{"id":106190,"date":"2026-01-11T11:20:00","date_gmt":"2026-01-11T15:20:00","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=106190"},"modified":"2026-01-11T11:20:00","modified_gmt":"2026-01-11T15:20:00","slug":"que-propositos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=106190","title":{"rendered":"Que prop\u00f3sitos?"},"content":{"rendered":"<div class=\"postLayout_post-content__gsXFz\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.gazetadopovo.com.br\/2026\/01\/11121546\/propositos-ano-novo-smartphone.jpg.webp\" \/><span>Sem nos livrarmos do v\u00edcio em internet e m\u00eddias sociais, nenhum prop\u00f3sito de ano novo se tornar\u00e1 realidade. (Foto: Imagem criada utilizando Whisk\/Gazeta do Povo)<\/span>\n<p>Ou\u00e7a este conte\u00fado<\/p>\n<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Ano novo, vida nova! Momento perfeito para avaliar nosso desempenho e nosso crescimento no ano que passou, tra\u00e7ar novas rotas, estabelecer metas, firmar os bons prop\u00f3sitos, e&#8230; N\u00e3o sejamos ing\u00eanuos. Seria uma tolice reunir for\u00e7as e preparar uma lista de prop\u00f3sitos de Ano Novo, muito parecida com a do ano anterior, a qual n\u00e3o cumprimos, s\u00f3 para nos frustrarmos mais uma vez, fazermos piada e deixarmos tudo para tr\u00e1s antes que finde o m\u00eas de janeiro. Estamos perto do meio do m\u00eas. Voc\u00ea fez prop\u00f3sitos, \u00e0 luz dos fogos e com a ta\u00e7a de espumante na m\u00e3o? J\u00e1 os descumpriu, por acaso? Ou ao menos sente reduzirem-se suas energias, drenadas pelo repuxo dos velhos h\u00e1bitos, todo aquele ideal remodelado come\u00e7a j\u00e1 a parecer distante, est\u00fapido, pueril? Imagino que talvez voc\u00ea tenha estipulado algumas quantidades. Ir \u00e0 academia tantas vezes, ler tantos livros, fazer tais ou quais aprimoramentos de trabalho; pode ter, generosamente, inclu\u00eddo na lista quantidades para seus familiares: fazer tal ou qual gesto pelo seu marido, ler tantas vezes para os filhos, fazer este ou aquele programa com eles. E por que, eu lhes pergunto, por que os nossos prop\u00f3sitos s\u00e3o t\u00e3o fr\u00e1geis? Porque somos arrastados rapidamente para a perda de tempo, para a rotina da pregui\u00e7a, para a dispers\u00e3o?<\/p>\n<p>Penso que o problema da nossa dispers\u00e3o, a agita\u00e7\u00e3o, a <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/ansiedade\/\">ansiedade <\/a>generalizada da nossa gera\u00e7\u00e3o, e mais ainda das gera\u00e7\u00f5es que v\u00eam vindo, seja bastante grave, e bastante mais grave do que a cultura do meme pode supor. \u00c0s vezes rimos para n\u00e3o chorar, \u00e9 verdade; mas talvez dev\u00eassemos mesmo chorar. Essa liquidez, essa fragilidade geral tem dois lados como uma moeda: a ansiedade, de quem precisa de mais, de muito, e a toda hora, e a procrastina\u00e7\u00e3o, de quem deixa para depois, de quem n\u00e3o consegue sustentar um esfor\u00e7o ou um prop\u00f3sito nem por 15 dias \u2013 e j\u00e1 tudo virou vapor outra vez. A essa doen\u00e7a do esp\u00edrito os antigos talvez chamassem de ac\u00eddia ou de <em>tibieza<\/em>, feitas as devidas adapta\u00e7\u00f5es, e a tibieza, segundo eles, \u00e9 muito mais grave do que pensa o t\u00edbio. As tecnologias e as <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/redes-sociais\/\">redes sociais<\/a>, e quase tudo o mais da cultura contempor\u00e2nea, s\u00e3o o metr\u00f4nomo que marca o compasso dessa ansiedade generalizada. Como escapar disso? \u2013 \u00e9 o que queremos saber, \u00e9 o que voc\u00ea talvez esteja se perguntando. Bem, eu tenho c\u00e1 minha pequena sugest\u00e3o. Em suma, devemos fazer prop\u00f3sitos fundamentais, b\u00e1sicos, mas qualitativos, que salvar\u00e3o nossa sanidade e possibilitar\u00e3o qualquer avan\u00e7o quantitativo posterior. \u00c9 este o tempo que vivemos, paci\u00eancia: temos de fazer um grande esfor\u00e7o para permanecermos normais.