{"id":111826,"date":"2026-01-13T10:05:40","date_gmt":"2026-01-13T14:05:40","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=111826"},"modified":"2026-01-13T10:05:40","modified_gmt":"2026-01-13T14:05:40","slug":"apoio-de-governos-do-pt-a-maduro-afetou-lideranca-regional-e-financas-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=111826","title":{"rendered":"Apoio de governos do PT a Maduro afetou lideran\u00e7a regional e finan\u00e7as do Brasil"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>A rea\u00e7\u00e3o de Lula n\u00e3o \u00e9 um epis\u00f3dio isolado, mas parte de uma rela\u00e7\u00e3o constru\u00edda ao longo de mais de 20 anos, que come\u00e7ou com a alian\u00e7a estrat\u00e9gica entre o petismo e o chavismo e atravessou diferentes governos, crises pol\u00edticas e den\u00fancias de viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos na Venezuela.<\/p>\n<p>Desde o primeiro mandato de Lula, a pol\u00edtica externa brasileira passou a tratar a Venezuela como aliada preferencial na Am\u00e9rica do Sul. A afinidade ideol\u00f3gica com o projeto bolivariano de Hugo Ch\u00e1vez levou o Partido dos Trabalhadores (PT) a relativizar alertas sobre autoritarismo, enfraquecimento institucional e persegui\u00e7\u00e3o a opositores, em nome de um discurso de integra\u00e7\u00e3o regional, soberania e enfrentamento \u00e0 influ\u00eancia dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos, essa condescend\u00eancia se manifestou de diferentes formas: nas declara\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de apoio a l\u00edderes chavistas, na recep\u00e7\u00e3o oficial a Maduro com honras de chefe de Estado em Bras\u00edlia, em investimentos bilion\u00e1rios que ligaram economicamente Brasil e Venezuela \u2014 como o caso da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco \u2014 e na cautela em reagir a den\u00fancias de fraudes eleitorais e repress\u00e3o \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o venezuelana.<\/p>\n<p>Em 30 de setembro de 2005, durante entrevista \u00e0 imprensa em Bras\u00edlia ao lado de Ch\u00e1vez, Lula reagiu \u00e0s cr\u00edticas internacionais afirmando que a Venezuela vivia um \u201cexcesso de democracia\u201d. Na mesma ocasi\u00e3o, elogiou o aliado e atacou a oposi\u00e7\u00e3o venezuelana, dizendo que ela n\u00e3o aceitava \u201cque um metal\u00fargico\u201d governasse o pa\u00eds \u2014 um paralelo direto com sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria pol\u00edtica no Brasil. A fala se tornou um dos s\u00edmbolos da disposi\u00e7\u00e3o do petista de relativizar alertas sobre o chavismo.<\/p>\n<p>Entre 2005 e 2007, per\u00edodo considerado o auge da aproxima\u00e7\u00e3o bilateral, Lula passou a classificar a rela\u00e7\u00e3o entre Brasil e Venezuela como \u201cestrat\u00e9gica\u201d, baseada em \u201cafinidades pol\u00edticas\u201d, ainda que reconhecesse eventuais \u201cdiverg\u00eancias ideol\u00f3gicas\u201d. Os dois presidentes atuaram juntos na cria\u00e7\u00e3o e fortalecimento de mecanismos de integra\u00e7\u00e3o regional, como a Unasul, e apresentaram a alian\u00e7a como parte de um projeto comum para a Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<h2>Apoio direto \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o de Ch\u00e1vez<\/h2>\n<p>A alian\u00e7a entre petismo e chavismo avan\u00e7ou para um n\u00edvel ainda mais profundo de engajamento pol\u00edtico: o apoio direto \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o do regime no poder por meio da elei\u00e7\u00e3o presidencial de 2012. Diferentemente de gestos diplom\u00e1ticos ou declara\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, esse envolvimento ocorreu nos bastidores, com articula\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas e participa\u00e7\u00e3o de quadros centrais ligados ao PT na campanha chavista.