{"id":114945,"date":"2026-01-14T10:06:33","date_gmt":"2026-01-14T14:06:33","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=114945"},"modified":"2026-01-14T10:06:33","modified_gmt":"2026-01-14T14:06:33","slug":"o-que-mostra-e-o-que-omite-o-documentario-do-8-de-janeiro-do-stf","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=114945","title":{"rendered":"O que mostra (e o que omite) o document\u00e1rio do 8 de janeiro do STF"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>\u201cAten\u00e7\u00e3o! Este document\u00e1rio cont\u00e9m cenas de [&#8230;] atentados \u00e0 democracia\u201d. \u00c9 com essa frase, em fundo preto, que come\u00e7a o document\u00e1rio <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=TT5MS1cp8B8&amp;t=1s\">\u201c8 de janeiro: M\u00e3os da reconstru\u00e7\u00e3o\u201d<\/a>, lan\u00e7ado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no \u00faltimo dia 8. A produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o surpreende: segue a linha de outras iniciativas que buscam atribuir hero\u00edsmo \u00e0 Corte, ignorando circunst\u00e2ncias de manifestantes condenados a 17 anos de pris\u00e3o por se abrigarem ou orarem dentro dos pr\u00e9dios p\u00fablicos invadidos.<\/p>\n<p>Produzido pela TV Justi\u00e7a, o filme apresenta depoimentos de funcion\u00e1rios que estavam no pr\u00e9dio durante os atos, como vigilantes, bombeiros civis e profissionais da limpeza. A est\u00e9tica escolhida \u2013 com imagens da manifesta\u00e7\u00e3o projetadas sobre o rosto dos entrevistados \u2013 refor\u00e7a o tom cinematogr\u00e1fico que tenta transformar os atos de vandalismo em tentativa de golpe contra a democracia. O intuito da produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 informar, mas consolidar a imagem pol\u00edtica do STF como protagonista do \u201ccombate a golpistas\u201d. \u00a0<\/p>\n<p>\u201cEsse document\u00e1rio me parece mais uma a\u00e7\u00e3o institucional totalmente inadequada\u201d, avalia Alessandro Chiarottino, professor de Direito Constitucional e doutor em Direito pela USP. Ele acrescenta que n\u00e3o cabe ao STF fazer document\u00e1rios em defesa de si mesmo. \u201cA Corte n\u00e3o \u00e9 uma empresa que precisa fazer marketing para ganhar mercado dos concorrentes. A fun\u00e7\u00e3o do tribunal exige uma sobriedade e uma autoconten\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se coadunam com a propaganda\u201d, completa.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o integra uma s\u00e9rie de eventos organizados pelo STF para relembrar o 8 de janeiro.<\/p>\n<h2>Produ\u00e7\u00e3o foca em imagens que refor\u00e7am narrativa de golpe<\/h2>\n<p>\u201cA qualidade audiovisual \u00e9 p\u00e9ssima. Parece que foi editado por algu\u00e9m que nunca trabalhou com montagem. Document\u00e1rio, vale lembrar, \u00e9 g\u00eanero cinematogr\u00e1fico e, como tal, precisa ter forma. \u20188 de Janeiro: M\u00e3os da reconstru\u00e7\u00e3o\u2019 n\u00e3o \u00e9 um document\u00e1rio. \u00c9 ruim at\u00e9 como filme de propaganda\u201d, critica Ian Maldonado, cineasta e documentarista.<\/p>\n<p>O document\u00e1rio \u00e9 voltado a relatos de profissionais que estavam trabalhando naquele dia ou atuaram na limpeza e restaura\u00e7\u00e3o, descrevendo suas experi\u00eancias. H\u00e1 cenas impactantes, como a de v\u00e2ndalos utilizando gradis para quebrar portas de vidro. No entanto, outras imagens ficaram de fora, como a da ex-estudante de medicina da USP, Roberta J\u00e9rsyka, que comprovou, <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vida-e-cidadania\/marido-organiza-imagens-de-cameras-para-provar-que-esposa-nao-cometeu-crime-no-8-1\/\">com as imagens das c\u00e2meras de seguran\u00e7a<\/a>, ter apenas orado durante o trajeto que fez dentro das institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas.