{"id":118738,"date":"2026-01-15T20:18:48","date_gmt":"2026-01-16T00:18:48","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=118738"},"modified":"2026-01-15T20:18:48","modified_gmt":"2026-01-16T00:18:48","slug":"processos-estruturais-stf-oficializa-conceito-para-atropelar-outros-poderes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=118738","title":{"rendered":"\u201cProcessos estruturais\u201d: STF oficializa conceito para atropelar outros poderes"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>O Supremo Tribunal Federal (STF) oficializou em seus canais de comunica\u00e7\u00e3o uma doutrina que, na pr\u00e1tica, institucionaliza a interfer\u00eancia da Corte na formula\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas, fun\u00e7\u00f5es constitucionalmente atribu\u00eddas aos poderes Executivo e Legislativo.<\/p>\n<p>Em publica\u00e7\u00e3o da semana passada na p\u00e1gina oficial do tribunal, sob o t\u00edtulo &#8220;Processos estruturais: saiba como o STF enfrenta viola\u00e7\u00f5es complexas e duradouras de direitos&#8221;, a Corte admite que suas decis\u00f5es n\u00e3o se limitam mais a julgar a legalidade de atos, mas buscam &#8220;reorganizar pol\u00edticas p\u00fablicas inteiras&#8221;.<\/p>\n<p>O texto divulgado pelo STF afirma que &#8220;n\u00e3o basta, por exemplo, declarar a inconstitucionalidade de uma conduta estatal&#8221;: a Corte deve determinar a elabora\u00e7\u00e3o de um plano com condi\u00e7\u00f5es estabelecidas pelos pr\u00f3prios ministros e, depois, assumir um papel de monitoramento permanente da aplica\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas.<\/p>\n<p>&#8220;Diferentemente dos casos tradicionais, em que uma decis\u00e3o judicial encerra o conflito, esses processos t\u00eam uma fase de acompanhamento, di\u00e1logo institucional e cumprimento das medidas determinadas e dos planos para supera\u00e7\u00e3o das falhas&#8221;, diz o texto.<\/p>\n<p>O STF se justifica afirmando que &#8220;o monitoramento n\u00e3o representa a cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas pelo Judici\u00e1rio, mas o controle de constitucionalidade de pol\u00edticas j\u00e1 existentes ou que deveriam existir e n\u00e3o funcionam adequadamente&#8221;.<\/p>\n<p>Mas, para juristas ouvidos pela <strong>Gazeta do Povo<\/strong>, o conceito de &#8220;processo estrutural&#8221; serve como verniz t\u00e9cnico para legitimar a invas\u00e3o de compet\u00eancias e a politiza\u00e7\u00e3o da Justi\u00e7a. Em vez de resolver conflitos aplicando a lei ao caso concreto, o juiz passa a vigiar a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica de forma cont\u00ednua depois de definir com seus pr\u00f3prios crit\u00e9rios como um problema deve ser resolvido.<\/p>\n<p>Para ilustrar a aplica\u00e7\u00e3o dessa doutrina, a pr\u00f3pria Corte elencou alguns casos recentes. O laborat\u00f3rio inicial dessa tese foi a ADPF 347, julgada liminarmente em 2015 e revisitada no final de 2023. Na decis\u00e3o, o tribunal obrigou o governo federal a liberar verbas bloqueadas do Fundo Penitenci\u00e1rio e imp\u00f4s a regra das audi\u00eancias de cust\u00f3dia em 24 horas. Na canetada, os ministros passaram a decidir sobre administra\u00e7\u00e3o penitenci\u00e1ria, tarefa que a Constitui\u00e7\u00e3o confere ao Executivo.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica ganhou for\u00e7a nos anos seguintes. Na ADPF 708, julgada em julho de 2022, o STF assumiu as r\u00e9deas do or\u00e7amento ambiental ao proibir o Executivo de contingenciar recursos do Fundo Clima. J\u00e1 em agosto de 2023, com o julgamento da ADPF 976, o tribunal chegou ao n\u00edvel da zeladoria urbana: proibiu prefeituras e estados de fazer o recolhimento for\u00e7ado de barracas da popula\u00e7\u00e3o de rua.<\/p>\n<p>O exemplo mais recente dessa tend\u00eancia ocorreu em dezembro de 2025, no julgamento da ADPF 973. Ao definir a exist\u00eancia de &#8220;racismo estrutural&#8221; no pa\u00eds, a Corte determinou que o governo federal elabore, no prazo de um ano, um plano nacional interministerial abrangendo \u00e1reas como seguran\u00e7a p\u00fablica, sa\u00fade e seguran\u00e7a alimentar para resolver o problema<\/p>\n<p>Outro caso em voga recentemente foi o da ADPF 635, conhecida como &#8220;ADPF das Favelas&#8221;, que trata da letalidade das opera\u00e7\u00f5es policiais no Rio de Janeiro. <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vida-e-cidadania\/adpf-635-decisao-final-stf-vai-melhorar-ou-piorar-rio\/\">No julgamento, que teve v\u00e1rias etapas ao longo dos \u00faltimos anos, o STF imp\u00f4s ao estado uma s\u00e9rie de diretrizes para a\u00e7\u00f5es policiais<\/a>.