{"id":112207,"date":"2026-01-13T13:05:06","date_gmt":"2026-01-13T17:05:06","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=112207"},"modified":"2026-01-13T13:05:06","modified_gmt":"2026-01-13T17:05:06","slug":"democracias-podem-cair-nas-urnas-ditaduras-nao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=112207","title":{"rendered":"Democracias podem cair nas urnas; ditaduras, n\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/01\/05104158\/G3aAlT9XMAE_r17.jpg.webp\" \/><span>Ap\u00f3s opera\u00e7\u00e3o dos EUA que prendeu Maduro, a Venezuela segue sob tutela americana, com Delcy Rodr\u00edguez \u00e0 frente do mesmo regime chavista, sem perspectiva real de retorno \u00e0 democracia (Foto: Miguel Guti\u00e9rrez\/EFE)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>H\u00e1 algo de profundamente tranquilizador na ideia de que o voto seja, por si s\u00f3, um ant\u00eddoto contra o autoritarismo. Trata-se de uma cren\u00e7a quase terap\u00eautica: se participamos do ritual eleitoral, ent\u00e3o estamos protegidos. Essa cren\u00e7a, no entanto, \u00e9 t\u00e3o reconfortante quanto falsa. O voto pode transformar democracias em ditaduras.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\">Durante os \u00faltimos anos, em especial depois da publica\u00e7\u00e3o de <em>Como as democracias morrem<\/em> de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, n\u00e3o nos cansamos de ouvir que as democracias n\u00e3o morrem apenas por golpes militares ou tanques nas ruas. Muitas vezes, elas se despedem educadamente, por meio de elei\u00e7\u00f5es corretas, fiscalizadas e at\u00e9 celebradas. O paradoxo n\u00e3o \u00e9 novo: o procedimento democr\u00e1tico pode ser usado para produzir governos antidemocr\u00e1ticos. A hist\u00f3ria do s\u00e9culo XX \u00e9 pr\u00f3diga em exemplos.<\/p>\n<blockquote>\n<p>A Venezuela n\u00e3o oferece apenas um retrato de um colapso institucional; oferece um aviso. N\u00e3o sobre o fim abrupto das democracias, mas sobre o modo como elas se desgastam<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/democracia\/\">democracia<\/a>, conv\u00e9m lembrar, n\u00e3o \u00e9 apenas um m\u00e9todo de escolha de governantes. \u00c9 um sistema de limites, garantias, direitos e deveres que antecedem e sobrevivem ao voto. Quando o sufr\u00e1gio passa a ser entendido como um cheque em branco \u2013 uma autoriza\u00e7\u00e3o moral para suprimir direitos, deslegitimar opositores ou relativizar a lei \u2013, ele deixa de ser instrumento da democracia e se torna seu coveiro.<\/p>\n<p>A <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/venezuela\/\">Venezuela<\/a> ilustra de forma quase did\u00e1tica como uma democracia pode ser esvaziada sem que as urnas desapare\u00e7am. Um governo eleito e sucessivamente confirmado foi desmontando, aos poucos, tudo aquilo que faria do voto um limite real ao poder. As elei\u00e7\u00f5es continuaram a ocorrer, mas j\u00e1 n\u00e3o produziam altern\u00e2ncia: o voto sobreviveu como rito, n\u00e3o como escolha. A desigualdade de condi\u00e7\u00f5es, a exclus\u00e3o de advers\u00e1rios e o controle do processo tornaram os resultados previs\u00edveis.<\/p>\n<p>O Parlamento tamb\u00e9m n\u00e3o precisou ser fechado. Bastou que perdesse protagonismo. Na Venezuela, o Congresso foi progressivamente neutralizado, ora por maiorias fabricadas, ora por decis\u00f5es que o tornavam irrelevante, ora pela simples transfer\u00eancia das decis\u00f5es reais para fora do debate legislativo. A fun\u00e7\u00e3o de deliberar foi substitu\u00edda pela de ratificar.\u00a0<\/p>\n<p>O Judici\u00e1rio tamb\u00e9m n\u00e3o precisou ser abolido. Bastou que se tornasse parte do jogo pol\u00edtico. As cortes foram ocupadas por meio de nomea\u00e7\u00f5es sucessivas. Suas decis\u00f5es passaram a operar menos como direito e mais como engrenagem do poder. A lei seguiu existindo, mas aplicada de modo imprevis\u00edvel, estrat\u00e9gico.\u00a0<\/p>\n<p>A <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/liberdade-de-expressao\/\">liberdade de express\u00e3o<\/a> tamb\u00e9m foi progressivamente sufocada. Emissoras foram domesticadas, concess\u00f5es n\u00e3o renovadas, jornalistas perseguidos, vozes cr\u00edticas empurradas para a marginalidade ou para o ex\u00edlio. Ainda assim, o dado mais revelador \u00e9 que o autoritarismo j\u00e1 estava funcional antes do sil\u00eancio imposto. Muito antes da censura aberta, falar havia se tornado in\u00fatil, arriscado ou exaustivo. A supress\u00e3o formal apenas consolidou um ambiente no qual a palavra j\u00e1 n\u00e3o produzia efeito pol\u00edtico relevante.