{"id":115122,"date":"2026-01-14T12:01:28","date_gmt":"2026-01-14T16:01:28","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=115122"},"modified":"2026-01-14T12:01:28","modified_gmt":"2026-01-14T16:01:28","slug":"o-agente-secreto-quando-o-autor-confisca-a-obra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=115122","title":{"rendered":"\u201cO Agente Secreto\u201d: quando o autor confisca a obra"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/01\/14125612\/wagner-moura-agente-secreto.jpg.webp\" \/><span>Wagner Moura posa com o Globo de Ouro de Melhor Ator &#8221; Drama, por &#8220;O Agente Secreto&#8221;. (Foto: Octavio Guzm\u00e1n\/EFE)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>A premia\u00e7\u00e3o de <em>O Agente Secreto<\/em> poderia figurar como vit\u00f3ria do cinema brasileiro. O problema come\u00e7a quando diretor e ator principal decidem confiscar a recep\u00e7\u00e3o da obra.<\/p>\n<p>Nas entrevistas ap\u00f3s a cerim\u00f4nia, Kl\u00e9ber Mendon\u00e7a Filho e Wagner Moura definiram pertencimento ideol\u00f3gico, nomearam advers\u00e1rios e tra\u00e7aram suas fronteiras simb\u00f3licas. O diretor declarou que o Brasil sofreu \u201cguinada dr\u00e1stica \u00e0 direita\u201d, chamou Jair Bolsonaro de \u201cirrespons\u00e1vel de forma \u00e9pica\u201d e situou o cinema como \u201cexpress\u00e3o de lutos\u201d coletivos. Wagner Moura foi al\u00e9m: classificou o ex-presidente como \u201cfascista de extrema direita\u201d e definiu o filme como \u201cmanifesta\u00e7\u00e3o f\u00edsica dos ecos da ditadura\u201d.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Tudo isso pode ser verdade. Ambos t\u00eam todo direito de manifestar essas posi\u00e7\u00f5es. A quest\u00e3o aqui \u00e9 em outra: como essas declara\u00e7\u00f5es delimitam a representa\u00e7\u00e3o do filme. A partir daquele instante, <em>O Agente Secreto<\/em> deixou de representar o Brasil para representar a tribo ideol\u00f3gica de seus criadores.<\/p>\n<p>Cinema \u00e9 arte; arte articula sensibilidades, afetos, perspectivas. Mesmo quando trata de dramas pol\u00edticos universais, o discurso ideol\u00f3gico dos criadores fixa limites \u00e0 recep\u00e7\u00e3o. A obra ganha essa moldura pr\u00e9via que s\u00f3 agrada aos seus. O espectador j\u00e1 sabe de que lado deve ficar antes de assistir.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A partir das entrevistas de Mendon\u00e7a Filho e Moura, <em>\u201cO Agente Secreto\u201d<\/em> deixou de representar o Brasil para representar a tribo ideol\u00f3gica de seus criadores<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Ora, quem disser que detestou o filme enfrentar\u00e1 o constrangimento peculiar. Dizer que o filme \u00e9 ruim soar\u00e1 como posicionamento pol\u00edtico. A discord\u00e2ncia est\u00e9tica carrega suspeita de filia\u00e7\u00e3o. \u00c9 quase como afirmar: \u201cN\u00e3o gosto de <em>Guernica<\/em>\u201d, e precisar explicar, antes de tudo, que a discord\u00e2ncia est\u00e9tica nada tem a ver com simpatia pela barb\u00e1rie. Isso acontece porque a obra deixa de circular como objeto est\u00e9tico aberto e se converte em teste de lealdade.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">O texto de Eliane Cantanh\u00eade no <em>Estad\u00e3o<\/em> demonstra isso melhor do que qualquer outro. A colunista afirmou que o cinema nacional \u201cest\u00e1 lavando a nossa alma\u201d e projeta efeito eleitoral favor\u00e1vel a Lula. Comparou o momento ao uso da Copa de 1970 pela ditadura M\u00e9dici. Segundo ela, os filmes fortalecem o \u201cconfronto entre ditadura e democracia\u201d e entre os governos Bolsonaro e Lula.