{"id":111435,"date":"2026-01-13T07:01:00","date_gmt":"2026-01-13T11:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=111435"},"modified":"2026-01-13T07:01:00","modified_gmt":"2026-01-13T11:01:00","slug":"trump-remove-maduro-a-volta-da-geopolitica-do-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=111435","title":{"rendered":"Trump remove Maduro: a volta da geopol\u00edtica do poder"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Em setembro de 2025, Trump subiu ao p\u00falpito da Assembleia Geral da ONU e deixou cristalino o que pensa do arranjo multilateral: um grande teatro caro, onde chefes de Estado fingem governar o mundo enquanto pouco ou nada \u00e9 realmente resolvido \u2013 comentei sobre isso em <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/opiniao\/artigos\/trump-a-onu-e-a-maquina-que-nao-entrega\/\">outro artigo para a Gazeta.<\/a> Tr\u00eas meses depois, seu governo lan\u00e7ou o <em>National Security Strategy<\/em>, um documento direto que deixou claras as prioridades: menos globalismo e institui\u00e7\u00f5es multilaterais, mais defesa do interesse nacional e olhar voltado para o hemisf\u00e9rio ocidental e combate aos regimes antiocidentais.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o chegou 2026. Como fogos de artif\u00edcio de Ano Novo, uma opera\u00e7\u00e3o militar americana atingiu alvos em Caracas e capturou Nicol\u00e1s Maduro, presidente ileg\u00edtimo da Venezuela, encerrando \u2013 pelo menos por ora \u2013 a continuidade do chavismo no poder. Entre os s\u00edmbolos destru\u00eddos estava o <em>Cuartel de la Monta\u00f1a<\/em>, antigo museu militar que abriga o mausol\u00e9u de Hugo Ch\u00e1vez e homenageia sua tentativa de golpe em 4 de fevereiro de 1992 (4F). Um recado que vai al\u00e9m do t\u00e1tico: \u00e9 pol\u00edtico, simb\u00f3lico, definitivo.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o consolida uma postura explicitamente realista: o sistema global \u00e9 uma arena de competi\u00e7\u00e3o entre Estados, onde o poder nacional, n\u00e3o as institui\u00e7\u00f5es, define quem prevalece. Trump n\u00e3o inventou essa vis\u00e3o, apenas parou de fingir o contr\u00e1rio. Seu governo trata a ONU como o que ela \u00e9: um f\u00f3rum \u00fatil quando conveniente, irrelevante quando n\u00e3o serve aos interesses americanos e ocidentais.<\/p>\n<p>Tudo isso marca algo cristalino para a geopol\u00edtica dos pr\u00f3ximos anos: o \u201cdireito internacional\u201d voltou a ser aquilo que sempre foi no fundo \u2013 uma promessa que depende de poder real e de alguma converg\u00eancia moral, n\u00e3o uma for\u00e7a soberana acima dos Estados. O que acaba aqui n\u00e3o \u00e9 a exist\u00eancia de normas entre na\u00e7\u00f5es; o que acaba \u00e9 a fantasia de que essas normas vivem por conta pr\u00f3pria, como se a ONU fosse um Leviat\u00e3 capaz de impor ordem ao mundo.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Pot\u00eancias precisam agir como pot\u00eancias, n\u00e3o como ONGs com ex\u00e9rcito. A ONU e o multilateralismo falharam por negar essas realidades, criando igualdade artificial entre democracias e ditaduras. O resultado foi paralisia<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Nas horas seguintes, veio o coro previs\u00edvel: \u201cfoi ilegal\u201d, \u201cferiu a Carta da ONU\u201d, \u201cn\u00e3o poderia\u201d, \u201cabre precedente\u201d. Pessoas de esquerda e de direita repetiram, com palavras diferentes, o mesmo reflexo: a cren\u00e7a de que existe uma esp\u00e9cie de lei internacional compar\u00e1vel \u00e0 lei dom\u00e9stica, algo capaz de enquadrar Estados como se fossem cidad\u00e3os diante de um juiz.<\/p>\n<p>S\u00f3 que essa indigna\u00e7\u00e3o revela um esquecimento b\u00e1sico: entre Estados soberanos, n\u00e3o existe pol\u00edcia universal. O sistema internacional \u00e9, por natureza, um espa\u00e7o sem monop\u00f3lio leg\u00edtimo da for\u00e7a \u2013 uma anarquia. A estabilidade sempre dependeu de capacidade real de coer\u00e7\u00e3o quando necess\u00e1rio e de algum grau de converg\u00eancia moral entre os principais atores.<\/p>\n<p>Houve um per\u00edodo, sobretudo no p\u00f3s-guerra, em que a ordem liberal parecia caminhar para algo maior: institui\u00e7\u00f5es multilaterais, regras comuns, mecanismos de arbitragem. Mas essa arquitetura s\u00f3 funcionava enquanto os EUA bancavam o sistema porque lhes convinha. Trump levou essa l\u00f3gica adiante: se as institui\u00e7\u00f5es multilaterais n\u00e3o servem aos interesses estrat\u00e9gicos americanos, que sejam ignoradas. A Venezuela foi tratada n\u00e3o apenas como quest\u00e3o de justi\u00e7a internacional, mas como amea\u00e7a no quintal americano que precisava ser neutralizada.