<\/p>\n<p>V\u00eddeos publicados na internet mostram tamb\u00e9m manifestantes felizes ao verem policiais dentro dos pr\u00e9dios e acatando as ordens com naturalidade, o que indica que havia grupos com posturas distintas: alguns destru\u00edam estruturas p\u00fablicas, outros n\u00e3o.<\/p>\n<p>Durante as primeiras etapas das investiga\u00e7\u00f5es, Fl\u00e1vio Dino, ent\u00e3o ministro da Justi\u00e7a e atualmente membro da Corte, informou que as imagens das c\u00e2meras de seguran\u00e7a haviam sido perdidas por &#8220;raz\u00f5es contratuais&#8221;. Das 185 c\u00e2meras instaladas, o ministro <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/republica\/dino-entrega-imagens-de-apenas-4-das-185-cameras-do-palacio-da-justica\/\">entregou registros de menos de dez<\/a>.<\/p>\n<h2>Fragilidade dos funcion\u00e1rios \u00e9 explorada<\/h2>\n<p>As falas enfatizam o medo da aproxima\u00e7\u00e3o dos manifestantes, que n\u00e3o poderiam ser contidos, e destacam a destrui\u00e7\u00e3o dos pr\u00e9dios p\u00fablicos. &#8220;Lembrando que o STF \u00e9 360 graus vulner\u00e1vel. N\u00e3o tem como voc\u00ea proteger isso aqui com 70 homens. Utilizamos de todos os recursos n\u00e3o letais e conseguiram romper. Restou pra n\u00f3s a marquise\u201d, afirma um agente policial judicial no filme.<\/p>\n<p>Mensagens trocadas entre um dos vigilantes e sua m\u00e3e, revelando a preocupa\u00e7\u00e3o materna, aproximam o espectador da sensa\u00e7\u00e3o de medo. \u201cA gente tenta acalmar as suas m\u00e3es, ent\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o vai falar que voc\u00ea est\u00e1 na linha de frente. Mas a gente estava\u201d, enfatiza um entrevistado.<\/p>\n<p>Segundo Maldonado, a escolha de entrevistados de cargos de baixo escal\u00e3o aproxima o p\u00fablico do acontecimento, enquanto a presen\u00e7a do agente policial judicial d\u00e1 tom de ordem e seguran\u00e7a. \u201cFica evidente que a produ\u00e7\u00e3o tenta sugerir que os manifestantes do dia 8 n\u00e3o apenas eram mais numerosos, mas atuavam como estrategistas militares. Enquanto os funcion\u00e1rios do STF aparecem como criaturas fr\u00e1geis e indefesas, que supostamente foram pegas de surpresa\u201d, avalia.<\/p>\n<h2>Discurso pol\u00edtico de Rosa Weber e \u201cabra\u00e7o coletivo\u201d finalizam produ\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Ap\u00f3s cenas de vandalismo, surgem imagens de reconstru\u00e7\u00e3o e a narrativa passa a refor\u00e7ar a ideia de pertencimento ao STF. Os entrevistados relacionam o pr\u00e9dio como uma \u201csegunda casa\u201d.<\/p>\n<p>\u201cPorque todo mundo encarou como se fosse a pr\u00f3pria casa. Quebraram a nossa casa, destru\u00edram a nossa casa. Vai ser dif\u00edcil l\u00e1, mas a gente vai conseguir\u201d, diz um funcion\u00e1rio. Em seguida, outro completa: \u201cTodos aqui tiveram que unir. [&#8230;] Ent\u00e3o, nesse exato momento, eu vi que n\u00f3s somos o Supremo. N\u00f3s representamos o Supremo\u201d.<\/p>\n<p>O encerramento traz o discurso em tom pol\u00edtico de Rosa Weber, na sess\u00e3o solene de abertura dos trabalhos do STF, classificando os atos como uma \u201cinvas\u00e3o criminosa\u201d realizada \u201cpor uma turba insana movida pelo \u00f3dio e pela irracionalidade\u201d. Imagens em c\u00e2mera lenta, trilha sonora \u00e9pica e funcion\u00e1rios formando uma corrente em volta do pr\u00e9dio d\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o um tom vitorioso.<\/p>\n<p>Maldonado explica que esses elementos deixam claro o car\u00e1ter pol\u00edtico da obra. \u201cA fala da Rosa Weber, que aparece como sentinela da democracia, e o \u2018abra\u00e7o coletivo\u2019 ao redor do pr\u00e9dio do STF sintetizam bem o car\u00e1ter pol\u00edtico e perform\u00e1tico que foi assumido pela pr\u00f3pria Corte. Tudo ali \u00e9 uma pantomima. \u00c9 a mesma afeta\u00e7\u00e3o hist\u00e9rica dos hippies que abra\u00e7am \u00e1rvores\u201d, conclui o cineasta.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cAten\u00e7\u00e3o! 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