{"id":121826,"date":"2026-01-16T17:17:47","date_gmt":"2026-01-16T21:17:47","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=121826"},"modified":"2026-01-16T17:17:47","modified_gmt":"2026-01-16T21:17:47","slug":"afinal-o-que-e-a-extrema-direita-e-por-que-questionar-o-sistema-virou-extremismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=121826","title":{"rendered":"Afinal, o que \u00e9 a extrema direita\u00a0\u2014\u00a0e por que questionar\u00a0o sistema virou \u201cextremismo\u201d?"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>A palavra \u201cdireita\u201d anda meio sumida no debate p\u00fablico dominante. No lugar dela, sobrou praticamente uma \u00fanica express\u00e3o: \u201cextrema direita\u201d.<\/p>\n<p>Jornalistas, acad\u00eamicos, pol\u00edticos e outros militantes esquerdistas usam o termo como um balaio conceitual onde cabe todo mundo. Dos defensores do livre mercado aos conservadores que valorizam a fam\u00edlia, passando pelos parlamentares barulhentos das redes sociais, juristas cr\u00edticos do STF e at\u00e9 mesmo os cidad\u00e3os comuns indignados com a corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, por\u00e9m, extrema direita n\u00e3o \u00e9 isso: trata-se da ala, dentro da direita, que pretende desfazer os pilares da democracia.<\/p>\n<p>H\u00e1 80 anos, o escritor brit\u00e2nico George Orwell j\u00e1 levantava essa bola. Mas com rela\u00e7\u00e3o ao uso excessivo (e, principalmente, sem rigor) do r\u00f3tulo de \u201cfascista\u201d \u2014 que, por coincid\u00eancia ou n\u00e3o, parte da esquerda contempor\u00e2nea tamb\u00e9m usa para definir qualquer direitista.<\/p>\n<p>\u201cA palavra \u2018fascismo\u2019 n\u00e3o tem mais significado, a n\u00e3o ser para designar algo indesej\u00e1vel\u201d, afirmou, num ensaio de 1946, o autor dos cl\u00e1ssicos \u201c1984\u201d e \u201cA Revolu\u00e7\u00e3o dos Bichos\u201d (ambos dispon\u00edveis para <a href=\"https:\/\/especiais.gazetadopovo.com.br\/ebooks\/\">download gratuito aos assinantes da Gazeta do Povo<\/a>).<\/p>\n<p>Nos dias de hoje, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que a express\u00e3o \u201cextrema direita\u201d est\u00e1 esvaziada. Ao ponto de um segmento da imprensa europeia, por exemplo, agora adotar o termo \u201cultradireita\u201d para distinguir grupos considerados mais radicais pelos progressistas.<\/p>\n<h2>Extremismo e radicalismo<\/h2>\n<p>Mas o que a literatura internacional explica sobre o tema? O cientista pol\u00edtico holand\u00eas Cas Mudde, talvez o autor mais influente da \u00e1rea no momento, tamb\u00e9m fala em \u201cultradireita\u201d \u2014 por\u00e9m a divide em dois grupos: \u201cextrema direita\u201d e \u201cdireita radical\u201d.<\/p>\n<p>Para Mudde, o que separa esses campos n\u00e3o \u00e9 a agressividade do discurso ou a rigidez das propostas, como sup\u00f5e o senso comum. A diferen\u00e7a, segundo o autor de \u201cA Extrema Direita Hoje\u201d (2019) e \u201cPopulismo: Uma Brev\u00edssima Introdu\u00e7\u00e3o\u201d (2017), est\u00e1 na postura diante da democracia.<\/p>\n<p>A extrema-direita, na vis\u00e3o do holand\u00eas, rejeita a democracia em si \u2014 n\u00e3o aceita elei\u00e7\u00f5es, a altern\u00e2ncia pol\u00edtica ou limites no exerc\u00edcio do poder.<\/p>\n<p>A direita radical, por sua vez, participa de pleitos e respeita o resultado das urnas. No entanto, questiona direitos das minorias, critica a separa\u00e7\u00e3o entre os poderes e v\u00ea o pluralismo pol\u00edtico com desconfian\u00e7a.<\/p>\n<h2>Rompimento democr\u00e1tico<\/h2>\n<p>Uma distin\u00e7\u00e3o parecida \u00e9 proposta pelo cientista pol\u00edtico tcheco Lubom\u00edr Kope\u010dek, especialista em partidos da Europa Central e Oriental. Professor da Universidade Masaryk, na cidade de Brno, ele afirma que o grande erro \u00e9 confundir extremismo com radicalismo.