<\/p>\n<p>Um telegrama da Embaixada da Venezuela no Brasil, revelado pela revista <em>Veja<\/em>, que relata uma reuni\u00e3o realizada em S\u00e3o Paulo, em fevereiro de 2011, exp\u00f5e com detalhes o grau de envolvimento de Lula com o processo eleitoral venezuelano. No documento, o ex-presidente brasileiro afirmava que Ch\u00e1vez era o l\u00edder em quem mais confiava politicamente e confessava preocupa\u00e7\u00e3o com a possibilidade de derrota do aliado. \u201cDurmo tranquilo porque sei que Ch\u00e1vez est\u00e1 l\u00e1, mas \u00e0s vezes tamb\u00e9m n\u00e3o consigo dormir pensando que Ch\u00e1vez poderia perder as elei\u00e7\u00f5es em dezembro de 2012\u201d, teria dito Lula, segundo o relato diplom\u00e1tico.<\/p>\n<p>Ainda conforme o telegrama, Lula classificou uma eventual derrota de Ch\u00e1vez como um desastre pol\u00edtico para a esquerda latino-americana, afirmando que o resultado seria \u201cigual ou pior que a queda do Muro de Berlim\u201d. A compara\u00e7\u00e3o ilustrou o peso simb\u00f3lico atribu\u00eddo pelo petista \u00e0 perman\u00eancia do chavismo no poder e indicou que a elei\u00e7\u00e3o venezuelana era tratada como uma disputa estrat\u00e9gica regional, e n\u00e3o apenas como um processo interno de um pa\u00eds soberano.<\/p>\n<p>Nesse contexto, Lula passou a discutir iniciativas concretas para fortalecer politicamente o aliado. Uma delas foi a defesa da ades\u00e3o plena da Venezuela ao Mercosul, vista como uma vit\u00f3ria pol\u00edtica capaz de refor\u00e7ar o governo chavista \u00e0s v\u00e9speras da elei\u00e7\u00e3o. O documento tamb\u00e9m relatava a inten\u00e7\u00e3o de Lula de ajudar a estruturar um comando de campanha para Ch\u00e1vez, envolvendo aliados pol\u00edticos e assessores pr\u00f3ximos.<\/p>\n<p>Entre os nomes citados estava o do marqueteiro Jo\u00e3o Santana, respons\u00e1vel pelas campanhas eleitorais de Lula e da ent\u00e3o presidente Dilma Rousseff. Santana foi escalado para auxiliar diretamente a comunica\u00e7\u00e3o da campanha chavista de 2012, levando \u00e0 Venezuela estrat\u00e9gias e m\u00e9todos j\u00e1 utilizados com sucesso em campanhas petistas no Brasil.<\/p>\n<p>Os detalhes financeiros dessa atua\u00e7\u00e3o vieram \u00e0 tona anos depois. Em 2017, durante depoimento \u00e0 Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, M\u00f4nica Moura, esposa e s\u00f3cia de Jo\u00e3o Santana, afirmou que o casal recebeu cerca de US$ 10 milh\u00f5es por servi\u00e7os prestados ao chavismo. Segundo ela, os pagamentos tiveram origem no entorno do regime venezuelano e ocorreram em campanhas ligadas tanto a Hugo Ch\u00e1vez quanto, posteriormente, a Nicol\u00e1s Maduro.<\/p>\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o do escritor e jornalista Leonardo Coutinho, autor do livro &#8220;<em>Hugo Ch\u00e1vez, o espectro<\/em>&#8221; (Vest\u00edgio, 2018), h\u00e1 epis\u00f3dios documentados que demonstram como os governos do PT atuaram ativamente para sustentar politicamente o regime venezuelano em momentos-chave de isolamento internacional. Um dos casos mais reveladores, segundo ele, envolve a entrada da Venezuela no Mercosul, apesar das regras do bloco que vedavam a ades\u00e3o de pa\u00edses fora dos par\u00e2metros democr\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Coutinho recorre a um relato feito pelo ex-presidente uruguaio Jos\u00e9 Mujica, divulgado em livro e confirmado posteriormente em entrevistas. Segundo Mujica, o governo Dilma Rousseff articulou uma ofensiva pol\u00edtica para convencer o Paraguai \u2014 ent\u00e3o resistente \u00e0 entrada da Venezuela \u2014 a mudar de posi\u00e7\u00e3o. Um dos movimentos centrais foi o apoio do Brasil a um projeto que elevou significativamente o valor pago ao Paraguai pela energia produzida na Usina de Itaipu, proposta aprovada pelo Congresso brasileiro em 2011.