{"id":100005,"date":"2026-01-06T08:04:33","date_gmt":"2026-01-06T12:04:33","guid":{"rendered":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=100005"},"modified":"2026-01-06T08:04:33","modified_gmt":"2026-01-06T12:04:33","slug":"a-nova-estrategia-dos-eua-o-fim-da-hegemonia-liberal-e-a-volta-ao-realismo-de-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/villanews.com.br\/?p=100005","title":{"rendered":"A nova estrat\u00e9gia dos EUA: o fim da hegemonia liberal e a volta ao realismo de poder"},"content":{"rendered":"<div class=\"postBody_post-body-container__1KhtH\">\n<p>A nova Estrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional (NSS) dos Estados Unidos, divulgada no \u00faltimo dia 4 de dezembro, representa a mais profunda reorienta\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa americana desde o fim da Guerra Fria, com diversas implica\u00e7\u00f5es para a ordem internacional. Ao romper explicitamente com os dogmas do globalismo e do livre-com\u00e9rcio (considerado unilateral) e abandonar o projeto de hegemonia liberal global, o documento consagra uma inflex\u00e3o estrat\u00e9gica fundada no realismo, no equil\u00edbrio de poder, na seletividade geogr\u00e1fica e na defesa priorit\u00e1ria do territ\u00f3rio nacional e do hemisf\u00e9rio ocidental.\u00a0<\/p>\n<p>Antes de passarmos a uma an\u00e1lise mais detalhada da NSS, cumpre comentar sua primeira materializa\u00e7\u00e3o: a opera\u00e7\u00e3o militar <em>Absolute Resolve<\/em>, realizada nas primeiras horas de 3 de janeiro corrente, sobre o territ\u00f3rio da Venezuela, e resultante na destrui\u00e7\u00e3o de instala\u00e7\u00f5es militares, de comunica\u00e7\u00f5es e de sistemas de armas do pa\u00eds sul-americano, bem como na captura do ditador Nicol\u00e1s Maduro e sua esposa e c\u00famplice nos crimes de terrorismo e tr\u00e1fico internacional de entorpecentes, Cilia Flores.\u00a0<\/p>\n<p>O que ocorreu em Caracas \u00e9 menos importante desde a perspectiva t\u00e1tica militar espec\u00edfica do que em rela\u00e7\u00e3o a uma mudan\u00e7a fundamental no paradigma das intera\u00e7\u00f5es entre os EUA e pot\u00eancias hostis mundo afora, em geral, e no Hemisf\u00e9rio Ocidental, em particular. Ademais de haver, na esteira de uma opera\u00e7\u00e3o militar que durou cerca de 90 minutos, transferido \u00e0 cust\u00f3dia virtual dos EUA reservas petrol\u00edferas correspondentes a 303 bilh\u00f5es de barris (USD 17 trilh\u00f5es, com base na cota\u00e7\u00e3o atual), a a\u00e7\u00e3o norte-americana assinala o fim da (pessimamente utilizada) <em>autonomia estrat\u00e9gica ampla<\/em> da qual os pa\u00edses latino-americanos dispuseram nos \u00faltimos 35 anos.\u00a0<\/p>\n<p>Sobreveio, para a surpresa de lideran\u00e7as (aliadas ou antag\u00f4nicas) na Am\u00e9rica Latina e em todo o mundo, uma <em>reprecifica\u00e7\u00e3o brutal<\/em> do custo de se opor aos interesses estrat\u00e9gicos dos Estados Unidos no Hemisf\u00e9rio Ocidental. Trata-se de realidade que n\u00e3o ter\u00e1 escapado a nenhuma capital regional, do M\u00e9xico a Bras\u00edlia, e que poderia ter tido sua estrutura te\u00f3rica desvelada pela leitura atenta da <em>National Security Strategy<\/em>, publicada quase um m\u00eas antes da opera\u00e7\u00e3o militar na Venezuela.