{"id":102967,"date":"2026-01-07T09:46:43","date_gmt":"2026-01-07T13:46:43","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=102967"},"modified":"2026-01-07T09:46:43","modified_gmt":"2026-01-07T13:46:43","slug":"enquanto-os-eua-mudam-sua-estrategia-a-diplomacia-do-brasil-esta-presa-nos-anos-1990","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=102967","title":{"rendered":"Enquanto os EUA mudam sua estrat\u00e9gia, a diplomacia do Brasil est\u00e1 presa nos anos 1990"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>Na <a href=\"https:\/\/www.gazetadopovo.com.br\/ideias\/estrategia-eua-fim-hegemonia-liberal-realismo\/\">primeira parte deste artigo<\/a>, analisei os princ\u00edpios que estruturam a nova Estrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional dos Estados Unidos: o abandono das ilus\u00f5es hegem\u00f4nicas do p\u00f3s-Guerra Fria, a acomoda\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica entre grandes pot\u00eancias, a revaloriza\u00e7\u00e3o do Hemisf\u00e9rio Ocidental e o retorno expl\u00edcito \u00e0 l\u00f3gica do poder, da hierarquia e das escolhas duras.<\/p>\n<p>\u00a0Essa reorienta\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica dos EUA, que reposiciona a Am\u00e9rica Latina no centro do c\u00e1lculo geopol\u00edtico de Washington, evidencia, por contraste brutal, o grau de desorienta\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa brasileira sob o governo Lula, que se revela n\u00e3o apenas anacr\u00f4nica, mas estruturalmente incapaz de operar em um sistema internacional que premia o planejamento e pune o improviso.<\/p>\n<p>Em um sistema internacional que voltou a operar segundo l\u00f3gica de poder, competi\u00e7\u00e3o geoecon\u00f4mica e hierarquias regionais claras, o Brasil insiste em uma diplomacia conceitualmente ultrapassada, operacionalmente fr\u00e1gil e estrategicamente subserviente. A diplomacia lulopetista \u00e9 mero <em>inv\u00f3lucro<\/em>, pois n\u00e3o disp\u00f5e de uma <em>pol\u00edtica externa consubstanciada em uma grande estrat\u00e9gia<\/em>, mas exclusivamente de uma <em>pr\u00e1xis diplom\u00e1tica formal<\/em> que consiste em <em>slogans<\/em>, maneirismos afetados e apego desorientado a representa\u00e7\u00f5es abstratas de poder que encontram cada vez menos respaldo na realidade objetiva. N\u00e3o se trata de erro pontual ou ru\u00eddo t\u00e1tico, mas de incapacidade estrutural de formular interesses nacionais coerentes e de convert\u00ea-los em a\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica consistente.<\/p>\n<p>Para compreender a gravidade desse descompasso, \u00e9 preciso esclarecer o que est\u00e1 em jogo. Grande estrat\u00e9gia n\u00e3o \u00e9 diplomacia cotidiana, nem soma de pol\u00edticas setoriais, tampouco ret\u00f3rica diplom\u00e1tica ou ativismo internacional difuso. Trata-se do arcabou\u00e7o intelectual e pol\u00edtico que integra meios e fins do Estado, articulando poder militar, capacidade econ\u00f4mica, base produtiva, pol\u00edtica externa, tecnologia e coes\u00e3o interna em torno de interesses nacionais hierarquizados no longo prazo. \u00c9 a arte de alinhar recursos limitados a objetivos essenciais em um ambiente de competi\u00e7\u00e3o permanente \u2013 e, sobretudo, de fazer escolhas.