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de hoje. V\u00e1rios autores j\u00e1 explicaram, com precis\u00e3o, que a era moderna viveu sob o signo da ansiedade. Ela foi intensificada e complexificada pela sociedade urbanizada e industrial. Um n\u00famero crescente de pessoas passou a sofrer de neuroses, medos difusos, irritabilidade cr\u00f4nica, dist\u00farbios ps\u00edquicos e at\u00e9 enfermidades som\u00e1ticas, como \u00falceras, coisas que n\u00e3o se viam antes. Talvez n\u00e3o estivessem simplesmente \u201cesgotadas\u201d, mas feridas em seu \u00edntimo. Poucos podiam dizer, como dizia antes o campon\u00eas de outrora: \u201cQuando trabalho, trabalho de verdade; quando paro, descanso\u201d. \u00c9 claro que o homem sempre teve problemas. Mas outrora os homens se inquietavam sobretudo com a alma; hoje, a preocupa\u00e7\u00e3o dominante recai sobre o corpo. Seguran\u00e7a econ\u00f4mica, sa\u00fade, apar\u00eancia f\u00edsica, prest\u00edgio social, riqueza e sexualidade tornaram-se os grandes polos de inquieta\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m do mais, essa ansiedade moderna distingue-se tamb\u00e9m por ser subjetiva. J\u00e1 n\u00e3o se trata do medo de perigos objetivos e naturais \u2013 como feras, tempestades ou a fome \u2013, mas de um temor vago, difuso, do que <em>poderia<\/em> acontecer caso certas circunst\u00e2ncias se configurassem.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Uma das consequ\u00eancias mais vis\u00edveis do uso intensivo da internet e das novas redes sociais \u00e9 a eros\u00e3o progressiva da nossa capacidade de prestar aten\u00e7\u00e3o e de nos concentrar em algo por um per\u00edodo prolongado<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Por isso, \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil lidar com essa nova ansiedade: n\u00e3o adianta assegurar que n\u00e3o h\u00e1 perigo externo real, pois o perigo que se teme est\u00e1 dentro da pr\u00f3pria pessoa e, por isso mesmo, \u00e9 experimentado como intensamente real. A condi\u00e7\u00e3o \u00e9 agravada por um sentimento de impot\u00eancia diante desse suposto inimigo interior. O ansioso percebe constantemente uma despropor\u00e7\u00e3o entre as for\u00e7as de que disp\u00f5e e aquelas que julga necess\u00e1rias para enfrentar a amea\u00e7a. Assim, torna-se semelhante a um peixe preso em uma rede ou a um p\u00e1ssaro enredado em armadilha: quanto mais se debate de modo desordenado, mais se aprisiona, multiplicando suas pr\u00f3prias ang\u00fastias.<\/p>\n<p>Mas, reparem, estou descrevendo uma ansiedade \u201cmoderna\u201d. Falo da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, das d\u00e9cadas subsequentes, do s\u00e9culo 20, falo dos nossos anos 90 e de quando os computadores pessoais come\u00e7aram a habitar as casas. E nos \u00faltimos 15 anos? Quando os <em>smartphones<\/em> passaram a habitar os bolsos, as m\u00e3os, as casas, os restaurantes, o trabalho, as escolas&#8230; os celulares passaram a habitar as mentes \u2013 digo melhor, quando todas as pessoas passaram a habitar os seus celulares. Acaso exagero? N\u00e3o exagero, minha gente. Quinze anos atr\u00e1s e nossas vidas eram completamente diferentes, e todo mundo parece ter se esquecido, ou, imersos na coisa, parece que ainda n\u00e3o nos demos conta dessa gigantesca transforma\u00e7\u00e3o. As novas gera\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o, mal imaginam um passado diferente, assim como n\u00f3s imaginamos um mundo sem eletricidade, sem autom\u00f3veis. E, creiam-me, s\u00e3o muitos desses nossos h\u00e1bitos contempor\u00e2neos que, minando-nos desde a base, impedem-nos de fazer prop\u00f3sitos, de execut\u00e1-los, de perseverar neles.