<\/p>\n<p>Retornemos \u00e0 an\u00e1lise: no centro <em>da reorienta\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica proposta<\/em>, est\u00e1 a rejei\u00e7\u00e3o expl\u00edcita da ideia de que os EUA devam sustentar a ordem internacional como seu principal fiador pol\u00edtico, militar e econ\u00f4mico, o que teria enfraquecido o pa\u00eds, drenado recursos e aumentado o risco de envolvimento em guerras entre grandes pot\u00eancias. Nesse cen\u00e1rio, Washington redefine sua atua\u00e7\u00e3o como a de uma grande pot\u00eancia que reconhece limites, escolhe prioridades e aceita a l\u00f3gica de um mundo multipolar.\u00a0<\/p>\n<p>Ainda assim \u2013 e este \u00e9 um dado revelador \u2013, a NSS foi recebida no Brasil com um sil\u00eancio quase absoluto por parte da m\u00eddia, como se uma mudan\u00e7a estrutural na estrat\u00e9gia da principal pot\u00eancia do sistema internacional fosse um detalhe irrelevante.<\/p>\n<p>Essa indiferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 casual. Ela exp\u00f5e a precariedade do debate estrat\u00e9gico brasileiro, marcado por reflexos ideol\u00f3gicos, apego ret\u00f3rico, carreirismo burocr\u00e1tico travestido de comprometimento estrat\u00e9gico, f\u00f3rmulas diplom\u00e1ticas esvaziadas (a exemplo da defesa simpl\u00f3ria do multilateralismo como um fim em si mesmo e da aplica\u00e7\u00e3o ideologicamente seletiva de normas de Direito Internacional P\u00fablico, sem preju\u00edzo de outras que ser\u00e3o abordadas na segunda parte deste ensaio) e profunda incapacidade de pensar poder, hierarquia e conflito em termos concretos, refletindo a aus\u00eancia de dire\u00e7\u00e3o de uma na\u00e7\u00e3o que insiste em se conectar ao mundo sem compreend\u00ea-lo.<\/p>\n<h2>Estrat\u00e9gia como escolha: menos ambi\u00e7\u00e3o, mais foco<\/h2>\n<p>O ponto de partida da NSS \u00e9 um diagn\u00f3stico contundente: ao tentar transformar praticamente qualquer tema internacional em interesse vital, os EUA acabaram por n\u00e3o priorizar nada. A expans\u00e3o ilimitada da agenda externa diluiu recursos, corroeu apoio interno e gerou guerras prolongadas sem ganhos proporcionais.<\/p>\n<p>Exemplos dessa estrat\u00e9gia dispersiva e custosa s\u00e3o a presen\u00e7a militar dos Estados Unidos no Afeganist\u00e3o (2001-2021), a II Guerra do Golfo (2003) e o envolvimento norte-americano nas mudan\u00e7as de regime na L\u00edbia e no Egito, na esteira da \u201cPrimavera \u00c1rabe\u201d (2010-2012), e na Guerra Civil S\u00edria (2011-2024), dentre outros.<\/p>\n<p>A nova NSS resgata um princ\u00edpio elementar do pensamento estrat\u00e9gico: estrat\u00e9gia exige escolha, e escolher implica renunciar. Nem todos os pa\u00edses, regi\u00f5es ou causas podem estar no centro da pol\u00edtica externa americana. O foco passa a ser a prote\u00e7\u00e3o dos interesses nacionais centrais: seguran\u00e7a do territ\u00f3rio, estabilidade geopol\u00edtica entre grandes pot\u00eancias e preserva\u00e7\u00e3o da base econ\u00f4mica, industrial e tecnol\u00f3gica que sustenta o poder militar.\u00a0<\/p>\n<p>Nesse ponto, o documento avan\u00e7a al\u00e9m do campo estritamente militar e assume dimens\u00e3o pol\u00edtico-econ\u00f4mica decisiva. O fortalecimento da ind\u00fastria \u2013 sobretudo da Base Cient\u00edfica, Tecnol\u00f3gica e Industrial de Defesa, tamb\u00e9m integrada pela dimens\u00e3o correspondente \u00e0 Intelig\u00eancia Artificial (IA) \u2013 deixa de ser tratado como quest\u00e3o t\u00e9cnica ou setorial e passa a ser compreendido como instrumento central de poder nacional. Sem capacidades industriais aut\u00f4nomas robustas, a dissuas\u00e3o perde credibilidade.