{"id":126422,"date":"2026-01-17T19:12:58","date_gmt":"2026-01-17T23:12:58","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=126422"},"modified":"2026-01-17T19:12:58","modified_gmt":"2026-01-17T23:12:58","slug":"quem-sao-os-brasileiros-invisiveis-que-podem-decidir-a-eleicao-de-2026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=126422","title":{"rendered":"Quem s\u00e3o os brasileiros \u201cinvis\u00edveis\u201d que podem decidir a elei\u00e7\u00e3o de 2026"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>As \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es presidenciais foram as mais equilibradas desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o. Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (PT) alcan\u00e7ou 50,9% dos votos v\u00e1lidos, pouco mais de 2 milh\u00f5es a mais do que os eleitores que optaram por Jair Bolsonaro (PL). <\/p>\n<p>Quatro anos depois, o pa\u00eds vai voltar \u00e0s urnas ainda sob a marca da forte polariza\u00e7\u00e3o. Mas existe uma ampla parcela da popula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o compartilha de todos os ideais de nenhum dos dois segmentos dominantes, os progressistas e os conservadores.<\/p>\n<p>Um estudo recente mapeou estes cidad\u00e3os e os dividiu em dois grupos, os desengajados e os cautelosos. Cada um representa 27% do total de eleitores. Apesar de representar expressivos 54% do total, formam uma maioria silenciosa que compartilha a desconfian\u00e7a com o sistema pol\u00edtico, mas evita o confronto moral. S\u00e3o pessoas pragm\u00e1ticas, avessas a disputas ideol\u00f3gicas e interessadas em temas concretos, como trabalho, seguran\u00e7a e servi\u00e7os p\u00fablicos. Esse p\u00fablico \u00e9 sub-representado no debate pol\u00edtico e n\u00e3o tem prefer\u00eancia partid\u00e1ria fixa. Por isso mesmo, deve ser decisivo para o resultado do pleito que se aproxima.<\/p>\n<p>Com o t\u00edtulo de \u201cO Brasil Invis\u00edvel\u201d, a <a href=\"https:\/\/moreincommon.org.br\/o-brasil-invisivel\/\">pesquisa<\/a> foi produzida pela organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos More in Common, que tem como objetivo compreender as for\u00e7as que afastam grupos sociais e identificar onde existe terreno comum para coes\u00e3o social. A entidade entrevistou presencialmente mais de 10 mil pessoas, que responderam a 168 perguntas.<\/p>\n<h2>Segmentos distintos<\/h2>\n<p>O levantamento identificou seis diferentes perfis entre os eleitores. Al\u00e9m dos desengajados e os cautelosos, h\u00e1 os conservadores, que apresentam fortes tra\u00e7os de religiosidade e valorizam a fam\u00edlia, a ordem e a estabilidade. Eles s\u00e3o menos mobilizados politicamente que os patriotas indignados, que participam ativamente de manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Por outro lado, s\u00e3o mais numerosos: representam 21% do total, contra 6% da parcela mais ativa em termos de mobiliza\u00e7\u00e3o. Em comum, ambos os grupos veem o Legislativo, o Judici\u00e1rio e a imprensa como parciais e hostis \u00e0 sua vis\u00e3o de mundo. Por isso, buscam fontes de informa\u00e7\u00e3o alternativas no WhatsApp e no YouTube.<\/p>\n<p>No outro espectro pol\u00edtico, os progressistas militantes s\u00e3o 5% da popula\u00e7\u00e3o e a esquerda tradicional \u00e9 composta por 14%. Ambos os grupos somam, portanto, 19% do eleitorado (contra 27% dos que tendem \u00e0 direita). Os militantes s\u00e3o, em v\u00e1rios aspectos, os mais deslocados da m\u00e9dia da popula\u00e7\u00e3o brasileira: apresentam maior porcentagem de pessoas com ensino superior (53%), maior renda familiar (37% t\u00eam ganhos iguais ou maiores que R$\u00a010 mil), maior predomin\u00e2ncia de brancos (57%) e mais sem religi\u00e3o (41%).