"2026-01-18T15:56:55","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=129230"},"modified":"2026-01-18T11:56:55","modified_gmt":"2026-01-18T15:56:55","slug":"o-verao-as-ferias-e-a-utilidade-do-inutil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=129230","title":{"rendered":"O ver\u00e3o, as f\u00e9rias e a utilidade do in\u00fatil"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<h2>I. O descanso: deter-se num mundo que n\u00e3o sabe parar<\/h2>\n<p>O ver\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas uma esta\u00e7\u00e3o do ano: evoca f\u00e9rias, descanso e uma forma pr\u00f3pria de viver. Mesmo quem n\u00e3o consegue descansar de verdade percebe que o ver\u00e3o significa, em maior ou menor grau, descanso: talvez um que se projeta para o futuro, talvez um que se recorda com nostalgia. Em todo caso, o ver\u00e3o desperta em n\u00f3s uma promessa: a possibilidade de deter-se, assim como o sol parece deter-se no c\u00e9u de janeiro.<\/p>\n<p>As f\u00e9rias, assim compreendidas, n\u00e3o s\u00e3o um simples par\u00eantese no calend\u00e1rio laboral ou acad\u00eamico. Constituem um gesto cultural de enorme densidade antropol\u00f3gica: a afirma\u00e7\u00e3o segura de que o homem n\u00e3o existe apenas para produzir, render ou cumprir fun\u00e7\u00f5es. S\u00e3o um reconhecimento \u2014cada vez mais fr\u00e1gil \u2014 de que a vida humana precisa de pausas que n\u00e3o se justificam por sua utilidade. N\u00e3o se descansa simplesmente por esgotamento do corpo ou do esp\u00edrito produtivo, nem para voltar a produzir melhor. As f\u00e9rias, quanto mais verdadeiras forem, escapam da l\u00f3gica da utilidade e se justificam a si mesmas.<\/p>\n<p>Nossa cultura, no entanto, vive um paradoxo cada vez mais vis\u00edvel: anseia pelo descanso, mas n\u00e3o sabe bem o que fazer com ele. O descanso \u00e9 planejado, medido, avaliado. Descansa-se para render, desconecta-se para voltar a conectar-se melhor. Muitos de n\u00f3s j\u00e1 experimentamos isso alguma vez: volta-se das f\u00e9rias mais cansado do que se foi, n\u00e3o por excesso f\u00edsico, mas por incapacidade de deter-se interiormente.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de um problema psicol\u00f3gico individual, mas de uma crise cultural do tempo. O tempo deixou de ser o \u00e2mbito em que a vida se desdobra para se tornar recurso. Administra-se, otimiza-se, consome-se. At\u00e9 o descanso foi absorvido por essa l\u00f3gica: deve justificar sua exist\u00eancia mostrando resultados. Mas quando o descanso precisa provar sua utilidade, deixa de ser descanso.<\/p>\n<p>O descanso, em seu sentido mais pr\u00f3prio, ainda n\u00e3o \u00e9 \u00f3cio nem festa. \u00c9 algo mais elementar: a interrup\u00e7\u00e3o da obriga\u00e7\u00e3o de produzir. Parece um gesto m\u00ednimo, mas hoje \u00e9 quase subversivo.,<\/p>\n<blockquote>\n<p>O descanso, em seu sentido mais pr\u00f3prio, ainda n\u00e3o \u00e9 \u00f3cio nem festa. \u00c9 algo mais elementar: a interrup\u00e7\u00e3o da obriga\u00e7\u00e3o de produzir<\/p>\n<\/blockquote>\n<h2>II. O \u00f3cio: a utilidade do in\u00fatil<\/h2>\n<p>Se o descanso \u00e9 a deten\u00e7\u00e3o, o \u00f3cio \u00e9 a forma que essa deten\u00e7\u00e3o adota quando n\u00e3o se vive como vazio, mas como presen\u00e7a. Aqui, a reflex\u00e3o do fil\u00f3sofo alem\u00e3o Josef Pieper resulta decisiva. Para Pieper, o \u00f3cio n\u00e3o \u00e9 o contr\u00e1rio do trabalho, mas seu fundamento espiritual. N\u00e3o \u00e9 mera inatividade nem simples pausa funcional em vista de uma nova produtividade: \u00e9 uma disposi\u00e7\u00e3o da alma.<\/p>\n<p>Quando se descansa para render melhor, quando se \u201cdesconecta\u201d para otimizar a concentra\u00e7\u00e3o futura, o \u00f3cio j\u00e1 foi colonizado pela l\u00f3gica do trabalho. Pieper \u00e9 claro: se o \u00f3cio for concebido como pausa funcional, deixa de ser \u00f3cio e se torna parte do processo produtivo.