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Conceito de &#8220;processos estruturais&#8221; usado pelo STF n\u00e3o existe na lei brasileira<\/h2>\n<p>Roger Stiefelmann Leal, professor de Direito Constitucional da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), diz que os &#8220;processos estruturais&#8221; s\u00e3o uma cria\u00e7\u00e3o jurisprudencial sem base na legisla\u00e7\u00e3o brasileira atual.<\/p>\n<p>&#8220;Os processos estruturais constituem cria\u00e7\u00e3o jurisprudencial inovadora, voltada a instrumentalizar a defesa de direitos fundamentais em contextos complexos. No \u00e2mbito do STF, esses processos s\u00e3o adotados para enfrentar casos de &#8216;estado de coisas inconstitucional&#8217;, conceito originado na jurisprud\u00eancia colombiana, que demandaria supostamente interven\u00e7\u00f5es abrangentes e coordenadas para superar viola\u00e7\u00f5es sistem\u00e1ticas de direitos&#8221;, explica o jurista.<\/p>\n<p>A ideia do &#8220;estado de coisas inconstitucional&#8221; foi usada, nos \u00faltimos anos, para justificar interven\u00e7\u00e3o direta do STF em diversas quest\u00f5es. Na pr\u00e1tica, ao empreg\u00e1-la, o Judici\u00e1rio se sente autorizado a &#8220;alterar a agenda pol\u00edtica de prioridades sociais&#8221;, segundo Leal.<\/p>\n<p>A falta de previs\u00e3o legal \u00e9 t\u00e3o evidente que motivou a cria\u00e7\u00e3o de uma comiss\u00e3o de juristas no Senado Federal para tentar elaborar um projeto de lei que discipline a mat\u00e9ria, em 2024. O texto ainda tramita no Congresso.<\/p>\n<p>Em casos como a ADPF das Favelas e o da ADPF 854, sobre as emendas parlamentares, a atua\u00e7\u00e3o do tribunal n\u00e3o se encerrou com a senten\u00e7a. O STF manteve-se na gest\u00e3o dos problemas, exigindo relat\u00f3rios, planos de a\u00e7\u00e3o e realizando novas audi\u00eancias.<\/p>\n<p>&#8220;Nessas situa\u00e7\u00f5es, a Corte tem assumido um papel expansivo e at\u00edpico, monitorando o cumprimento das decis\u00f5es mediante novas audi\u00eancias, exig\u00eancias de relat\u00f3rios e ordens de of\u00edcio, muitas vezes excedendo aos estritos limites originais do julgado&#8221;, avalia Leal.<\/p>\n<p>A Corte cria, com isso, uma esp\u00e9cie de governo paralelo dentro do processo judicial, em que o ministro relator passa a ter a palavra final sobre a execu\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas ou a libera\u00e7\u00e3o de verbas, fun\u00e7\u00f5es que deveriam caber aos eleitos pelo voto popular. Os processos, como explica Leal, &#8220;n\u00e3o se encerram com a decis\u00e3o final, conferindo ao STF um protagonismo in\u00e9dito na gest\u00e3o cont\u00ednua de quest\u00f5es correlatas ao seu objeto, sob o argumento de assegurar a efetividade das suas decis\u00f5es&#8221;.<\/p>\n<h2>Doutrina dos &#8220;processos estruturais&#8221; compromete a independ\u00eancia do STF<\/h2>\n<p>Para Pedro da Silva Moreira, professor de Direito Constitucional da Universidade Estadual de Maring\u00e1 (UEM), a transforma\u00e7\u00e3o do juiz em gestor p\u00fablico traz uma consequ\u00eancia inevit\u00e1vel: a perda da imparcialidade e da independ\u00eancia.<\/p>\n<p>Ele alerta que, ao entrar na arena da formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas, o magistrado se despe de sua fun\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e assume um car\u00e1ter pol\u00edtico. &#8220;O que precisamos entender \u00e9 o seguinte: se o Judici\u00e1rio ser\u00e1 encarregado de desenhar, monitorar e &#8216;efetivar&#8217; pol\u00edticas p\u00fablicas, ent\u00e3o o juiz n\u00e3o tem como ser independente&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Para o professor, essa confus\u00e3o de pap\u00e9is exp\u00f5e o Judici\u00e1rio ao mesmo tipo de desgaste e cobran\u00e7a que recai