<\/p>\n<p>De acordo com o relato de Mujica, a medida funcionou como um gesto de aproxima\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica para reduzir a resist\u00eancia do Congresso paraguaio \u00e0 ades\u00e3o venezuelana. \u00c0 \u00e9poca, o Paraguai era o principal entrave \u00e0 entrada do pa\u00eds comandado por Hugo Ch\u00e1vez no bloco, justamente por questionar o grau de comprometimento democr\u00e1tico do regime chavista.<\/p>\n<h2>Com Maduro, Lula relativizou a democracia<\/h2>\n<p>A aproxima\u00e7\u00e3o entre Lula e Maduro antecede o retorno do petista ao Pal\u00e1cio do Planalto, em 2023, e ajuda a explicar a linha adotada pelo governo brasileiro no terceiro mandato. Ainda em 2013, ap\u00f3s a morte de Hugo Ch\u00e1vez, Lula gravou um v\u00eddeo em apoio expl\u00edcito \u00e0 candidatura de Maduro \u00e0 Presid\u00eancia da Venezuela, apresentando-o como herdeiro leg\u00edtimo do projeto chavista e afirmando que sua elei\u00e7\u00e3o representaria a continuidade do pa\u00eds \u201csonhado por Ch\u00e1vez\u201d.<\/p>\n<p>No v\u00eddeo, divulgado durante a campanha eleitoral venezuelana, Lula exaltou a \u201cobra\u201d de Ch\u00e1vez e afirmou que Maduro daria sequ\u00eancia a um projeto que teria tornado a Venezuela \u201cmais justa\u201d, ao ampliar pol\u00edticas sociais e transferir renda do petr\u00f3leo para os mais pobres. O gesto foi interpretado, \u00e0 \u00e9poca, como um endosso pol\u00edtico direto ao novo l\u00edder chavista e marcou a transi\u00e7\u00e3o do apoio brasileiro do fundador do regime para seu sucessor.<\/p>\n<p>Dez anos depois, j\u00e1 de volta \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, Lula transformou esse alinhamento hist\u00f3rico em pol\u00edtica de Estado. Em maio de 2023, promoveu a reabilita\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica de Maduro, que voltou ao Brasil pela primeira vez desde 2015. O venezuelano foi recebido no Pal\u00e1cio do Planalto com honras de chefe de Estado, direito a rampa, guarda de honra e uma reuni\u00e3o bilateral exclusiva antes dos encontros com outros presidentes sul-americanos.<\/p>\n<p>Durante a visita, Lula minimizou cr\u00edticas internacionais ao regime chavista e afirmou que a Venezuela era alvo de uma \u201cnarrativa\u201d constru\u00edda para demonizar o governo do ditador. Chegou a aconselhar Maduro a \u201cconstruir sua pr\u00f3pria narrativa\u201d, sugerindo que a imagem negativa do pa\u00eds n\u00e3o decorreria de autoritarismo ou repress\u00e3o pol\u00edtica, mas de campanhas externas. Em junho daquele ano, refor\u00e7ou o discurso ao declarar que a Venezuela \u201ctem mais elei\u00e7\u00f5es do que o Brasil\u201d e que \u201co conceito de democracia \u00e9 relativo\u201d.<\/p>\n<p>Ao longo de 2023 e 2024, o governo passou a sustentar essa postura com o argumento da n\u00e3o interfer\u00eancia, apresentado como princ\u00edpio orientador da diplomacia brasileira. Questionado no Congresso, o Itamaraty afirmou reiteradamente que o Brasil n\u00e3o faz ju\u00edzos p\u00fablicos sobre assuntos internos venezuelanos e que aposta no di\u00e1logo como forma de media\u00e7\u00e3o. Na pr\u00e1tica, cr\u00edticos avaliam que essa linha serviu para blindar politicamente o regime de Maduro, mesmo diante de den\u00fancias de repress\u00e3o \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o, pris\u00f5es arbitr\u00e1rias e questionamentos sobre a lisura do processo eleitoral.<\/p>\n<p>Para o cientista pol\u00edtico Elton Gomes, professor da Universidade Federal do Piau\u00ed (UFPI), a pol\u00edtica externa adotada pelo Brasil nos governos petistas comprometeu o papel hist\u00f3rico do pa\u00eds como pot\u00eancia estabilizadora da Am\u00e9rica do Sul. Segundo ele, caberia ao Brasil atuar como mediador de conflitos e refer\u00eancia regional, algo que n\u00e3o se concretizou no caso venezuelano.