<\/p>\n<p>Uma das consequ\u00eancias mais vis\u00edveis dos novos h\u00e1bitos contempor\u00e2neos, especialmente do uso intensivo da <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/internet\/\">internet <\/a>e das novas redes sociais, \u00e9 a eros\u00e3o progressiva da nossa capacidade de prestar aten\u00e7\u00e3o e de nos concentrar em algo por um per\u00edodo prolongado. O fluxo constante de informa\u00e7\u00f5es, mensagens, imagens e notifica\u00e7\u00f5es disputa incessantemente a nossa aten\u00e7\u00e3o. Como s\u00f3 somos capazes de nos concentrar verdadeiramente em uma coisa por vez, essa multiplicidade de est\u00edmulos for\u00e7a o indiv\u00edduo a deslocar o foco continuamente entre diferentes fluxos de informa\u00e7\u00e3o, enfraquecendo, com o tempo, a capacidade de aten\u00e7\u00e3o sustentada. O problema atingiu tal propor\u00e7\u00e3o que, mesmo em ambientes universit\u00e1rios, tornou-se cada vez mais raro encontrar estudantes que consigam ler um livro inteiro do in\u00edcio ao fim! As redes sociais, em especial aquelas baseadas em v\u00eddeos curtos, agravam ainda mais esse quadro. O fluxo incessante de imagens reduz a capacidade de ignorar distra\u00e7\u00f5es e de manter o foco em algo concreto, o que afeta negativamente diversas fun\u00e7\u00f5es cognitivas. Plataformas como o <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/tiktok\/\">TikTok<\/a> operam com algoritmos desenhados para maximizar a reten\u00e7\u00e3o do usu\u00e1rio por meio de est\u00edmulos r\u00e1pidos e sucessivos, produzindo descargas frequentes de dopamina e criando um ciclo de uso cada vez mais viciante (n\u00e3o deixem de ler o livro do pesquisador argentino <a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Desligue-celular-ligue-seu-c%C3%A9rebro\/dp\/6580136286\/ref=sr_1_1?crid=MF6WXRW1S0YY&amp;dib=eyJ2IjoiMSJ9.CCvqiaCE5hx0e7XHyC5KjIjxVU3Fmd2tPTn-fypfNFg4o7TF7t-AXKR6BAoz29KO.2H0daePsUTvYOKbqXgp_rRGVKe9AVmJXEslv6h01-F8&amp;dib_tag=se&amp;keywords=desligue+o+celular+e+ligue+o+seu+c%C3%A9rebro&amp;qid=1767965794&amp;sprefix=desligue+o+%2Caps%2C219&amp;sr=8-1\">Pablo Mu\u00f1oz Iturrieta<\/a>, ali\u00e1s. \u00c9 esclarecedor \u2013 e exasperador).<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Explica ele em seu livro que o pr\u00f3prio uso cotidiano do computador j\u00e1 envolve, por si s\u00f3, a realiza\u00e7\u00e3o constante de m\u00faltiplas tarefas: alternar entre programas, mudar de telas, abrir diversas abas no navegador, responder mensagens, escutar \u00e1udios, acompanhar notifica\u00e7\u00f5es que surgem sem cessar. Inevitavelmente, esse modo de funcionamento adapta o c\u00e9rebro a deslocar o centro da aten\u00e7\u00e3o de uma atividade para outra em fra\u00e7\u00f5es de segundo, treinando-o para responder a est\u00edmulos cont\u00ednuos. O resultado \u00e9 uma habilidade aparente de \u201cpular\u201d rapidamente de uma coisa para outra. O problema \u00e9 que essa suposta habilidade interfere diretamente na capacidade de manter o foco em uma \u00fanica tarefa cognitiva por mais tempo, justamente porque enfraquece uma compet\u00eancia essencial: a de ignorar distra\u00e7\u00f5es. Em termos pr\u00e1ticos, isso significa que a capacidade de concentra\u00e7\u00e3o