<\/p>\n<p>A grande estrat\u00e9gia existe para responder a perguntas basilares: o que \u00e9 vital, o que \u00e9 secund\u00e1rio e o que pode ser sacrificado. Ela define onde engajar, onde conter, onde acomodar, onde recuar, onde alocar recursos. Sem esse quadro, o Estado se torna ref\u00e9m de agendas dispersas, press\u00f5es circunstanciais e impulsos ideol\u00f3gicos. N\u00e3o por acaso, pot\u00eancias que falham em sua formula\u00e7\u00e3o tendem a desperdi\u00e7ar recursos, perder autonomia e reagir aos acontecimentos em vez de mold\u00e1-los. No caso do Brasil lulopetista, sobretudo no atual contexto de transforma\u00e7\u00e3o das for\u00e7as que regem a ordem internacional, a aus\u00eancia de uma grande estrat\u00e9gia tende a aprofundar a irrelev\u00e2ncia do Pa\u00eds em temas geoecon\u00f4micos, tecnol\u00f3gicos e militares, sem preju\u00edzo de outros.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1, no Brasil de Lula, um projeto que integre desenvolvimento, defesa, economia, seguran\u00e7a, ind\u00fastria, com\u00e9rcio exterior e inser\u00e7\u00e3o internacional. O pa\u00eds opera por reflexos, <em>slogans<\/em> e improvisos, reagindo tardiamente aos movimentos alheios em vez de moldar o pr\u00f3prio entorno estrat\u00e9gico.<\/p>\n<p>\u00c9 exatamente essa lacuna que define a pol\u00edtica externa brasileira atual. Enquanto Washington redefine prioridades, aceita limites e reorganiza sua proje\u00e7\u00e3o global com base em crit\u00e9rios objetivos de poder e risco, Bras\u00edlia continua a agir como se o mundo ainda fosse regido pelo multilateralismo abstrato dos anos 1990. A diplomacia brasileira permanece ancorada em no\u00e7\u00f5es vagas de \u201cmultilateralismo\u201d, \u201cdi\u00e1logo intercultural\u201d e \u201cSul Global\u201d, conceitos que n\u00e3o s\u00e3o traduzidos em interesses nacionais claramente definidos, nem em ganhos concretos de poder, influ\u00eancia ou seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Os formuladores e executores da pol\u00edtica externa n\u00e3o se deram conta de que a autonomia estrat\u00e9gica com a qual o Brasil \u2013 e, <em>grosso modo<\/em>, os demais pa\u00edses latino-americanos, conforme destaquei na primeira parte deste artigo \u2013 contou nos \u00faltimos 35 anos <em>n\u00e3o existe mais<\/em>. Ela decorreu, em ampla medida, do relativo desengajamento dos EUA do Hemisf\u00e9rio Ocidental entre o fim da Guerra Fria e o in\u00edcio do atual mandato de Trump, tendo sido <em>pessimamente empregada<\/em> por todos os governos de esquerda da regi\u00e3o. Na ordem que ora se conforma, o custo de se opor aos interesses estrat\u00e9gicos americanos na regi\u00e3o \u00e9 brutalmente superior \u00e0quele das \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o militar na Venezuela exp\u00f5e essa nova realidade: \u00e0 luz da NSS 2025, a captura de Maduro n\u00e3o deve ser vista, exclusivamente, sob a lente prim\u00e1ria da mudan\u00e7a de regime, do combate ao tr\u00e1fico internacional de drogas, do fortalecimento do controle migrat\u00f3rio norte-americano, da defesa da democracia ou mesmo da cust\u00f3dia virtual de reservas petrol\u00edferas correspondentes a 303 bilh\u00f5es de barris, mas sim da perspectiva de que Caracas operava como um <em>hub<\/em> de interesses antag\u00f4nicos aos de Washington na Am\u00e9rica Latina: uma plataforma operacional chinesa, russa e iraniana para a promo\u00e7\u00e3o multissetorial de a\u00e7\u00f5es e projetos que amea\u00e7avam (e amea\u00e7am) interesses que o governo dos EUA considera vitais. N\u00e3o que, \u00e0 queda de Maduro, faltem sucessores regionais que se proponham a dan\u00e7ar e proferir diatribes e amea\u00e7as aos EUA e seu governo, como atestam as recentes declara\u00e7\u00f5es dos presidentes colombiano Gustavo Petro e cubano Miguel D\u00edaz-Canel. Creio n\u00e3o convenha especular se os mandat\u00e1rios s\u00e3o inconsequentes, loucos ou ambas as coisas.