<\/p>\n<p>O \u00f3cio \u00e9 in\u00fatil em sentido estrito: n\u00e3o serve para algo mais, n\u00e3o se ordena a um fim externo, n\u00e3o se justifica por seus efeitos. No entanto, nessa inutilidade reside sua utilidade mais profunda. Aqui podemos formular com mais detalhe a express\u00e3o que d\u00e1 t\u00edtulo a este ensaio e que tamb\u00e9m \u00e9 o t\u00edtulo de um conhecido livro: a utilidade do in\u00fatil. O \u00f3cio n\u00e3o \u00e9 \u00fatil porque produz resultados, mas porque restitui ao homem uma rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o instrumental com o tempo, com o mundo e consigo mesmo. Sua utilidade n\u00e3o \u00e9 funcional nem mensur\u00e1vel; \u00e9 antropol\u00f3gica, existencial.<\/p>\n<p>Caminhar sem destino, ler sem pressa, conversar sem objetivo, deixar o tempo passar sem administr\u00e1-lo: esses gestos n\u00e3o servem para nada, e precisamente por isso servem para algo essencial. Devolvem ao tempo sua espessura e \u00e0 vida sua dignidade n\u00e3o instrumental. O \u00f3cio n\u00e3o foge do mundo, mas o aceita e o abra\u00e7a tal como \u00e9.Numa cultura que suspeita de tudo o que n\u00e3o rende, o \u00f3cio aparece como algo inquietante, inclusive culpado. Mas \u00e9 precisamente nessa inutilidade que o homem recupera algo que havia perdido: a possibilidade de habitar o tempo em vez de consumi-lo.<\/p>\n<h2>III. A festa: culmina\u00e7\u00e3o do \u00f3cio e afirma\u00e7\u00e3o do ser<\/h2>\n<p>Para Pieper, o \u00f3cio n\u00e3o culmina na mera quietude individual, mas na festa. A festa n\u00e3o \u00e9 um acr\u00e9scimo nem uma recompensa eventual, mas a express\u00e3o mais plena do \u00f3cio. \u00c9 o \u00f3cio em chave comunit\u00e1ria e afirmativa. A festa n\u00e3o se justifica por sua utilidade: n\u00e3o produz nada, n\u00e3o resolve problemas. Precisamente por isso \u00e9 essencial.<\/p>\n<p>A sobremesa se prolonga sem ser planejada. Ningu\u00e9m olha o rel\u00f3gio porque, embora o tempo continue avan\u00e7ando, o rel\u00f3gio perdeu seu poder e encanto sobre n\u00f3s. A festa existe porque o mundo \u00e9 bom e digno de ser celebrado; nisso se funda sua dimens\u00e3o afirmativa. N\u00e3o nasce da aus\u00eancia de dificuldades, mas da afirma\u00e7\u00e3o de que o bem segue sendo mais real que o mal. Por isso pode haver festa mesmo em meio ao sofrimento, mesmo \u2014como lembra Pieper\u2014 em meio \u00e0 guerra. A festa n\u00e3o nega a dor, mas se nega a conceder-lhe a \u00faltima palavra. \u00c9 um ato de resist\u00eancia: uma afirma\u00e7\u00e3o do ser diante de tudo o que o reduz, e do amor a esse ser tal como \u00e9.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Caminhar sem destino, ler sem pressa, conversar sem objetivo, deixar o tempo passar sem administr\u00e1-lo: esses gestos n\u00e3o servem para nada, e precisamente por isso servem para algo essencial<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00c0s vezes a festa adota a forma simples de um almo\u00e7o de ver\u00e3o \u00e0 sombra de uma \u00e1rvore. Uma mesa improvisada, pratos simples e o vento entre as folhas. Come-se sem pressa, conversa-se sem agenda, e o riso irrompe de repente quando algu\u00e9m, no meio da refei\u00e7\u00e3o, se desvia para contar uma anedota colorida, obrigando todos a deter-se e a ceder por um instante o controle a algo maior que a pr\u00f3pria conversa. A sobremesa se prolonga sem ser planejada. Ningu\u00e9m olha o rel\u00f3gio porque, embora o tempo continue avan\u00e7ando, o rel\u00f3gio perdeu seu poder e encanto sobre n\u00f3s. Nada disso serve para algo, e no entanto nessa inutilidade se revela uma verdade incomensur\u00e1vel: a vida pode se sustentar sem outra justifica\u00e7\u00e3o ulterior que a pr\u00f3pria vida.A festa resulta inc\u00f4moda para uma cultura orientada ao rendimento. Parece tempo perdido, energia desperdi\u00e7ada, recursos mal empregados. E, no entanto, \u00e9 precisamente nessa aparente inutilidade que reside sua verdade. A festa devolve ao tempo sua densidade, \u00e0 comunidade sua forma e ao homem a experi\u00eancia de que a vida n\u00e3o se reduz a produzir nem a sobreviver.