tende a ser inversamente proporcional \u00e0 frequ\u00eancia com que realizamos m\u00faltiplas tarefas no ambiente digital. Quantas vezes, por exemplo, algu\u00e9m come\u00e7a a ler um livro com a inten\u00e7\u00e3o de concluir ao menos um cap\u00edtulo e, poucos minutos depois, uma mensagem no celular interrompe completamente esse prop\u00f3sito? O que se costuma chamar de \u201cmultitarefa\u201d n\u00e3o corresponde, na verdade, a uma nova e sofisticada capacidade cognitiva, mas a um <em>padr\u00e3o superficial de comportamento<\/em>, frequentemente associado a mecanismos de depend\u00eancia. Estamos nos treinando, a cada dia, para sermos levianos e manipul\u00e1veis.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o se agrava quando consideramos o fluxo cont\u00ednuo de imagens e sons que capturam nossa aten\u00e7\u00e3o e nos obrigam a processar novas experi\u00eancias a cada poucos segundos. O impacto do algoritmo do TikTok sobre a aten\u00e7\u00e3o de <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/criancas\/\">crian\u00e7as <\/a>e <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/tudo-sobre\/adolescentes\/\">adolescentes <\/a>tem sido amplamente documentado. Executivos da pr\u00f3pria empresa admitiram que, em 2021, v\u00eddeos com mais de 60 segundos geravam estresse em cerca de metade dos usu\u00e1rios. O motivo alegado era simples e alarmante: muitos n\u00e3o conseguiam manter a concentra\u00e7\u00e3o por tanto tempo. Esse fluxo constante de v\u00eddeos afetava diretamente a capacidade de aten\u00e7\u00e3o, raz\u00e3o pela qual o algoritmo passou a privilegiar conte\u00fados ainda mais curtos&#8230; Considerando que o principal grupo demogr\u00e1fico do TikTok engloba pessoas entre 13 e 40 anos, os problemas de aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m afetam os adultos, inclusive aqueles com c\u00e9rebros plenamente desenvolvidos, uma vez que o fluxo cont\u00ednuo de est\u00edmulos influencia os processos cognitivos, o comportamento e at\u00e9 a arquitetura neural. Fal\u00e1vamos sobre prop\u00f3sitos para um ano inteiro?<\/p>\n<p>A perda da aten\u00e7\u00e3o, contudo, n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica consequ\u00eancia negativa desse cen\u00e1rio. Assim como advertia S\u00f3crates, quando mencionava aquele mito eg\u00edpcio sobre a escrita, a qual traria riscos para a mem\u00f3ria, in\u00fameros estudos cient\u00edficos contempor\u00e2neos, trazidos ainda pelo professor Iturrieta, indicam que a internet exerce um efeito prejudicial sobre os processos de conhecimento e de memoriza\u00e7\u00e3o. Torna-se cada vez mais evidente a tend\u00eancia de aceitar como verdadeiro tudo aquilo que se encontra on-line, o que \u00e9 particularmente perigoso em um ambiente sujeito a manipula\u00e7\u00f5es constantes. E que faremos agora com as ilus\u00f5es da intelig\u00eancia artificial? Isto ainda est\u00e1 por acontecer, mais ainda por se estudar e compreender. Quando toda informa\u00e7\u00e3o parece estar sempre dispon\u00edvel a um clique de dist\u00e2ncia, torna-se desnecess\u00e1rio lembrar. J\u00e1 n\u00e3o precisamos guardar dados, pois podemos consult\u00e1-los a qualquer momento. Esse fen\u00f4meno \u00e9 facilmente observ\u00e1vel no cotidiano: h\u00e1 poucas d\u00e9cadas, era comum que as pessoas decorassem dezenas de n\u00fameros de telefone; hoje, muitos j\u00e1 n\u00e3o se lembram sequer do pr\u00f3prio n\u00famero. E para qu\u00ea? O que ocorreu n\u00e3o foi apenas uma mudan\u00e7a de h\u00e1bito, mas uma altera\u00e7\u00e3o na forma como a mem\u00f3ria opera.