{"id":108217,"date":"2026-01-12T07:02:00","date_gmt":"2026-01-12T11:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=108217"},"modified":"2026-01-12T07:02:00","modified_gmt":"2026-01-12T11:02:00","slug":"o-estelionato-politico-do-pleno-emprego-e-da-fome-moderada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=108217","title":{"rendered":"O estelionato pol\u00edtico do \u201cpleno emprego\u201d e da fome \u201cmoderada\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Emprego de qualidade e seguran\u00e7a alimentar s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es indissoci\u00e1veis e deveriam balizar qualquer pol\u00edtica p\u00fablica s\u00e9ria de desenvolvimento social. No entanto, na gest\u00e3o p\u00fablica brasileira, esses conceitos nem sempre servem como par\u00e2metro de efici\u00eancia. Narrativas que proclamam um suposto pleno emprego e a supera\u00e7\u00e3o da pobreza e da fome acabam, muitas vezes, convertendo-se em um verdadeiro estelionato pol\u00edtico.<\/p>\n<p>No final de dezembro passado, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) divulgou que a taxa de desemprego atingiu 5,2% no trimestre encerrado em novembro de 2025 \u2013 a menor desde 2012. O dado foi amplamente celebrado pelo governo federal como prova inequ\u00edvoca de sucesso econ\u00f4mico e social.<\/p>\n<p>A justificativa apresentada apoia-se em padr\u00f5es internacionais: taxas reduzidas de desocupa\u00e7\u00e3o seriam compat\u00edveis com situa\u00e7\u00f5es de pleno emprego, uma vez que algum n\u00edvel de desemprego \u00e9 considerado natural em raz\u00e3o da migra\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria entre postos de trabalho, fen\u00f4meno intensificado no p\u00f3s-pandemia. Para o Federal Reserve (Banco Central dos Estados Unidos), por exemplo, o intervalo de pleno emprego situa-se entre 4% e 5%; na Zona do Euro, entre 6% e 7%, segundo o Banco Central Europeu. No Reino Unido, a refer\u00eancia gira em torno de 4% a 4,5%; no Canad\u00e1, pr\u00f3ximo de 5%.<\/p>\n<p>O que parece simples \u00e0 primeira vista, contudo, esconde uma realidade muito mais complexa. O mercado de trabalho brasileiro n\u00e3o pode ser analisado de forma mec\u00e2nica ou comparado diretamente ao de economias desenvolvidas. Taxas semelhantes de desocupa\u00e7\u00e3o podem refletir realidades completamente distintas. O indicador de desemprego mede apenas quem n\u00e3o trabalha, est\u00e1 dispon\u00edvel e procura emprego; ele n\u00e3o capta a qualidade da ocupa\u00e7\u00e3o, o grau de informalidade, o subemprego ou o desalento. Assim, o chamado \u201cpleno emprego\u201d pode ser apenas um constructo estat\u00edstico \u2013 distante da experi\u00eancia concreta da maioria dos trabalhadores brasileiros.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Subnutri\u00e7\u00e3o, fome \u2013 ainda que rotulada como \u201cmoderada\u201d \u2013 e empregos prec\u00e1rios n\u00e3o deveriam jamais ser motivo de comemora\u00e7\u00e3o. S\u00e3o, antes, um retrato inc\u00f4modo de fracasso social e um motivo de vergonha<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00c9 verdade que o IBGE segue os padr\u00f5es estabelecidos pela Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT), que define conceitos e metodologias utilizadas mundialmente. Ainda assim, o crit\u00e9rio de classifica\u00e7\u00e3o de \u201cocupado\u201d \u00e9, no m\u00ednimo, permissivo: basta uma \u00fanica hora trabalhada na semana \u2013 mesmo sem remunera\u00e7\u00e3o direta \u2013 para que o indiv\u00edduo seja considerado empregado. Atividades prec\u00e1rias, informais ou mesmo trocas de trabalho por alimenta\u00e7\u00e3o ou moradia entram nessa conta. Na pr\u00e1tica, uma cesta b\u00e1sica em troca de uma hora de trabalho j\u00e1 \u00e9 suficiente para inflar artificialmente as estat\u00edsticas de ocupa\u00e7\u00e3o e sustentar a narrativa do pleno emprego.