<\/p>\n<p>Reindustrializar, nesse contexto, significa gerar empregos qualificados, reconstruir cadeias produtivas dom\u00e9sticas, reduzir vulnerabilidades externas e recuperar a capacidade de sustentar conflitos de alta intensidade por per\u00edodos prolongados, algo que a desindustrializa\u00e7\u00e3o das \u00faltimas d\u00e9cadas tornou cada vez mais improv\u00e1vel. Parte-se do pressuposto de que mercados n\u00e3o s\u00e3o neutros do ponto de vista estrat\u00e9gico. A depend\u00eancia excessiva de cadeias globais de suprimento, a externaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e a submiss\u00e3o irrestrita \u00e0s l\u00f3gicas do livre-com\u00e9rcio revelaram-se fontes de fragilidade nacional.<\/p>\n<p>Autonomia estrat\u00e9gica, nessa vis\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 autarquia, mas capacidade estatal de garantir os meios materiais da pr\u00f3pria seguran\u00e7a. Nesse ponto, a NSS rompe com o paradigma globalista dominante desde os anos 1990, ao sustentar que o livre-com\u00e9rcio unilateral e a deslocaliza\u00e7\u00e3o industrial enfraqueceram gravemente a Base Industrial de Defesa americana, degradando sua capacidade de produzir armamentos, muni\u00e7\u00f5es, plataformas a\u00e9reas, navais e terrestres, sistemas estrat\u00e9gicos, equipamentos m\u00e9dicos e medicamentos em escala compat\u00edvel com as necessidades de um <em>hegemon<\/em>.<\/p>\n<p>Mais do que isso, afirma-se que essas pol\u00edticas contribu\u00edram diretamente para a ascens\u00e3o da China como principal rival dos EUA, processo alimentado por trilh\u00f5es de d\u00f3lares em subs\u00eddios indiretos, acesso privilegiado ao mercado americano e transfer\u00eancia de tecnologia em diversos setores. O que foi apresentado como efici\u00eancia econ\u00f4mica revelou-se, do ponto de vista estrat\u00e9gico, uma <em>monumental transfer\u00eancia de poder<\/em>.<\/p>\n<p>Nesse contexto, reverter a desindustrializa\u00e7\u00e3o, encurtar cadeias de suprimento e reduzir depend\u00eancias externas passam a ser objetivos estrat\u00e9gicos t\u00e3o relevantes quanto alian\u00e7as formais ou presen\u00e7a militar avan\u00e7ada. Essa reorienta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m busca atrair investimentos produtivos de longo prazo, ao sinalizar que Washington est\u00e1 disposta a coordenar, proteger e priorizar setores considerados cr\u00edticos \u2013 da ind\u00fastria b\u00e9lica \u00e0s tecnologias sens\u00edveis, passando por energia, minerais estrat\u00e9gicos, log\u00edstica, semicondutores e <em>data centers<\/em> de intelig\u00eancia artificial, dentre outros.\u00a0<\/p>\n<p>O resultado esperado \u00e9 duplo: refor\u00e7ar a capacidade militar e reconstruir o pacto social interno, duramente afetado pela desindustrializa\u00e7\u00e3o, pela precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e pela eros\u00e3o da classe m\u00e9dia.\u00a0<\/p>\n<p>Em termos te\u00f3ricos, trata-se de uma ruptura clara com os princ\u00edpios cl\u00e1ssicos do liberalismo econ\u00f4mico, que pressup\u00f5em a separa\u00e7\u00e3o entre economia e seguran\u00e7a e a primazia da efici\u00eancia de mercado sobre considera\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas. A NSS adota uma l\u00f3gica de economia pol\u00edtica do poder, na qual Estado, ind\u00fastria e seguran\u00e7a nacional s\u00e3o partes indissoci\u00e1veis de um mesmo projeto estrat\u00e9gico.