<\/p>\n<p>Independentemente da opini\u00e3o dela a respeito do que significa ditatura ou democracia, a analogia ignora diferen\u00e7a sociol\u00f3gica elementar. Futebol pertence a todas as camadas sociais porque mobiliza paix\u00e3o org\u00e2nica de quem realmente decide elei\u00e7\u00e3o. A Copa de 70 entrou nas casas, nos bares, nas f\u00e1bricas. O oper\u00e1rio que acordava \u00e0s 5 da manh\u00e3 vibrava com Pel\u00e9 tanto quanto o empres\u00e1rio paulista.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>J\u00e1 o cinema brasileiro contempor\u00e2neo sobrevive como entretenimento de elite, restrito a nichos de gente fechada em si que s\u00f3 consome os pr\u00f3prios dogmas. O filme circula em salas de arte, ganha resenhas em suplementos culturais, conquista pr\u00eamios internacionais. Quem frequenta essas salas j\u00e1 votou; quem l\u00ea essas resenhas j\u00e1 decidiu. O impacto no \u201chumor nacional\u201d existe apenas dentro da aristocracia tribal que celebra o filme como panfleto. Fora dela, ningu\u00e9m est\u00e1 nem a\u00ed.<\/p>\n<p>A obra funciona como capital pol\u00edtico; cr\u00edticos e espectadores calculam dividendos eleitorais antes de emitir ju\u00edzo. A pergunta \u201co que voc\u00ea achou do filme?\u201d chega contaminada. Exige posicionamento pr\u00e9vio.<\/p>\n<p>Primeiro, os autores declaram a chave de leitura correta. Segundo, analistas como Cantanh\u00eade incorporam essa chave como crit\u00e9rio de legitimidade e projetam seus dividendos pol\u00edticos. Quem rejeita a obra passa a ser visto como algu\u00e9m que rejeita os valores que ela supostamente encarna. Criticar o filme soa como apostasia.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><em>O Agente Secreto<\/em> pode ser \u00f3timo filme. Pode ter dire\u00e7\u00e3o impec\u00e1vel, fotografia refinada, roteiro inteligente. Tudo isso continua poss\u00edvel. Mas as entrevistas de Mendon\u00e7a Filho e Wagner Moura impuseram filtro pr\u00e9vio. Agora o espectador assiste ao filme j\u00e1 sabendo qual postura se espera dele.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Cada obra confinada ideologicamente reduz o espa\u00e7o comum da cultura. Transforma a sala de cinema em assembleia partid\u00e1ria<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o revela paradoxo curioso. Os autores que mais desejam controlar o sentido da obra s\u00e3o justamente quem mais a fragiliza. A tentativa de blindar o filme contra leituras indesejadas acaba confinando-o dentro de limites estreitos.<\/p>\n<p>Resta saber se diretor e ator consideram esse pre\u00e7o aceit\u00e1vel. Se preferem ter filme celebrado pela tribo ideol\u00f3gica a ter filme discutido pela cidade inteira. A resposta j\u00e1 foi dada nas entrevistas. Eles escolheram o marcador de pertencimento.<\/p>\n<p>O cinema brasileiro perde com isso. Perde porque cada obra confinada ideologicamente reduz o espa\u00e7o comum da cultura. Transforma a sala de cinema em assembleia partid\u00e1ria. Cobra ingresso e filia\u00e7\u00e3o simult\u00e2neos.<\/p>\n<p>Se o objetivo era fazer instrumento eleitoral \u2013 como interpreta Cantanh\u00eade \u2013, miss\u00e3o cumprida. S\u00f3 exige honestidade: assumir a fun\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica, abrir m\u00e3o da pretens\u00e3o art\u00edstica, aceitar que o filme valha enquanto durar o debate pol\u00edtico que o gerou. Depois, esquecimento.<\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Marcio Antonio Campos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/marcio-antonio-campos\/\">Marcio Antonio Campos<\/a><\/p>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Wagner Moura posa com o Globo de Ouro de Melhor Ator &#8221; Drama, por &#8220;O Agente Secreto&#8221;. 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