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 sociedade civil, quando n\u00e3o foi apenas contida, foi cansada. O engajamento permanente deu lugar \u00e0 exaust\u00e3o cr\u00f4nica ou ao medo. A mobiliza\u00e7\u00e3o epis\u00f3dica passou a coexistir com a sensa\u00e7\u00e3o de que nada produz efeito duradouro. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio sequer destruir associa\u00e7\u00f5es, movimentos ou redes; bastou torn\u00e1-los previs\u00edveis, fragmentados e emocionalmente esgotados. Uma sociedade fatigada n\u00e3o precisa ser reprimida \u2013 ela se administra sozinha. Isto culminou no \u00eaxodo de milh\u00f5es de venezuelanos.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>A experi\u00eancia venezuelana n\u00e3o deve ser lida como exce\u00e7\u00e3o ex\u00f3tica ou como trag\u00e9dia distante. Ela descreve um m\u00e9todo. A Venezuela n\u00e3o oferece apenas um retrato de um colapso institucional; oferece um aviso. N\u00e3o sobre o fim abrupto das democracias, mas sobre o modo como elas se desgastam, quando seus pr\u00f3prios mecanismos deixam de ser tratados como limites.<\/p>\n<p>Mas se a democracia pode morrer atrav\u00e9s do voto, \u00e9 poss\u00edvel ressuscitar uma democracia nas urnas? Uma ditadura pode cair pelo voto?\u00a0<\/p>\n<p>Se observarmos os casos hist\u00f3ricos, uma ditadura dificilmente cai pelo voto. Afinal, o pr\u00f3prio regime controla  ou molda  as regras do jogo eleitoral: define quem pode concorrer, limita a liberdade de organiza\u00e7\u00e3o e express\u00e3o, intimida opositores e mant\u00e9m o monop\u00f3lio da for\u00e7a. Nessas condi\u00e7\u00f5es, elei\u00e7\u00f5es tendem a servir mais para legitimar o poder existente do que para amea\u00e7\u00e1-lo.\u00a0<\/p>\n<p>Quando o voto de fato produz mudan\u00e7a, isso normalmente ocorre porque j\u00e1 houve rachaduras pr\u00e9vias \u2013 crise econ\u00f4mica, perda de apoio das elites, divis\u00f5es nas For\u00e7as Armadas, press\u00e3o internacional ou mobiliza\u00e7\u00e3o social persistente \u2013 que reduzem o custo de o regime aceitar a derrota. Assim, o voto costuma ser o ato final de um processo pol\u00edtico mais amplo, e n\u00e3o o fator isolado que derruba uma ditadura.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa que as democracias estejam condenadas nem que o voto seja in\u00fatil. Significa apenas que ele \u00e9 insuficiente. Sem <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/vozes\/instituto-sivis\/virtudes-civicas-democracia\/\">cultura democr\u00e1tica<\/a>, sem liberdade de express\u00e3o efetiva, sem tribunais comprometidos com a ideia de limite, o voto se transforma em um gesto vazio, ou pior, em um instrumento de exclus\u00e3o legitimada.<\/p>\n<p>\u00c9 revelador que, diante desse cen\u00e1rio, gente s\u00e9ria e estudada veja com maus olhos a extra\u00e7\u00e3o do ditador Nicol\u00e1s Maduro. Sem um evento ex\u00f3geno, como foi a interven\u00e7\u00e3o americana, o povo venezuelano poderia estar condenado a esperar d\u00e9cadas pelo fim do regime ditatorial. Ao fim, nossa torcida \u00e9 que nenhum outro pa\u00eds latino-americano chegue \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de Venezuela ou Cuba.<\/p>\n<\/div>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s opera\u00e7\u00e3o dos EUA que prendeu Maduro, a Venezuela segue sob tutela americana, com Delcy Rodr\u00edguez \u00e0 frente do mesmo&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":112208,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-112207","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/112207","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=112207"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/112207\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/112208"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=112207"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=112207"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=112207"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}