<\/p>\n<p>Outras vezes a festa acontece quando a noite cai. O calor cede e a escurid\u00e3o nos re\u00fane. Algumas luzes m\u00ednimas \u2014uma l\u00e2mpada, algumas velas\u2014 bastam para criar um mundo. H\u00e1 vinho e cerveja compartilhados, vozes que se misturam, m\u00fasica que aparece e se apaga, alternada com sil\u00eancios que n\u00e3o incomodam. Algu\u00e9m ri com estr\u00e9pito; outro escuta sem pressa. A noite n\u00e3o \u00e9 aproveitada: \u00e9 vivida. O tempo j\u00e1 n\u00e3o corre. N\u00e3o h\u00e1 finalidade, s\u00f3 gratuidade. A festa noturna se basta em seu presente.Nessas cenas convergem intui\u00e7\u00f5es que G. K. Chesterton e Roger Scruton souberam formular em registros distintos. Chesterton teria reconhecido nessa mesa ao ar livre e nessa noite compartilhada a alegria do ordin\u00e1rio: a maravilha que n\u00e3o precisa de explica\u00e7\u00e3o. Scruton teria visto a suspens\u00e3o do uso, a demora e a beleza que s\u00f3 existe enquanto n\u00e3o \u00e9 consumida. Ambos coincidem no essencial: quando tudo deve servir para algo mais, nada pode ser verdadeiramente celebrado.<\/p>\n<h2>IV. Ep\u00edlogo: a resist\u00eancia do in\u00fatil<\/h2>\n<p>Defender o descanso, o \u00f3cio e a festa n\u00e3o \u00e9 uma forma de evas\u00e3o nem uma nostalgia rom\u00e2ntica. \u00c9, como compreendeu com lucidez Josef Pieper, uma forma silenciosa mas decisiva de resist\u00eancia cultural. Ali onde uma civiliza\u00e7\u00e3o exige resultados, otimiza\u00e7\u00e3o e rendimento mesmo do tempo livre, deter-se, demorar-se e celebrar se convertem em gestos contraculturais, n\u00e3o porque se oponham frontalmente ao mundo, mas porque se negam a aceitar sua redu\u00e7\u00e3o ao produtivo.<\/p>\n<p>Pieper viu com clareza que a crise moderna n\u00e3o consiste simplesmente no excesso de trabalho, mas na perda daquilo que o transcende. Quando o \u00f3cio desaparece, o trabalho deixa de ser meio e se torna fim; quando todo o tempo se ordena \u00e0 produ\u00e7\u00e3o, a vida se empobrece mesmo ali onde parece prosperar. Defender o in\u00fatil \u2014o descanso que n\u00e3o serve, o \u00f3cio que n\u00e3o rende, a festa que n\u00e3o produz\u2014 \u00e9, nesse sentido, defender o limite sem o qual o homem j\u00e1 n\u00e3o pode habitar humanamente o mundo.<\/p>\n<p>Essa resist\u00eancia n\u00e3o consiste em negar a realidade, mas em afirm\u00e1-la de outro modo. N\u00e3o foge do mundo: recusa-se a trat\u00e1-lo unicamente como material dispon\u00edvel. Diante de uma cultura que transforma o tempo e o homem em recursos, o descanso interrompe a l\u00f3gica do uso, o \u00f3cio restitui uma rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o instrumental com o real e a festa celebra o ser como digno de amor, mesmo quando n\u00e3o haja raz\u00f5es funcionais para faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Num mundo exausto, aprender a descansar, a perder tempo e a celebrar sem motivo funcional n\u00e3o \u00e9 um luxo reservado a \u00e9pocas de abund\u00e2ncia: \u00e9 uma necessidade espiritual. Como lembrou Pieper, s\u00f3 ali onde o homem \u00e9 capaz de deter-se e afirmar gratuitamente o mundo pode conservar-se algo essencial: a possibilidade mesma da verdade, da alegria e do sentido.<\/p>\n<p>Defender o in\u00fatil hoje \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, defender aquilo que faz com que a vida valha a pena ser vivida.<\/p>\n<p><strong>\u00a92026 Revista Suroeste. Publicado com permiss\u00e3o. Original em espanhol:\u00a0<a href=\"https:\/\/revistasuroeste.cl\/2026\/01\/15\/verano-vacaciones-y-la-utilidad-de-lo-inutil\/\">Verano, vacaciones y la utilidad de lo in\u00fatil<\/a><\/strong><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I. 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