sobre o Executivo e o Legislativo, mas sem os mecanismos de controle democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>&#8220;Ele ser\u00e1 (e dever\u00e1 ser) objeto do escrut\u00ednio p\u00fablico, do mais sofisticado ao mais vulgar, do texto acad\u00eamico cr\u00edtico \u00e0 vaia e \u00e0 repulsa em protesto popular&#8221;, diz. &#8220;O mais impressionante na situa\u00e7\u00e3o atual do Judici\u00e1rio brasileiro tem rela\u00e7\u00e3o especialmente com a quest\u00e3o da independ\u00eancia: reivindicam independ\u00eancia para que os ju\u00edzes fa\u00e7am pol\u00edtica, enquanto negam a independ\u00eancia dos poderes pol\u00edticos para que fa\u00e7am precisamente pol\u00edtica.&#8221;<\/p>\n<h2>Doutrina dos &#8220;processos estruturais&#8221; pode neutralizar o debate pol\u00edtico leg\u00edtimo<\/h2>\n<p>Moreira destaca que a ado\u00e7\u00e3o dos &#8220;processos estruturais&#8221; parte da premissa de que quest\u00f5es controversas podem ser resolvidas por meio de t\u00e9cnica e racioc\u00ednio jur\u00eddico, ignorando o desacordo moral e pol\u00edtico que existe na sociedade. Temas como sistema prisional, seguran\u00e7a p\u00fablica, meio ambiente e desigualdade social s\u00e3o, por natureza, divisivos. N\u00e3o h\u00e1 consenso sobre a melhor forma de abord\u00e1-los.<\/p>\n<p>Com a nova doutrina, o STF pode impor uma solu\u00e7\u00e3o \u00fanica e blindada contra a discord\u00e2ncia pol\u00edtica. &#8220;Quando se fala em &#8216;processo estrutural&#8217;, o que se deseja \u00e9 neutralizar a dimens\u00e3o da pol\u00edtica, como se as quest\u00f5es submetidas aos tribunais pudessem ser tratadas de modo inteiramente t\u00e9cnico. N\u00e3o podem. A sua ess\u00eancia \u00e9 pol\u00edtica; por isso, a sua ess\u00eancia \u00e9 a controv\u00e9rsia, a disputa e o desacordo&#8221;, argumenta.<\/p>\n<p>Para o professor, ao tentar resolver assuntos controversos via canetada, o tribunal atrai para si toda a carga de conflito que deveria ficar com o Legislativo. &#8220;Se o Supremo Tribunal Federal (ou qualquer juiz) deseja formular pol\u00edticas p\u00fablicas, precisa ter consci\u00eancia de que est\u00e1 atuando em esfera ileg\u00edtima e de que est\u00e1 atraindo para o tribunal toda a polemicidade que faz com que os pol\u00edticos sejam alvo de press\u00e3o, vaia e destitui\u00e7\u00e3o pelo voto&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Moreira recorda que a invas\u00e3o de compet\u00eancia gera um problema grave para a democracia: quem toma a decis\u00e3o n\u00e3o pode ser punido por ela nas urnas. Em condi\u00e7\u00f5es normais, se um presidente ou legislador implementa uma pol\u00edtica p\u00fablica ruim, o eleitor tem a ferramenta do voto para remov\u00ea-lo. Com o Judici\u00e1rio assumindo a gest\u00e3o p\u00fablica, esse mecanismo de responsabiliza\u00e7\u00e3o desaparece.<\/p>\n<p>&#8220;O problema \u00e9 que o povo n\u00e3o pode fazer nada com o magistrado que entende que deve trabalhar na formula\u00e7\u00e3o e no monitoramento de pol\u00edticas p\u00fablicas, dizendo o que \u00e9 e o que n\u00e3o \u00e9 efetivo, adequado, proporcional&#8221;, explica Moreira. &#8220;Se o povo n\u00e3o pode fazer nada contra o \u00f3rg\u00e3o que trata de pol\u00edtica, isso significa que esse \u00f3rg\u00e3o \u00e9, em ess\u00eancia, politicamente irrespons\u00e1vel, no sentido de que n\u00e3o responde a ningu\u00e9m&#8221;, conclui o professor.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Supremo Tribunal Federal (STF) oficializou em seus canais de comunica\u00e7\u00e3o uma doutrina que, na pr\u00e1tica, institucionaliza a interfer\u00eancia da&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":118739,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-118738","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/118738","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=118738"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/118738\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/118739"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=118738"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=118738"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=118738"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}