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de grande estrat\u00e9gia torna-se particularmente vis\u00edvel na Am\u00e9rica do Sul. O Brasil, historicamente o principal polo de gravidade regional, abdicou de exercer lideran\u00e7a estrat\u00e9gica, por temor ou simples incapacidade. Em vez de estruturar um espa\u00e7o regional minimamente coeso \u2013 pol\u00edtica, econ\u00f4mica e geopoliticamente \u2013 optou por uma diplomacia passiva, reativa e autocentrada. Sem objetivos claros, o pa\u00eds confunde peso econ\u00f4mico e demogr\u00e1fico com influ\u00eancia e milit\u00e2ncia ideol\u00f3gica com lideran\u00e7a. O resultado \u00e9 um v\u00e1cuo de poder ocupado por atores externos e por rearranjos regionais dos quais o Brasil participa apenas marginalmente.<\/p>\n<p>O contraste com pa\u00edses vizinhos \u00e9 eloquente. Enquanto governos sul-americanos, guinando para a direita, como exposto em artigo nesta Gazeta, reorganizam alian\u00e7as, explicitam orienta\u00e7\u00f5es program\u00e1ticas e constroem coaliz\u00f5es pol\u00edticas regionais com objetivos definidos, o Brasil se isola, preso a uma vis\u00e3o consensualista que j\u00e1 n\u00e3o encontra eco no continente. A integra\u00e7\u00e3o regional, antes instrumento potencial de proje\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, sobretudo no que diz respeito \u00e0 sua vertente infraestrutural, foi reduzida a um ritual diplom\u00e1tico sem capacidade de coordena\u00e7\u00e3o real.<\/p>\n<p>No novo contexto hemisf\u00e9rico, a postura brasileira \u00e9 especialmente custosa. A estrat\u00e9gia americana n\u00e3o \u00e9 neutra, tampouco inclusiva. Ela opera por alinhamentos seletivos, coer\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, press\u00e3o regulat\u00f3ria e demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a militar. Pa\u00edses que n\u00e3o se posicionam claramente deixam de ser sujeitos da pol\u00edtica regional e passam a ser tratados como objetos de gest\u00e3o estrat\u00e9gica.<\/p>\n<p>Washington concebe o hemisf\u00e9rio ocidental como \u00e1rea vital a ser protegida da presen\u00e7a estrat\u00e9gica de pot\u00eancias extra-hemisf\u00e9ricas. Infraestrutura, energia, log\u00edstica, telecomunica\u00e7\u00f5es, minerais cr\u00edticos e cadeias de suprimento passaram a ser tratados como ativos de seguran\u00e7a nacional. Essa l\u00f3gica redefine as regras do jogo, especialmente para o Brasil. Ignorar essa mudan\u00e7a n\u00e3o preserva autonomia. Ao contr\u00e1rio, exp\u00f5e o pa\u00eds \u00e0 press\u00e3o externa sem instrumentos de barganha.<\/p>\n<p>Essa defici\u00eancia estrutural tamb\u00e9m explica a rela\u00e7\u00e3o desequilibrada do Brasil com a China. Sob Lula, Pequim deixou de ser apenas um parceiro comercial relevante e passou a ocupar posi\u00e7\u00e3o central na inser\u00e7\u00e3o internacional brasileira, sem que isso tenha sido enquadrado por uma estrat\u00e9gia de balanceamento, atra\u00e7\u00e3o de investimentos, transfer\u00eancia de tecnologia, diversifica\u00e7\u00e3o ou prote\u00e7\u00e3o de interesses sens\u00edveis.