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os desalentados \u2013 cerca de 2,3% da for\u00e7a de trabalho, formados por pessoas que desistiram de procurar emprego \u2013 simplesmente n\u00e3o entram no c\u00e1lculo do desemprego. Soma-se a isso a taxa de subutiliza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, que alcan\u00e7a 13,5%, englobando milh\u00f5es de brasileiros que sobrevivem de \u201cbicos\u201d ou trabalhos espor\u00e1dicos, sem jornada regular ou remunera\u00e7\u00e3o adequada, mas que ainda assim s\u00e3o contabilizados como ocupados.<\/p>\n<p>Na outra extremidade, a informalidade atinge aproximadamente 40% dos trabalhadores. Trata-se de uma realidade estrutural, associada \u00e0 baixa escolaridade, ao elevado n\u00famero de analfabetos funcionais, \u00e0 fragilidade da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, \u00e0 baixa produtividade, \u00e0 elevada carga tribut\u00e1ria e \u00e0 complexidade excessiva para formalizar neg\u00f3cios. Esses fatores empurram milh\u00f5es de pessoas para ocupa\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, que entram nas estat\u00edsticas como emprego, mas est\u00e3o muito distantes da no\u00e7\u00e3o de trabalho digno.<\/p>\n<p>Os pr\u00f3prios dados do IBGE, quando analisados em profundidade, ajudam a explicar por que o desemprego parece t\u00e3o baixo, mas revelam um quadro muito menos comemor\u00e1vel: subemprego elevado, informalidade persistente e uma depend\u00eancia crescente de programas de transfer\u00eancia de renda que distorcem os n\u00fameros e sustentam uma narrativa oficial ufanista. Na pr\u00e1tica, trata-se de um estelionato pol\u00edtico que se soma a outra constru\u00e7\u00e3o ret\u00f3rica: a de que o Brasil teria sa\u00eddo do mapa da fome.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Essa narrativa colide frontalmente com os dados da inseguran\u00e7a alimentar. A subnutri\u00e7\u00e3o atinge cerca de 2,5% da popula\u00e7\u00e3o; a inseguran\u00e7a alimentar grave, 3,4%; e a chamada inseguran\u00e7a alimentar moderada, 13,5%. Somadas, essas categorias alcan\u00e7am quase 20% dos brasileiros \u2013 mais de 41 milh\u00f5es de pessoas. Chamar de \u201cmoderada\u201d uma condi\u00e7\u00e3o em que o acesso aos alimentos \u00e9 severamente limitado n\u00e3o a torna aceit\u00e1vel. Trata-se de fome, com efeitos diretos sobre o desenvolvimento f\u00edsico e cognitivo das crian\u00e7as e consequ\u00eancias duradouras para a sociedade.<\/p>\n<p>Subnutri\u00e7\u00e3o, fome \u2013 ainda que rotulada como \u201cmoderada\u201d \u2013 e empregos prec\u00e1rios n\u00e3o deveriam jamais ser motivo de comemora\u00e7\u00e3o. S\u00e3o, antes, um retrato inc\u00f4modo de fracasso social e um motivo de vergonha \u00e0 luz de qualquer par\u00e2metro m\u00ednimo de dignidade humana e justi\u00e7a social.<\/p>\n<p><em><strong>Eli Moreno<\/strong> \u00e9 consultor corporativo e de pol\u00edticas sociais sustent\u00e1veis.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Emprego de qualidade e seguran\u00e7a alimentar s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es indissoci\u00e1veis e deveriam balizar qualquer pol\u00edtica p\u00fablica s\u00e9ria de desenvolvimento social. 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