<\/p>\n<p>J\u00e1 os esquerdistas tradicionais se mostram orientados por valores comunit\u00e1rios e religiosos, defensores da justi\u00e7a social por meio do fortalecimento do Estado e da prote\u00e7\u00e3o dos mais vulner\u00e1veis, com menos identifica\u00e7\u00e3o com pautas identit\u00e1rias e ades\u00e3o ao confronto pol\u00edtico. Os militantes, ali\u00e1s, ficam isolados dos outros segmentos, inclusive da esquerda tradicional, em v\u00e1rios temas ligados aos direitos humanos. Por exemplo: apenas cerca de 30% dos esquerdistas radicais concordam com a afirma\u00e7\u00e3o de que menores de idade que cometem crimes devem ir para a cadeia. Em todos os outros segmentos, ao menos 70% dos respondentes concordam com a frase, e a m\u00e9dia nacional \u00e9 de 85%.<\/p>\n<p>Quanto aos desengajados, eles se mostram afastados da pol\u00edtica da forma como \u00e9 praticada atualmente. Em 2022, 30% deles votaram em branco ou nulo, ou n\u00e3o compareceram \u00e0s se\u00e7\u00f5es eleitorais. S\u00e3o o segmento menos escolarizado (apenas 6% com curso superior), o mais pobre (65% t\u00eam renda familiar menor do que R$ 5 mil) e o que tem maior percentual de pretos (13%).\u00a0Um d\u00e9cimo do segmento viveu inseguran\u00e7a alimentar recentemente.\u00a0<\/p>\n<p>S\u00e3o cat\u00f3licos em 47% dos casos e evang\u00e9licos em 27%, e 65% dizem n\u00e3o simpatizar com nenhum partido, o maior percentual em todos os grupos. Ainda assim, apesar de 46% n\u00e3o se definirem nem como petistas, nem como bolsonaristas, 72% se identificam como conservadores.\u00a0Se dizem preocupados com seguran\u00e7a econ\u00f4mica, servi\u00e7os p\u00fablicos de sa\u00fade com qualidade e a\u00e7\u00f5es efetivas de combate \u00e0 pobreza.\u00a0<\/p>\n<p>Os desengajados tamb\u00e9m se caracterizam pela baixa escolariza\u00e7\u00e3o e pela pobreza. Est\u00e3o no segmento mais nordestino (31%) e rural (17%), al\u00e9m de o mais cat\u00f3lico (49%). O n\u00edvel de engajamento pol\u00edtico \u00e9 intermedi\u00e1rio: 26% consideram importante participar de manifesta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. \u00c9 o segmento que tem maior desconfian\u00e7a das elites, sobretudo das intelectuais, em geral relacionadas com a esquerda militante.<\/p>\n<p>\u201cEste eleitor n\u00e3o \u00e9 apenas decisivo para a presid\u00eancia, mas atua como o fiel da balan\u00e7a nas elei\u00e7\u00f5es estaduais e legislativas. Ao contr\u00e1rio dos polos, que votam por convic\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica ou rejei\u00e7\u00e3o visceral, o \u2018Brasil invis\u00edvel\u2019 vota por demandas concretas e estabilidade\u201d, avalia o cientista pol\u00edtico M\u00e1rcio Coimbra, CEO da Casa Pol\u00edtica e presidente do Instituto Monitor da Democracia.<\/p>\n<p>Coimbra afirma que, nas disputas pelos governos estaduais, esse tipo de eleitor tende a favorecer candidatos mais focados em boas gest\u00f5es do que nas guerras ideol\u00f3gicas.  \u201cNo \u00e2mbito legislativo, a influ\u00eancia desse grupo se traduz em um apoio a candidaturas que prometem ordem e prote\u00e7\u00e3o social, muitas vezes fugindo dos extremos estridentes que dominam o debate p\u00fablico mas entregam pouca solu\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica, consolidando um Congresso que atua como um corretor de interesses pragm\u00e1ticos mais do que como um espelho das paix\u00f5es ideol\u00f3gicas do pa\u00eds\u201d, ele acrescenta.