<\/p>\n<p>Hoje, mais de 30% das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras t\u00eam como destino o mercado chin\u00eas, concentradas em <em>commodities<\/em> de baixo valor agregado. O Brasil importa, por sua vez, bens industriais, tecnologia e insumos estrat\u00e9gicos. Trata-se de uma rela\u00e7\u00e3o estruturalmente assim\u00e9trica, na qual o pa\u00eds aceita passivamente uma din\u00e2mica baseada na exporta\u00e7\u00e3o de <em>commodities<\/em> e na depend\u00eancia tecnol\u00f3gica, que cria e amplia vulnerabilidades, como a reprimariza\u00e7\u00e3o da economia e a fragiliza\u00e7\u00e3o da base industrial.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, Pequim amplia sua presen\u00e7a no territ\u00f3rio brasileiro em setores estrat\u00e9gicos como energia, portos, ferrovias, telecomunica\u00e7\u00f5es e tecnologia digital. Do ponto de vista norte-americano, esses investimentos j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o vistos apenas como neg\u00f3cios, mas como vetores de influ\u00eancia geopol\u00edtica e vulnerabilidade estrat\u00e9gica. Essa percep\u00e7\u00e3o orienta pol\u00edticas industriais, san\u00e7\u00f5es, controles de exporta\u00e7\u00e3o e press\u00e3o diplom\u00e1tica.<\/p>\n<p>Ainda assim, o governo evita qualquer pol\u00edtica de diversifica\u00e7\u00e3o s\u00e9ria, prote\u00e7\u00e3o de setores sens\u00edveis ou condicionamento estrat\u00e9gico da rela\u00e7\u00e3o bilateral. N\u00e3o h\u00e1 balanceamento, n\u00e3o h\u00e1 linhas vermelhas, n\u00e3o h\u00e1 estrat\u00e9gia, apenas acomoda\u00e7\u00e3o. Age como se a geopol\u00edtica fosse um ru\u00eddo externo irrelevante, quando, na realidade, ela j\u00e1 molda decis\u00f5es comerciais, financeiras e tecnol\u00f3gicas em escala global.<\/p>\n<p>Essa ambiguidade n\u00e3o produz autonomia. Produz vulnerabilidade. Uma grande estrat\u00e9gia teria imposto limites, definido setores cr\u00edticos, protegido capacidades nacionais e condicionado a coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica a objetivos pol\u00edticos, comerciais, tecnol\u00f3gicos e industriais claros. Nada disso ocorreu.<\/p>\n<p>Em vez disso, o Brasil naturalizou uma rela\u00e7\u00e3o assim\u00e9trica, evita qualquer posicionamento firme em temas sens\u00edveis aos interesses chineses e abdica, na pr\u00e1tica, de autonomia estrat\u00e9gica, tudo isso sob o discurso gen\u00e9rico do pragmatismo. Ao n\u00e3o definir uma estrat\u00e9gia pr\u00f3pria para lidar com a China, o Brasil se torna progressivamente dependente de decis\u00f5es tomadas fora de seu controle.<\/p>\n<p>O mesmo padr\u00e3o se repete na diplomacia ambiental. Elevada a eixo central da proje\u00e7\u00e3o internacional do governo, a agenda clim\u00e1tica \u00e9 tratada como fim em si mesma, e n\u00e3o como instrumento de poder. Compromissos amplos s\u00e3o assumidos, constrangimentos externos s\u00e3o aceitos, mas esses ativos pol\u00edticos n\u00e3o s\u00e3o convertidos em vantagens estrat\u00e9gicas dur\u00e1veis, investimentos estruturantes ou fortalecimento da posi\u00e7\u00e3o internacional do pa\u00eds. Uma grande estrat\u00e9gia teria transformado capital ambiental em poder; a atual diplomacia limita-se a acumular constrangimentos e sair em fotos ao lado de companhias, digamos, question\u00e1veis.