<\/p>\n<p>Ao recentrar sua pol\u00edtica externa nesses pilares, os EUA abandonam a ambi\u00e7\u00e3o de administrar o mundo e passam a concentrar-se prioritariamente naquilo que consideram essencial \u00e0 sua sobreviv\u00eancia como grande pot\u00eancia. Menos ambi\u00e7\u00e3o universal, mais foco estrat\u00e9gico. Menos ret\u00f3rica normativa, mais capacidade material. \u00c9 essa l\u00f3gica, inc\u00f4moda para globalistas, que estrutura a nova grande estrat\u00e9gia americana.<\/p>\n<h2>De superpot\u00eancia global a pot\u00eancia hemisf\u00e9rica<\/h2>\n<p>Um dos eixos centrais do documento \u00e9 a redefini\u00e7\u00e3o do papel geopol\u00edtico dos EUA, transitando de uma superpot\u00eancia com compromissos globais difusos para uma pot\u00eancia predominantemente hemisf\u00e9rica e retomando uma l\u00f3gica estrat\u00e9gica anterior \u00e0 Segunda Guerra Mundial. A ambi\u00e7\u00e3o de presen\u00e7a universal cede lugar \u00e0 prioriza\u00e7\u00e3o expl\u00edcita do espa\u00e7o geogr\u00e1fico considerado vital \u00e0 seguran\u00e7a americana.<\/p>\n<p>Nesse novo arranjo em que o Hemisf\u00e9rio Ocidental assume centralidade, os objetivos priorit\u00e1rios s\u00e3o a prote\u00e7\u00e3o das fronteiras nacionais, o combate ao crime transnacional, o controle dos fluxos migrat\u00f3rios e a exclus\u00e3o de pot\u00eancias extra-hemisf\u00e9ricas de posi\u00e7\u00f5es militares, log\u00edsticas ou infraestruturais relevantes na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Para a consecu\u00e7\u00e3o de seus objetivos, Washington limitar\u00e1, se necess\u00e1rio, a autonomia estrat\u00e9gica de pa\u00edses do Hemisf\u00e9rio Ocidental, particularmente no que tange a parcerias estrat\u00e9gicas de com pot\u00eancias extra-regionais que possam perfazer amea\u00e7a aos interesses estrat\u00e9gicos americanos.\u00a0<\/p>\n<p>Essa abordagem, interpretada como uma atualiza\u00e7\u00e3o da Doutrina Monroe agora adaptada ao contexto da competi\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica com China e R\u00fassia, retira Am\u00e9rica Latina e Caribe da periferia diplom\u00e1tica e as recoloca como componentes diretos da seguran\u00e7a nacional americana,\u00a0 tend\u00eancia que j\u00e1 se materializava na concentra\u00e7\u00e3o de meios navais no Caribe, na press\u00e3o sobre o regime venezuelano (culminando na opera\u00e7\u00e3o <em>Absolute Resolve<\/em>), na revaloriza\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica do Canal do Panam\u00e1 como gargalo log\u00edstico cr\u00edtico e no interesse expl\u00edcito pela Groenl\u00e2ndia como ativo fundamental para a proje\u00e7\u00e3o de poder e vigil\u00e2ncia no \u00c1rtico.<\/p>\n<p>Coerente com essa l\u00f3gica, a estrat\u00e9gia antecipa uma redistribui\u00e7\u00e3o estrutural das for\u00e7as armadas americanas. A presen\u00e7a militar permanente na Europa e no Oriente M\u00e9dio tende a ser reduzida, enquanto recursos, capacidades e aten\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica s\u00e3o progressivamente realocados para a defesa do territ\u00f3rio nacional e do Hemisf\u00e9rio Ocidental. Trata-se, em ess\u00eancia, de uma contra\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica do poder americano, n\u00e3o por fraqueza, mas por escolha estrat\u00e9gica.