<\/p>\n<blockquote>\n<p>O que se costuma chamar de \u201cmultitarefa\u201d n\u00e3o corresponde, na verdade, a uma nova e sofisticada capacidade cognitiva, mas a um <em>padr\u00e3o superficial de comportamento<\/em>, frequentemente associado a mecanismos de depend\u00eancia<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Algo semelhante ocorre, segundo aquele mesmo estudo, com tecnologias como a fotografia digital. Ao registrar uma imagem, tendemos a nos lembrar menos do objeto ou do lugar fotografado, pois, de maneira quase inconsciente, sabemos que sempre poderemos recorrer \u00e0 imagem armazenada. N\u00e3o guardamos mais a experi\u00eancia; terceirizamos a lembran\u00e7a. Ou seja, estamos alimentando uma grande massa de mem\u00f3rias on-line, com fotos de bons momentos no Instagram, por exemplo, s\u00f3 que para ningu\u00e9m. N\u00e3o s\u00e3o de ningu\u00e9m, nem para ningu\u00e9m, s\u00e3o queimadas num instante pelo fogo r\u00e1pido da aten\u00e7\u00e3o picotada. N\u00e3o guardamos nossas mem\u00f3rias, e alimentamos nossa mente ansiosa com o fluxo veloz de mem\u00f3rias dos outros, que evanescem.<\/p>\n<p>E o fazemos compulsivamente, compulsoriamente, avidamente, quase desesperadamente. Qual foi a \u00faltima vez que voc\u00ea leu o cap\u00edtulo inteiro de um livro sem pegar o celular na m\u00e3o para verificar as notifica\u00e7\u00f5es? Qual foi a \u00faltima vez que terminou seu treino de academia sem ver as mensagens que tinham chegado no WhatsApp? Meu Deus, qual foi a \u00faltima vez que esperou numa fila (uma fila de cinco minutos, qualquer m\u00ednima espera, no caixa do mercado, por exemplo) sem recorrer ao celular, sem correr pelos <em>stories <\/em>do Instagram? Nota que, talvez, em momentos de estresse ou de tens\u00e3o em casa, quando os filhos demandam cuidado ou est\u00e3o chorando de cansa\u00e7o, voc\u00ea sente um impulso de encontrar consolo e conforto abrindo o celular? Algo o chama, algo promete aplacar a sua ansiedade \u2013 e de fato aplaca, por uns instantes. Os processos qu\u00edmicos e cerebrais desse uso podem ser melhor compreendidos em livros como os de <a href=\"https:\/\/www.amazon.com.br\/Na%C3%A7%C3%A3o-dopamina-excesso-deixando-infelizes\/dp\/6586551714\/ref=sr_1_1?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&amp;crid=1BSD6BXQVA2ME&amp;dib=eyJ2IjoiMSJ9.XzzHDHok9Z8a4nYz_mvT7Hw9r7pfbsiIyl9TYl2DJQ4VdtsBHU6J3HCV--Lskc7_Lcmivv1o2oU9O8evVB0gXxr1pgmwd-l_P84ZKdTDPBn_MOB831AeWnj4dT4inm-jBV3lQf0cO7-mxxAvGImb5vzCivoObK0zrD_42mNGZOAJ_nC5h7sBy31ZISpPLmmT83jAOr6bdhbt_ABBRib4gjziMaRw9kNg2GxsjI469-IYR9v-aK67pR3uo7yCGoE67qyYr3GaMW8OTk6GLVaiq2HRQAGKmhY3dwx5kR_o-Vo.EjnRn7eM0wISUf1h4UZM5QDx-lZL9IIx-TflVfane04&amp;dib_tag=se&amp;keywords=Anna+Lembke&amp;qid=1767967889&amp;sprefix=anna+lembke%2Caps%2C459&amp;sr=8-1\">Anna Lembke<\/a>.<\/p>\n<p>Assim vivemos num estado constante de ansiedade, ansiando, desejando matar a fome com um man\u00e1 pernicioso, que evanesce antes de mesmo de chegar \u00e0 boca, e que s\u00f3 aumenta o nosso apetite. Ent\u00e3o, antes de nos entregarmos ingenuamente, aos prop\u00f3sitos de Ano Novo, que ser\u00e3o frustra\u00e7\u00f5es passageiras apenas para diminuir nossa autoconfian\u00e7a e autoestima, para radicalizar mais, quem sabe, nosso abandono \u00e0s distra\u00e7\u00f5es e ao estado de coisas, eu sugiro a voc\u00ea que fa\u00e7a, para j\u00e1, alguns pr\u00e9-prop\u00f3sitos. Sim, metas a serem atingidas como que para limpar o terreno, para recuperar, como dissemos no in\u00edcio, a nossa sanidade b\u00e1sica, um pouco de normalidade. Em suma, primeiro de tudo e antes de qualquer coisa, <em>afaste-se do v\u00edcio no celular e na distra\u00e7\u00e3o<\/em>. Volte a ter algum dom\u00ednio m\u00ednimo da sua aten\u00e7\u00e3o, da sua mem\u00f3ria, da sua presen\u00e7a no ambiente \u2013 no lar, no trabalho \u2013, tome de volta um pouco do controle da sua mente. Cuide primeiro dessa ansiedade constante, muda, corrosiva dos dias, e abra espa\u00e7o para a paz. Em seguida, voc\u00ea poder\u00e1 ler mais livros, fazer mais esportes, passar mais tempo com algu\u00e9m, e assim por diante. Limpe o terreno antes de plantar.