<\/p>\n<p>O cientista pol\u00edtico tamb\u00e9m criticou a postura brasileira ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es venezuelanas de 2024, marcadas por den\u00fancias de fraude. Enquanto pa\u00edses como Argentina, Paraguai e Chile \u2014 o \u00faltimo governado pela esquerda de Gabriel Boric \u2014 condenaram abertamente o processo, o Brasil adotou uma posi\u00e7\u00e3o que ele classifica como amb\u00edgua. \u201cO governo n\u00e3o reconheceu formalmente o resultado, mas tampouco condenou Maduro\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Para Gomes, o envio de representa\u00e7\u00e3o oficial brasileira \u00e0 posse de Maduro acabou tendo peso decisivo. \u201cNa pr\u00e1tica diplom\u00e1tica, comparecer \u00e0 posse equivale a reconhecer o governo\u201d, avalia. Ele destacou ainda o protagonismo do assessor especial Celso Amorim, que, segundo ele, acabou eclipsando o papel formal do chanceler Mauro Vieira na condu\u00e7\u00e3o do tema.<\/p>\n<p>Na leitura do professor, o Brasil terminou \u201cno limbo\u201d: n\u00e3o liderou uma condena\u00e7\u00e3o regional, n\u00e3o conseguiu mediar uma solu\u00e7\u00e3o aceita por governo e oposi\u00e7\u00e3o venezuelanos e ainda se exp\u00f4s a tens\u00f5es com os Estados Unidos, especialmente no contexto de san\u00e7\u00f5es e negocia\u00e7\u00f5es comerciais. \u201cO pa\u00eds alterna discursos de defesa da paz e das solu\u00e7\u00f5es negociadas com gestos que o colocam em confronto com democracias ocidentais\u201d, afirma.<\/p>\n<h2>Calote venezuelano exp\u00f5e custo financeiro da alian\u00e7a pol\u00edtica<\/h2>\n<p>A d\u00edvida acumulada pela Venezuela com o Brasil envolve valores elevados, contratos antigos e um impacto direto sobre os cofres p\u00fablicos. Segundo dados oficiais do governo brasileiro, o passivo j\u00e1 ultrapassa R$ 10 bilh\u00f5es e decorre principalmente de financiamentos concedidos entre 2007 e 2015, per\u00edodo de maior aproxima\u00e7\u00e3o entre os governos do PT e o chavismo.<\/p>\n<p>Os cr\u00e9ditos foram concedidos para exporta\u00e7\u00f5es de bens e servi\u00e7os brasileiros, sobretudo obras de infraestrutura executadas por grandes empreiteiras nacionais na Venezuela. As opera\u00e7\u00f5es foram viabilizadas com recursos do BNDES, tendo como garantia o Fundo de Garantia \u00e0 Exporta\u00e7\u00e3o (FGE) \u2014 mecanismo sustentado pelo Tesouro Nacional. Quando a Venezuela deixou de pagar, foi o fundo p\u00fablico brasileiro que passou a cobrir os preju\u00edzos.<\/p>\n<p>O calote come\u00e7ou a se consolidar a partir de 2018, ainda no governo de Nicol\u00e1s Maduro, e j\u00e1 dura cerca de sete anos. Desde ent\u00e3o, o Brasil vem honrando as garantias dadas \u00e0s institui\u00e7\u00f5es financeiras e \u00e0s empresas exportadoras, transformando a d\u00edvida externa venezuelana em despesa direta para o contribuinte brasileiro. Apenas com a Venezuela, o FGE concentra um de seus maiores passivos internacionais.<\/p>\n<p>Em audi\u00eancia na Comiss\u00e3o de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores e Defesa Nacional (CREDN), o ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, Mauro Vieira, confirmou os valores envolvidos e reconheceu a inadimpl\u00eancia prolongada. O chanceler afirmou que o governo brasileiro mant\u00e9m o tema em negocia\u00e7\u00e3o, mas atribuiu as dificuldades de pagamento \u00e0s san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas impostas pelos Estados Unidos e por outros pa\u00edses ao regime venezuelano.