<\/p>\n<h2>China e R\u00fassia: realismo, acomoda\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica e o retorno do equil\u00edbrio de poder<\/h2>\n<p>Talvez nenhuma mudan\u00e7a seja t\u00e3o reveladora da ruptura promovida pela nova NSS quanto a reinterpreta\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea das rela\u00e7\u00f5es com China e R\u00fassia. Ao contr\u00e1rio da NSS de 2017, e, sobretudo, da adotada durante o governo Biden, o documento abandona a linguagem da amea\u00e7a existencial, da cruzada ideol\u00f3gica e da confronta\u00e7\u00e3o permanente entre democracias e autocracias.<\/p>\n<p>A China deixa de ser descrita como <em>pacing challenge<\/em> militar ou inimigo sist\u00eamico inevit\u00e1vel, sendo caracterizada como competidora econ\u00f4mica e tecnol\u00f3gica, defendendo-se a coexist\u00eancia pac\u00edfica, a reciprocidade comercial e a competi\u00e7\u00e3o regulada, em vez de uma estrat\u00e9gia de conten\u00e7\u00e3o militar abrangente no Indo-Pac\u00edfico. Trata-se de uma escolha deliberada: Washington reconhece que uma escalada direta com Pequim elevaria exponencialmente os riscos de um conflito entre superpot\u00eancias nucleares, com custos humanos, econ\u00f4micos e estrat\u00e9gicos incalcul\u00e1veis.<\/p>\n<p>Essa inflex\u00e3o contrasta frontalmente com a abordagem do governo Biden, que tratou a rivalidade com a China como eixo organizador quase exclusivo da pol\u00edtica externa americana, ampliando alian\u00e7as militares, estimulando uma l\u00f3gica de blocos e aprofundando a militariza\u00e7\u00e3o do Indo-Pac\u00edfico, sobretudo por meio do Di\u00e1logo de Seguran\u00e7a Quadrilateral (QUAD, integrado por EUA, Jap\u00e3o, \u00cdndia e Austr\u00e1lia) e da parceria AUKUS (integrada por EUA, Austr\u00e1lia e Reino Unido). A nova NSS rejeita essa trajet\u00f3ria por consider\u00e1-la insustent\u00e1vel, perigosa e, paradoxalmente, contraproducente aos pr\u00f3prios interesses americanos.<\/p>\n<p>No caso da R\u00fassia, a ruptura \u00e9 ainda mais evidente. Abandona-se a l\u00f3gica da hostilidade estrutural e da conten\u00e7\u00e3o permanente que marcou a pol\u00edtica americana desde 2014, na esteira da anexa\u00e7\u00e3o russa da Crimeia, e radicalizada ap\u00f3s o in\u00edcio da guerra da Ucr\u00e2nia (2022). Em seu lugar, prop\u00f5e-se uma reaproxima\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica, com o objetivo de transformar Moscou de advers\u00e1rio em parceiro geoestrat\u00e9gico circunstancial. O c\u00e1lculo \u00e9 claro: neutralizar a alian\u00e7a estrat\u00e9gica entre R\u00fassia e China e restaurar um m\u00ednimo de estabilidade na arquitetura de seguran\u00e7a europeia.<\/p>\n<p>Aqui, a inspira\u00e7\u00e3o no realismo cl\u00e1ssico \u00e9 inequ\u00edvoca. Assim como Henry Kissinger, nos anos 1970, explorou a rivalidade sino-sovi\u00e9tica para preservar o equil\u00edbrio global, a nova NSS reconhece que o maior erro estrat\u00e9gico de Washington nas \u00faltimas d\u00e9cadas foi empurrar Moscou para os bra\u00e7os de Pequim. A coopera\u00e7\u00e3o seletiva com a R\u00fassia, ainda que entre atores com valores pol\u00edticos profundamente distintos, \u00e9 apresentada n\u00e3o como concess\u00e3o moral, mas como imperativo estrat\u00e9gico.<\/p>\n<p>Esse retorno expl\u00edcito ao realismo \u2013 inc\u00f4modo para globalistas, intervencionistas liberais e \u201cneocons\u201d \u2013 redefine toda a l\u00f3gica da pol\u00edtica externa dos Estados Unidos. Competidores n\u00e3o s\u00e3o automaticamente inimigos; advers\u00e1rios n\u00e3o precisam ser eternos; e disputas regionais n\u00e3o justificam a mobiliza\u00e7\u00e3o permanente do aparato militar global.