<\/p>\n<p>VEJA TAMB\u00c9M:<\/p>\n<p>Aqui algumas dicas b\u00e1sicas, para orientar os primeiros passos:<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><strong>1.<\/strong> Em primeiro lugar, <strong><em>reconhe\u00e7a o problema<\/em><\/strong>. N\u00e3o \u00e9 verdade que voc\u00ea \u201cpode parar a qualquer hora\u201d, como diz o alc\u00f3olatra cl\u00e1ssico. N\u00e3o \u00e9 verdade que esse problema \u00e9 leve, que hoje em dia todo mundo \u00e9 assim, e portanto tudo bem. Meu amigo, minha amiga, conven\u00e7a-se de uma vez: esse problema \u00e9 grave, voc\u00ea \u00e9 um viciado, muitos de n\u00f3s estamos viciados e dependentes da coisa como um viciado em drogas mesmo, e as consequ\u00eancias t\u00eam apenas uma apar\u00eancia mais leve. Desse modo perde-se uma vida. Ent\u00e3o encare o v\u00edcio e o t\u00e9dio como adulto, reconhe\u00e7a a causa da afli\u00e7\u00e3o quando ela vier, identifique o seu movimento interno que busca o celular, a distra\u00e7\u00e3o qualquer, e resista.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><strong>2.<\/strong> Segundo, e indispens\u00e1vel, <strong><em>interrompa o gesto autom\u00e1tico<\/em><\/strong>. N\u00e3o confie na sua for\u00e7a de vontade \u2013 \u00e9 exatamente este o problema, ela est\u00e1 fragilizada, quase anulada. Voc\u00ea precisa \u201creconstitui-la\u201d nesse sentido, atenuando a dificuldade. Ent\u00e3o, delimite o tempo e a ocasi\u00e3o de uso do celular, e, quando n\u00e3o for o momento de utiliz\u00e1-lo, ponha-o fora do alcance. Numa gaveta, numa caixa, no c\u00f4modo l\u00e1 do fundo, no alto da prateleira, enfim: verdadeiramente longe do alcance, de modo que o gesto autom\u00e1tico de pux\u00e1-lo e abri-lo n\u00e3o seja poss\u00edvel.<\/p>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><strong>3.<\/strong> <em><strong>Apague os aplicativos<\/strong> <\/em>que lhe fazem mal. Est\u00e1 disposto a um per\u00edodo de \u201cdetox\u201d, como se vem dizendo? Ent\u00e3o exclua do seu aparelho e da sua disponibilidade imediata os aplicativos das redes sociais e quaisquer outros que induzam voc\u00ea a essa adic\u00e7\u00e3o. Estou dizendo que n\u00e3o devemos ter redes sociais e n\u00e3o utiliz\u00e1-las nunca? N\u00e3o estou; estou apenas sugerindo prop\u00f3sitos para voc\u00ea se reerguer e come\u00e7ar um ano novo com a mente minimamente em paz. Fique sem eles por algumas semanas ao menos. Fa\u00e7a uma limpeza naquilo tudo que usa e que ocupa o seu tempo.<\/p>\n<blockquote>\n<p><em>Afaste-se do v\u00edcio no celular e na distra\u00e7\u00e3o<\/em>. Volte a ter algum dom\u00ednio m\u00ednimo da sua aten\u00e7\u00e3o, da sua mem\u00f3ria, da sua presen\u00e7a no ambiente \u2013 no lar, no trabalho \u2013, tome de volta um pouco do controle da sua mente<\/p>\n<\/blockquote>\n<p class=\"postParagraph_post-paragraph__juWZN postParagraph_post-paragraph-innerHtml__Q5vwc\"><strong>4.