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a diplomacia ambiental brasileira padece de um erro de c\u00e1lculo geoestrat\u00e9gico grosseiro, pois confere \u00e0s concep\u00e7\u00f5es ambientais de determinados pa\u00edses europeus relev\u00e2ncia objetiva inspirada principalmente na autoatribu\u00edda \u201csuperioridade moral\u201d que tais pa\u00edses proclamam. Utilizar metas propostas por pot\u00eancias europeias para fins de <em>benchmark<\/em> ambiental em diversos setores \u00e9, na melhor das hip\u00f3teses, um contrassenso, e, na melhor, uma piada grotesca, particularmente para um pa\u00eds que, como o Brasil, precisa se reindustrializar.<\/p>\n<p>A participa\u00e7\u00e3o do setor industrial nas economias dos pa\u00edses da zona do euro, que em 2000 correspondia a 20%, foi, em 2024, de 13%. Somente entre 2023 e 2024, a produ\u00e7\u00e3o industrial dos pa\u00edses da zona do euro teve queda de 2,2%. O carro-chefe desse espet\u00e1culo de zelotismo autocongratulat\u00f3rio e destruidor da economia real \u00e9 a Alemanha, cuja produ\u00e7\u00e3o industrial despencou 12% (!) entre 2019 e junho de 2025. \u00c9 nesse exemplo de suic\u00eddio econ\u00f4mico que a diplomacia ambiental brasileira parece se inspirar.<\/p>\n<p>Somados, esses elementos revelam uma pol\u00edtica externa sem arquitetura, sem hierarquia de interesses e sem vis\u00e3o de longo prazo. Em um sistema internacional marcado por competi\u00e7\u00e3o entre grandes pot\u00eancias, instrumentaliza\u00e7\u00e3o da economia e reorganiza\u00e7\u00e3o de esferas de influ\u00eancia, o Brasil opera como se a simples participa\u00e7\u00e3o em f\u00f3runs multilaterais fosse suficiente para garantir relev\u00e2ncia.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de grande estrat\u00e9gia se manifesta de forma especialmente grave na \u00e1rea de defesa. O discurso oficial fala em autonomia estrat\u00e9gica, mas os investimentos s\u00e3o insuficientes, o planejamento \u00e9 fragmentado e as capacidades militares n\u00e3o est\u00e3o articuladas a uma vis\u00e3o geopol\u00edtica coerente.<\/p>\n<p>O Atl\u00e2ntico Sul, vital para o com\u00e9rcio exterior, para a seguran\u00e7a energ\u00e9tica, para as comunica\u00e7\u00f5es submarinas e para a soberania nacional, permanece insuficientemente protegido. O crime organizado transnacional \u2013 conectado a rotas globais de tr\u00e1fico, lavagem de dinheiro e contrabando \u2013 avan\u00e7a mais rapidamente do que a capacidade estatal de resposta.<\/p>\n<p>Em um cen\u00e1rio no qual os EUA refor\u00e7am sua presen\u00e7a naval no Caribe, reavaliam o controle de rotas estrat\u00e9gicas e tratam o hemisf\u00e9rio como \u00e1rea priorit\u00e1ria, essa fragilidade brasileira n\u00e3o \u00e9 te\u00f3rica, mas risco estrat\u00e9gico concreto. Falar em soberania sem capacidade dissuas\u00f3ria deixou de ser ingenuidade. Tornou-se imprud\u00eancia.<\/p>\n<p>A nova NSS dos EUA deixa claro que o tempo da ambiguidade estrat\u00e9gica acabou. Pot\u00eancias est\u00e3o escolhendo prioridades, delimitando espa\u00e7os de interesse e exigindo posicionamentos mais claros de seus entornos estrat\u00e9gicos. Nesse mundo, o Brasil surge como um ator paradoxal: grande demais para ser ignorado, mas cada vez mais irrelevante por falta de vis\u00e3o estrat\u00e9gica, em contexto no qual a aus\u00eancia de uma grande estrat\u00e9gia n\u00e3o \u00e9 neutralidade sofisticada \u2013 \u00e9 vulnerabilidade estrutural. E vulnerabilidade, em um sistema governado por poder, raramente permanece sem custo e consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Parte central do problema reside em uma diplomacia anacr\u00f4nica, inadequadamente estruturada no que diz respeito \u00e0 carreira, aparelhada, que se move por