<\/p>\n<p>Na an\u00e1lise de Kope\u010dek, movimentos radicais podem, sim, defender mudan\u00e7as profundas, usar uma ret\u00f3rica dura e propor agendas que limitem certas liberdades. Isso n\u00e3o significa, contudo, um rompimento com os princ\u00edpios b\u00e1sicos da democracia.<\/p>\n<p>O extremismo, por outro lado, surge quando h\u00e1 uma recusa clara dessas regras \u2014 como negar a legitimidade de um advers\u00e1rio ou burlar o processo democr\u00e1tico caso se percam as elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Kope\u010dek, cuja obra permanece in\u00e9dita no mercado editorial brasileiro, tamb\u00e9m oferece uma esp\u00e9cie de \u201cbingo\u201d conceitual para identificar l\u00edderes, partidos e grupos radicais. Leva o pr\u00eamio quem fechar quatro casas da cartela: forte apelo nacionalista, rejei\u00e7\u00e3o a imigrantes, \u00eanfase em seguran\u00e7a p\u00fablica (com puni\u00e7\u00f5es duras para criminosos) e defesa de programas sociais apenas para cidad\u00e3os do pr\u00f3prio pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u00c9 a partir dessa l\u00f3gica que nomes como Marine Le Pen (Fran\u00e7a), Viktor Orb\u00e1n (Hungria), Giorgia Meloni (It\u00e1lia), Geert Wilders (Holanda), Donald Trump (EUA), Javier Milei (Argentina), Nayib Bukele (El Salvador) e Jair Bolsonaro s\u00e3o apontados como os principais representantes desse campo no cen\u00e1rio pol\u00edtico global.<\/p>\n<h2>Diagn\u00f3stico apocal\u00edptico<\/h2>\n<p>No Brasil, quem estuda a extrema direita costuma estar \u00e0 esquerda \u2014 o que n\u00e3o chega a ser uma surpresa.<\/p>\n<p>Entre os nomes mais citados est\u00e3o Odilon Caldeira Neto (Universidade Federal de Juiz de Fora), Isabela Kalil (Funda\u00e7\u00e3o Escola de Sociologia e Pol\u00edtica de S\u00e3o Paulo), David Magalh\u00e3es (PUC-SP) e Guilherme Casar\u00f5es (FGV), muitos deles ligados ao Observat\u00f3rio da Extrema Direita (OED).<\/p>\n<p>Suas pesquisas se concentram em narrativas, s\u00edmbolos, redes sociais e processos de radicaliza\u00e7\u00e3o. E quase sempre partem do princ\u00edpio de que a direita atual (especialmente a conservadora e \u201cconectada\u201d) representa uma amea\u00e7a s\u00e9ria \u00e0 democracia.<\/p>\n<p>Mas nenhum dos acad\u00eamicos brasileiros \u00e9 t\u00e3o obcecado pelo tema quanto o historiador e cr\u00edtico liter\u00e1rio Jo\u00e3o Cezar de Castro Rocha \u2014 professor da UERJ e autor de livros como \u201cBolsonarismo: Da Guerra Cultural ao Terrorismo Dom\u00e9stico\u201d (2023) e \u201cGuerra Cultural e Ret\u00f3rica do \u00d3dio: Cr\u00f4nicas de um Brasil P\u00f3s-Pol\u00edtico\u201d (2021).<\/p>\n<p>Alarmista e hiperb\u00f3lico, Castro Rocha se tornou o intelectual favorito da imprensa quando o assunto \u00e9 radicalismo pol\u00edtico (no campo conservador, claro). Seu diagn\u00f3stico \u00e9 sempre apocal\u00edptico: para ele, a extrema direita n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um movimento passageiro, mas um monstro destruidor da democracia, alimentado por mentiras e pelo caos.<\/p>\n<p>S\u00e3o dele frases como \u201cN\u00f3s enfrentamos hoje a maior amea\u00e7a civilizacional desde o avan\u00e7o do nazifascismo\u201d, \u201cA extrema direita s\u00f3 torna o seu triunfo permanente se o judici\u00e1rio for sujeitado\u201d e \u201cConhecimento cr\u00edtico \u00e9 a criptonita da extrema direita\u201d, entre outras ideias que enquadram a cr\u00edtica ao sistema como sintoma de autoritarismo.