<\/strong> Dica: quando estiver em apuros e a coisa apertar, quando vier a ansiedade ou o t\u00e9dio, <strong><em>fa\u00e7a algo concreto<\/em><\/strong>. Movimente o seu corpo, fa\u00e7a algum gesto minimamente concreto com come\u00e7o, meio e fim, com o m\u00ednimo de inten\u00e7\u00e3o: arrume algum foco de bagun\u00e7a, lave uma lou\u00e7a, pique uma cebola. N\u00e3o corra para grandes metas ou grandes desafios: sua aten\u00e7\u00e3o e sua for\u00e7a de vontade precisam ser recuperadas aos poucos, como num tratamento. O mesmo vale para os momentos de aten\u00e7\u00e3o focada, de estudo, por exemplo: cumpra com rigor e com firmeza pequenos per\u00edodos e, entre eles, recorra a outras tarefas menores como as que acabo de citar (n\u00e3o ceda \u00e0 rolagem sem sentido, n\u00e3o). Para quem tem f\u00e9, fazer uma pequena ora\u00e7\u00e3o \u00e9 um gesto concreto, intencional e eficaz, que al\u00e9m do mais alcan\u00e7a do C\u00e9u uma ajuda.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o, \u00e9 esta a solu\u00e7\u00e3o para todos os nossos problemas? N\u00e3o, repito o que j\u00e1 disse mais de uma vez: este \u00e9 apenas o come\u00e7o. Estas que enumerei s\u00e3o meras dicas para que nos livremos um pouco, e temporariamente, do v\u00edcio na satisfa\u00e7\u00e3o f\u00e1cil, do condicionamento qu\u00edmico-cerebral a que os <em>smartphones<\/em> e seus amigos nos submeteram. Mas eles estar\u00e3o \u00e0 espreita, bem como todos os muitos elementos da nossa cultura contempor\u00e2nea. E sabem o que mais? Eles, na verdade, n\u00e3o s\u00e3o inimigos externos. Eles s\u00e3o aproveitadores e aumentadores de anseios profundos que est\u00e3o em nossa pr\u00f3pria natureza deca\u00edda. Os psic\u00f3logos modernos prestaram, sem d\u00favida, um servi\u00e7o not\u00e1vel ao estudar a ansiedade e ao revelar aspectos da natureza humana antes pouco explorados. No entanto, a causa \u00faltima da ansiedade n\u00e3o \u00e9 apenas psicol\u00f3gica. Suas ra\u00edzes s\u00e3o mais profundas.<\/p>\n<p>A ansiedade pode assumir formas novas em uma civiliza\u00e7\u00e3o desordenada, e a nova era de adic\u00e7\u00e3o qu\u00edmica \u00e9 com certeza um \u00e1pice e um esc\u00e2ndalo cultural e psicol\u00f3gico, mas, de um modo ou de outro, a ac\u00eddia e a tibieza estiveram sempre presentes na condi\u00e7\u00e3o humana. Como escapar da ansiedade que parece impregnar a vida contempor\u00e2nea? A resposta passa por essas f\u00f3rmulas r\u00e1pidas e t\u00e9cnicas, por exerc\u00edcios emergenciais. Mas e depois? Nossos verdadeiros prop\u00f3sitos de ano novo, de vida nova, compor\u00e3o uma reordena\u00e7\u00e3o profunda do interior humano. Em sua raiz, ansiedades e frustra\u00e7\u00f5es nascem de desejos descontrolados, pois que, quando a alma n\u00e3o obt\u00e9m aquilo que deseja, cai facilmente na tristeza e na ang\u00fastia. A vida do homem \u00e9 sempre uma busca pela felicidade, e n\u00e3o a felicidade mesma, n\u00e3o ainda, n\u00e3o neste mundo. Mas esforcemo-nos na caminhada.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, saiamos dessa escravid\u00e3o digital, desse dreno de vida que tanto se assemelha a um cen\u00e1rio de v\u00edcios. Limpemos o terreno, levantemo-nos, pois. Feliz ano novo!<\/p>\n<\/div>\n<p>Conte\u00fado editado por: <a title=\"Link para o perfil de Marcio Antonio Campos\" href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/autor\/marcio-antonio-campos\/\">Marcio Antonio Campos<\/a><\/p>\n<p>Encontrou algo errado na mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>Comunique erros<\/p>\n<p>Use este espa\u00e7o apenas para a comunica\u00e7\u00e3o de erros<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sem nos livrarmos do v\u00edcio em internet e m\u00eddias sociais, nenhum prop\u00f3sito de ano novo se tornar\u00e1 realidade. 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