<\/p>\n<h2>Desgaste do eleitorado<\/h2>\n<p>O levantamento aponta: \u201cO debate pol\u00edtico brasileiro deslocou-se, na \u00faltima d\u00e9cada, do eixo econ\u00f4mico para o moral \u2013 fen\u00f4meno conhecido como guerras culturais. Nessas disputas, temas como fam\u00edlia, religi\u00e3o, sexualidade, ra\u00e7a e educa\u00e7\u00e3o substitu\u00edram a discuss\u00e3o sobre pol\u00edticas distributivas e tornaram-se marcadores identit\u00e1rios\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>O texto afirma, no entanto, que a maioria da popula\u00e7\u00e3o expressa posi\u00e7\u00f5es intermedi\u00e1rias e combina elementos progressistas e conservadores. \u201cOs dados mostram tamb\u00e9m uma ampla concord\u00e2ncia sobre princ\u00edpios de igualdade racial, de g\u00eanero e orienta\u00e7\u00e3o sexual, mas forte divis\u00e3o quando essas pautas se associam a movimentos sociais espec\u00edficos. Essa dissocia\u00e7\u00e3o entre valores e representa\u00e7\u00f5es \u2013 entre pautas e identidades \u2013 \u00e9 o n\u00facleo divisivo das guerras culturais\u201d.<\/p>\n<p>Para M\u00e1rcio Coimbra, o desgaste da ret\u00f3rica bin\u00e1ria atingiu um ponto de satura\u00e7\u00e3o que abre brechas para novas din\u00e2micas. \u201cA an\u00e1lise das perspectivas para as elei\u00e7\u00f5es de 2026 exige, antes de tudo, o reconhecimento de que o equil\u00edbrio tect\u00f4nico visto em 2022 n\u00e3o se repetir\u00e1 de forma id\u00eantica. Enquanto as \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es foram decididas por uma margem estreit\u00edssima em um ambiente de \u2018n\u00f3s contra eles\u2019 levado ao paroxismo, o pleito de 2026 se desenha sob a sombra de uma fadiga democr\u00e1tica\u201d.<\/p>\n<p>Em outras palavras, o eleitorado que antes se mobilizava pelo medo do advers\u00e1rio agora demonstra sinais de exaust\u00e3o. \u201cNesse cen\u00e1rio, o que se espera n\u00e3o \u00e9 o fim da polariza\u00e7\u00e3o, mas a sua fragmenta\u00e7\u00e3o e uma transi\u00e7\u00e3o da polariza\u00e7\u00e3o afetiva \u2013 movida pela rejei\u00e7\u00e3o visceral ao \u2018outro\u2019 \u2013 para uma polariza\u00e7\u00e3o de desempenho, em que a ret\u00f3rica ideol\u00f3gica j\u00e1 n\u00e3o basta para mascarar lacunas de gest\u00e3o ou a aus\u00eancia de um projeto de futuro que v\u00e1 al\u00e9m da mera sobreviv\u00eancia pol\u00edtica\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>E assim, argumenta o analista, \u201ca hegemonia dos polos ser\u00e1 testada n\u00e3o pela for\u00e7a de suas milit\u00e2ncias, mas pela capacidade de dialogar com as ansiedades de uma classe m\u00e9dia e de estratos populares que n\u00e3o se veem refletidos na guerra cultural e que buscam, fundamentalmente, uma sa\u00edda para a paralisia decis\u00f3ria que o conflito constante imp\u00f5e ao pa\u00eds\u201d. Em resumo, \u201ca polariza\u00e7\u00e3o ainda mobiliza as bases, mas \u00e9 o di\u00e1logo com o \u2018Brasil invis\u00edvel\u2019 \u2013 focado em efici\u00eancia administrativa e seguran\u00e7a jur\u00eddica \u2013 que garante a vit\u00f3ria majorit\u00e1ria e a sustentabilidade do poder no longo prazo\u201d.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es presidenciais foram as mais equilibradas desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o. 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