<\/p>\n<h2>Narrativa pol\u00edtica<\/h2>\n<p>Procurado pela reportagem da <strong>Gazeta do Povo<\/strong>, o cientista pol\u00edtico Fernando Sch\u00fcler, professor do Insper, apresenta uma perspectiva bem diferente. Ele afirma que termos como \u201cextrema direita\u201d e \u201cextrema esquerda\u201d no Brasil atual \u201ct\u00eam um significado basicamente associado \u00e0 narrativa pol\u00edtica, sem um valor acad\u00eamico t\u00e3o relevante\u201d.<\/p>\n<p>Para Sch\u00fcler, o processo de radicaliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica brasileira est\u00e1 pautado pelas guerras culturais, ou seja, por temas comportamentais, \u00e9ticos e religiosos.<\/p>\n<p>\u201cDiferentemente da pol\u00edtica tradicional, cujo horizonte \u00e9 a negocia\u00e7\u00e3o sobre assuntos de economia ou previd\u00eancia, os temas culturais s\u00e3o divisivos e pouco pass\u00edveis de consenso\u201d, explica.<\/p>\n<p>O professor ressalta que o r\u00f3tulo de \u201cextremo\u201d \u00e9 usado por quem det\u00e9m a hegemonia de opini\u00e3o (na academia, na m\u00eddia profissional e no mundo da cultura). E chama a aten\u00e7\u00e3o para uma invers\u00e3o no debate sobre liberdade de express\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um ponto curioso. Antes caro \u00e0 esquerda, o tema da liberdade de express\u00e3o passou a ser associado \u00e0 direita. Hoje, parte da esquerda tornou-se intolerante, defendendo a cassa\u00e7\u00e3o e a pris\u00e3o de opositores, abandonando o devido processo legal em fun\u00e7\u00e3o de uma vis\u00e3o de pol\u00edtica como guerra\u201d.<\/p>\n<h2>Sem exemplos locais<\/h2>\n<p>O cientista pol\u00edtico Mario Sergio Lepre, professor da PUCPR, refor\u00e7a que \u00e9 preciso separar o conservadorismo da extrema-direita.<\/p>\n<p>\u201cImagine uma casa antiga de fam\u00edlia. O conservador sabe que alguns pilares s\u00e3o essenciais. A casa hoje est\u00e1 desajeitada e precisa de reforma. A direita conservadora evolui por reformas, n\u00e3o dinamitando a estrutura\u201d, diz, em entrevista \u00e0 <strong>Gazeta do Povo<\/strong>.<\/p>\n<p>J\u00e1 a extrema direita, segundo ele, caracteriza-se principalmente por um nacionalismo radical, que defende uma identidade pura e rejeita o pluralismo democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Ao aplicar esses crit\u00e9rios ao Brasil, Lepre \u00e9 categ\u00f3rico: \u201cAqui eu n\u00e3o visualizo uma extrema direita. N\u00e3o visualizo grupos que defendam uma segmenta\u00e7\u00e3o, um nacionalismo \u00e9tnico. Nada parecido com uma extrema-direita, analiticamente falando\u201d<\/p>\n<p>Para o professor, setores progressistas da imprensa e da academia erram ao chamar de \u201cextrema direita\u201d qualquer cr\u00edtica mais dura ao sistema. Afinal, contestar regras ou propor mudan\u00e7as constitucionais faz parte do jogo democr\u00e1tico \u2014 desde que se respeite a legitimidade do campo rival e as institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cMas a esquerda n\u00e3o gosta muito de legitimar o advers\u00e1rio. Esse \u00e9 o grande ponto\u201d, afirma.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A palavra \u201cdireita\u201d anda meio sumida no debate p\u00fablico dominante. No lugar dela, sobrou praticamente uma \u00fanica express\u00e3o: \u201cextrema direita\u201d.&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":121827,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-121826","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/121826","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=121826"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/121826\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/121827"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=121826"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=121826"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=121826"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}