in\u00e9rcia, herm\u00e9tica, avessa \u00e0 moderniza\u00e7\u00e3o, presa a tradi\u00e7\u00f5es que j\u00e1 n\u00e3o resistem ao peso do tempo, resistente a revisar seus pressupostos e enlevada por sua autopercep\u00e7\u00e3o de ser um centro de excel\u00eancia. O mundo mudou, a estrat\u00e9gia americana mudou, a competi\u00e7\u00e3o entre grandes pot\u00eancias se intensificou, mas o discurso brasileiro permanece ancorado em um ambiente internacional que j\u00e1 n\u00e3o existe e a pr\u00e1ticas, m\u00e9todos e conceitos ultrapassados.<\/p>\n<p>Pol\u00edtica externa n\u00e3o se faz no v\u00e1cuo. Um pa\u00eds com o peso geopol\u00edtico do Brasil n\u00e3o pode se contentar com uma diplomacia reativa e conformista sempre a reboque dos acontecimentos, que pouco influencia as rela\u00e7\u00f5es internacionais, mas sofre em demasia os efeitos das pol\u00edticas dos <em>global players<\/em>.<\/p>\n<p>Tradi\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas diplom\u00e1ticas s\u00f3 fazem sentido e mant\u00eam sua legitimidade quando s\u00e3o manifestamente convergentes com o interesse nacional mais amplo, alicer\u00e7adas em diretrizes de pol\u00edtica externa que estejam alinhadas a uma grande estrat\u00e9gia de na\u00e7\u00e3o. A ades\u00e3o cega a \u201ctradi\u00e7\u00f5es\u201d trai o pr\u00f3prio conceito de diplomacia estrat\u00e9gica e prejudica toda a na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O balan\u00e7o final \u00e9 severo. Enquanto as grandes pot\u00eancias voltam a pensar o mundo em termos de poder, territ\u00f3rio, hierarquia e interesse nacional, a pol\u00edtica externa de Lula revela-se incapaz de operar nesse ambiente. N\u00e3o por falta de recursos, peso econ\u00f4mico ou relev\u00e2ncia regional, mas por um d\u00e9ficit estrutural de pensamento estrat\u00e9gico e por sua l\u00f3gica intr\u00ednseca de parasita\u00e7\u00e3o do Estado.<\/p>\n<p>Isso se traduz em depend\u00eancia geopol\u00edtica, fragilidade econ\u00f4mica, perda de influ\u00eancia regional e redu\u00e7\u00e3o da capacidade de proteger interesses nacionais vitais. Em um hemisf\u00e9rio que deixou de ser perif\u00e9rico para voltar ao centro do c\u00e1lculo geoestrat\u00e9gico, o custo para o Brasil, nesse cen\u00e1rio, \u00e9 de uma crescente marginaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Marcos Degaut \u00e9 doutor em Seguran\u00e7a Internacional, pesquisador s\u00eanior na University of Central Florida (EUA), ex-secret\u00e1rio especial adjunto de Assuntos Estrat\u00e9gicos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica e ex-secret\u00e1rio de Produtos de Defesa do Minist\u00e9rio da Defesa.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na primeira parte deste artigo, analisei os princ\u00edpios que estruturam a nova Estrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional dos Estados Unidos: o&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":102968,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-102967","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/102967","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=102967"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/102967\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/102968"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=102967"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=102967"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=102967"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}