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que a Am\u00e9rica Latina reaparece com for\u00e7a renovada na estrat\u00e9gia americana. Ao optar por acomodar China e R\u00fassia no tabuleiro global, Washington desloca seu foco para onde considera vital: o hemisf\u00e9rio ocidental. A conten\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a chinesa, russa e iraniana na regi\u00e3o, o controle de rotas estrat\u00e9gicas, infraestruturas cr\u00edticas e cadeias de suprimento, e a estabilidade pol\u00edtica do entorno imediato dos EUA passam a ser prioridades centrais, com implica\u00e7\u00f5es diretas, profundas e ainda pouco debatidas para o Brasil.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio sepulcral da pol\u00edtica externa brasileira diante dessa reconfigura\u00e7\u00e3o reflete a aus\u00eancia de uma grande estrat\u00e9gia nacional capaz de compreender que o mundo voltou a ser governado por escolhas duras, hierarquias de poder e interesses nacionais expl\u00edcitos. E sil\u00eancio, em pol\u00edtica internacional, nunca \u00e9 neutralidade: \u00e9 irrelev\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Enquanto Washington redefine suas prioridades com brutal clareza, rejeitando guerras intermin\u00e1veis, acomodando rivais e concentrando poder onde considera vital para atender aos interesses nacionais, em estrat\u00e9gia realista sobre limites, custos e prioridades, Bras\u00edlia permanece presa a <em>slogans<\/em>, automatismos ideol\u00f3gicos e uma diplomacia desprovida tanto de conceitos quanto de conte\u00fado.\u00a0<\/p>\n<p>A incapacidade de ler essa inflex\u00e3o estrat\u00e9gica e de responder a ela com uma vis\u00e3o clara acerca dos interesses nacionais a serem perseguidos, conjugando fins, meios, recursos e atores pol\u00edticos (econ\u00f4micos, industriais, militares e tecnol\u00f3gicos) representa risco pol\u00edtico de primeira ordem. \u00c9 precisamente sobre esse descompasso entre a clareza geopol\u00edtica de Washington e a aus\u00eancia de uma grande estrat\u00e9gia brasileira que trataremos na segunda parte deste artigo.<\/p>\n<p><em>Marcos Degaut \u00e9 doutor em Seguran\u00e7a Internacional, pesquisador s\u00eanior na University of Central Florida (EUA), ex-secret\u00e1rio especial adjunto de Assuntos Estrat\u00e9gicos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica e ex-secret\u00e1rio de Produtos de Defesa do Minist\u00e9rio da Defesa.<\/em><\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A nova Estrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional (NSS) dos Estados Unidos, divulgada no \u00faltimo dia 4 de dezembro, representa a mais&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":100006,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[204],"tags":[],"class_list":["post-100005","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ultimas-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/100005","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=100005"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/100005\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/100006"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=100005"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=100005"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/villanews.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=100005"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}