<\/p>\n<p>Quando uma superpot\u00eancia decide que as regras n\u00e3o servem mais, o verniz racha e volta-se \u00e0 realidade nua dos Estados em competi\u00e7\u00e3o. No fim, a impunidade educa o agressor.<\/p>\n<p>O caso venezuelano exp\u00f5e isso em estado puro. A ditadura chavista se consolidou por d\u00e9cadas. Produziu \u00eaxodo em massa, mis\u00e9ria generalizada, repress\u00e3o sistem\u00e1tica. Atravessou apelos internacionais e rituais diplom\u00e1ticos intermin\u00e1veis sem que o \u201csistema internacional\u201d tivesse m\u00fasculo para arrancar o regime do poder. Porque a ONU, no fim das contas, n\u00e3o \u00e9 um soberano: \u00e9 uma mesa de negocia\u00e7\u00e3o. \u00datil quando h\u00e1 acordo ou medo real. Impotente quando n\u00e3o h\u00e1.<\/p>\n<p>Trump abra\u00e7ou sem constrangimento o n\u00facleo dessa vis\u00e3o: Estados perseguem poder e seguran\u00e7a numa arena an\u00e1rquica, e institui\u00e7\u00f5es s\u00f3 t\u00eam peso quando grandes pot\u00eancias lhes emprestam for\u00e7a. A obsess\u00e3o multilateralista com \u201cmandatos\u201d e \u201cconsenso\u201d \u00e9 vista como ilus\u00e3o perigosa \u2013 enquanto o Ocidente se autocensura por formalidades, advers\u00e1rios agem sem pudor. O erro do per\u00edodo anterior foi acreditar que regras internacionais poderiam substituir o poder real. N\u00e3o podem. E, quanto mais cedo o Ocidente reassumir postura de pot\u00eancia, melhor para sua sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Da\u00ed vem a pergunta desconfort\u00e1vel: o que vale mais, a etiqueta da ONU ou o direito de um povo a n\u00e3o ser governado por um tirano? Se a lei internacional n\u00e3o protege o b\u00e1sico \u2013 vida, liberdade, dignidade \u2013, ela n\u00e3o pode ser tratada como \u00eddolo sagrado.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa transformar os Estados Unidos em pol\u00edcia planet\u00e1ria. Mas Trump reafirma a primazia do interesse nacional como b\u00fassola leg\u00edtima da pol\u00edtica externa. Enquanto o multilateralismo liberal pedia que Washington consultasse dezenas de capitais antes de agir, a nova postura pergunta: isso protege americanos? Fortalece aliados ocidentais? Enfraquece advers\u00e1rios? Se sim, age-se. Se n\u00e3o, ignora-se.<\/p>\n<p>Essa postura choca quem cresceu no mundo p\u00f3s-Guerra Fria, onde os EUA se apresentavam como guardi\u00e3o de ordem universal. O mundo voltou ao velho equil\u00edbrio de poder. Quem quiser preservar a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental precisa reaprender a falar a l\u00edngua da soberania, do interesse nacional e da responsabilidade concreta. O Ocidente s\u00f3 sustenta uma ordem decente quando acredita nela o suficiente para defend\u00ea-la \u2013 com economia, diplomacia, alian\u00e7as e, no limite, for\u00e7a. O globalismo prometeu administrar o mundo por meio de normas abstratas, de uma grande lei internacional. A realidade est\u00e1 nos lembrando que lei sem poder n\u00e3o passa de papel timbrado.<\/p>\n<p>Trump deixa claro: nessa ordem, quem lidera \u00e9 quem tem poder para liderar. E quem tem \u00e9 o Ocidente, com os EUA no centro. Pot\u00eancias precisam agir como pot\u00eancias, n\u00e3o como ONGs com ex\u00e9rcito. A ONU e o multilateralismo falharam por negar essas realidades, criando igualdade artificial entre democracias e ditaduras. O resultado foi paralisia. A resposta: se as institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o servem, passamos por cima delas.<\/p>\n<p>O que aconteceu na Venezuela \u00e9 o sinal definitivo de que entramos numa era em que a geopol\u00edtica do poder voltou \u00e0 mesa. E ningu\u00e9m mais vai poder se esconder atr\u00e1s de siglas para n\u00e3o enfrent\u00e1-la.<\/p>\n<p><em><strong>Yuri Quadros<\/strong> \u00e9 diretor do Instituto Alian\u00e7a e conselheiro da Rede Liberdade.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em setembro de 2025, Trump subiu ao p\u00falpito da Assembleia Geral da ONU e deixou cristalino o que pensa do&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":111436,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-111435","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/111435","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=111435"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/111435\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/111436"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=111435"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=111435"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=111435"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}