<\/p>\n<p>Segundo Vieira, as san\u00e7\u00f5es teriam criado entraves banc\u00e1rios e operacionais que impediriam transfer\u00eancias internacionais, o que dificultaria a quita\u00e7\u00e3o da d\u00edvida. Ele ressaltou que o Brasil n\u00e3o adota medidas de press\u00e3o p\u00fablica e que a diplomacia segue o princ\u00edpio da n\u00e3o interfer\u00eancia, buscando resolver a quest\u00e3o \u201cpor meio do di\u00e1logo\u201d.<\/p>\n<h2>Refinaria Abreu e Lima virou s\u00edmbolo da alian\u00e7a com o chavismo<\/h2>\n<p>A Refinaria Abreu e Lima, em Ipojuca (PE), tornou-se um dos casos mais emblem\u00e1ticos da rela\u00e7\u00e3o entre os governos do PT e a Venezuela chavista, reunindo alinhamento ideol\u00f3gico, fracasso econ\u00f4mico, calote internacional e esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o. O projeto nasceu no in\u00edcio do primeiro mandato de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, como parte da estrat\u00e9gia de integra\u00e7\u00e3o sul-americana defendida em parceria com Hugo Ch\u00e1vez, e foi apresentado como s\u00edmbolo da coopera\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica entre os dois pa\u00edses.<\/p>\n<p>Anunciada em 2003 e formalizada a partir de 2005, a refinaria foi concebida como um empreendimento binacional entre a Petrobras e a estatal venezuelana PDVSA. O acordo previa uma sociedade em que o Brasil teria 60% do capital e a Venezuela, 40%, com investimento estimado inicialmente entre US$ 2 bilh\u00f5es e US$ 2,5 bilh\u00f5es. Ch\u00e1vez participou pessoalmente do lan\u00e7amento da obra e chegou a sugerir o nome \u201cAbreu e Lima\u201d, em homenagem ao general pernambucano que lutou ao lado de Sim\u00f3n Bol\u00edvar.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, por\u00e9m, a parceria nunca saiu do papel. A PDVSA n\u00e3o aportou os recursos prometidos nem forneceu petr\u00f3leo de forma regular, enquanto a Petrobras assumiu sozinha a execu\u00e7\u00e3o do projeto. Mesmo assim, o governo brasileiro manteve o discurso de \u201cparceria estrat\u00e9gica\u201d por anos, adiando cobran\u00e7as e renegocia\u00e7\u00f5es, numa tentativa de preservar o simbolismo pol\u00edtico da alian\u00e7a com a Venezuela.<\/p>\n<p>O resultado foi uma escalada explosiva de custos. Ao longo dos anos, revis\u00f5es de projeto, atrasos e mudan\u00e7as de escopo fizeram o or\u00e7amento saltar para cerca de US$ 18 bilh\u00f5es, transformando Abreu e Lima em uma das refinarias mais caras do mundo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 capacidade instalada. Inaugurada parcialmente em 2014, a unidade entrou em opera\u00e7\u00e3o com apenas metade da capacidade originalmente prevista, enquanto partes da obra permaneceram inacabadas.<\/p>\n<p>A refinaria tamb\u00e9m se tornou um dos principais alvos da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato. Investiga\u00e7\u00f5es apontaram superfaturamento, cartel de empreiteiras e pagamento de propinas envolvendo grandes construtoras e dirigentes ligados a partidos da base dos governos petistas. O Tribunal de Contas da Uni\u00e3o (TCU) identificou sobrepre\u00e7os bilion\u00e1rios, e o empreendimento passou a ser citado como um dos s\u00edmbolos do esc\u00e2ndalo do petrol\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do preju\u00edzo financeiro, o caso exp\u00f4s o fracasso da estrat\u00e9gia de integra\u00e7\u00e3o com o chavismo. A Venezuela, que nunca cumpriu sua parte no acordo, deixou o Brasil com 100% da conta, sem que houvesse responsabiliza\u00e7\u00e3o efetiva do parceiro internacional. Ainda assim, o projeto continuou sendo defendido politicamente como legado da coopera\u00e7\u00e3o regional iniciada nos governos Lula.<\/p>\n<p>No terceiro mandato, a hist\u00f3ria ganhou um novo cap\u00edtulo. Em 2025, a Petrobras assinou contratos de cerca de R$ 4,9 bilh\u00f5es para ampliar a refinaria e construir o segundo trem de refino, dobrando sua capacidade de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h2>Cr\u00edticas \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o exp\u00f5em assimetria na postura de Lula sobre a Venezuela<\/h2>\n<p>As cr\u00edticas de Lula \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o venezuelana refor\u00e7am a percep\u00e7\u00e3o de que o presidente brasileiro adotou uma postura mais dura com advers\u00e1rios do regime de Nicol\u00e1s Maduro do que com o pr\u00f3prio governo chavista. Em mar\u00e7o de 2024, ao comentar o impedimento da principal lideran\u00e7a opositora, Mar\u00eda Corina Machado, Lula afirmou que ela \u201cn\u00e3o deveria ficar chorando\u201d por ter sido barrada da disputa presidencial e sugeriu que simplesmente indicasse outro candidato \u2014 declara\u00e7\u00e3o que provocou forte rea\u00e7\u00e3o dentro e fora da Venezuela.<\/p>\n<p>Na mesma fala, Lula comparou a situa\u00e7\u00e3o venezuelana \u00e0 sua pr\u00f3pria inelegibilidade em 2018. Disse que, ao ser impedido de concorrer no Brasil, \u201cao inv\u00e9s de ficar chorando\u201d, indicou Fernando Haddad como candidato. A equipara\u00e7\u00e3o foi alvo de cr\u00edticas por ignorar diferen\u00e7as centrais entre um processo judicial em um sistema democr\u00e1tico e a exclus\u00e3o eleitoral imposta por inst\u00e2ncias controladas por um regime autorit\u00e1rio, ap\u00f3s a vit\u00f3ria da oposi\u00e7\u00e3o nas prim\u00e1rias.<\/p>\n<p>O presidente tamb\u00e9m atacou de forma gen\u00e9rica a postura da oposi\u00e7\u00e3o venezuelana, afirmando que, se o candidato oposicionista tivesse \u201co mesmo comportamento que o nosso aqui, nada vale\u201d, sem detalhar a acusa\u00e7\u00e3o. Na mesma coletiva, disse estar \u201cfeliz\u201d com o an\u00fancio das elei\u00e7\u00f5es marcadas para 28 de julho de 2024 e destacou a promessa de Maduro de aceitar observadores internacionais, defendendo que n\u00e3o se deveria \u201clan\u00e7ar d\u00favida\u201d sobre o pleito antes de sua realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A resposta da oposi\u00e7\u00e3o veio rapidamente. Mar\u00eda Corina reagiu nas redes sociais e questionou o tom e o conte\u00fado das declara\u00e7\u00f5es do presidente brasileiro: \u201cEu chorando, presidente Lula? O senhor diz isso porque sou mulher? O senhor n\u00e3o me conhece\u201d. A rea\u00e7\u00e3o ganhou repercuss\u00e3o internacional, com ve\u00edculos destacando o contraste entre a fala de Lula e o fato de a opositora ter sido barrada por decis\u00f5es de \u00f3rg\u00e3os alinhados ao chavismo.<\/p>\n<p>Diante da repercuss\u00e3o negativa e da press\u00e3o externa, Lula ajustou o discurso semanas depois. Em 28 de mar\u00e7o de 2024, passou a classificar como \u201cgrave\u201d o impedimento da candidatura opositora, disse ter ficado \u201csurpreso\u201d com a decis\u00e3o e afirmou que \u201c\u00e9 grave impedir que um advers\u00e1rio seja candidato\u201d, acrescentando que Maduro \u201cn\u00e3o deveria temer a participa\u00e7\u00e3o de um opositor forte\u201d.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A rea\u00e7\u00e3o de Lula n\u00e3o \u00e9 um epis\u00f3dio isolado, mas parte de uma rela\u00e7\u00e3o constru\u00edda ao longo de mais de&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":111760,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-111826","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/111826","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=111826"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/111826\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/111760"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=111826"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=111826"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=111826"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}